revolta

imagine uma linha reta. pontos A & B. de um lado eu, do outro você. hoje eu amanheci querendo te ver, mas isso não importa. também amanheci com dor de cabeça depois de chorar cantando palavras escritas por outra pessoa que acabaram por se encaixar melhor do que qualquer coisa que eu já escrevi. sofro desse mal. sofro também com uma memória curta. tenho medo de esquecer. teu toque ou teu cheiro ou o gosto do teu beijo. isso me revolta.

não posso confiar à minha memória a missão de ser feliz. preciso relegar a tarefa ao meu tato e ao teu cabelo enroscado nos meus dedos na estação tamanduateí. preciso lembrar de cada passo que dei antes de cair no fundo do poço que é essa cidade onde sempre vivi.

você se confunde com os prédios do centro. eu corro contra o vento que vem anunciando o próximo trem. o barulho é muito alto e eu não sei de onde vem. não me importa. isso me revolta. nessa cidade tão mais fria não existe trem. nessa cidade o céu é de um azul que lembra os olhos que aqui não tem. até mesmo eu me confundo sob a luz pois os olhos parecem mudar também. eu só sei que cada minuto que passa é um tiro mirado bem no centro do meu peito.

e sim, eu exagero. hipérbole é minha muleta. longe de ti só ela me mantém de pé. enquanto sentado, escrevo. é só o que posso fazer. em breve, voo. em breve, fico. e depois?