A Sensibilidade do Empreendedorismo

A palavra empreender sempre me causou um pouco de intimidação. Não sei se porque eu não me considerava capaz ou apto para ser um bom empreendedor. Ou talvez porque eu me sentisse um pouco obrigado a ter esse perfil. Afinal de contas, em tempos modernos e críticos, quem não tiver uma ideia genial e for capaz de concretiza-la perdeu seu tempo na Terra. Errado. Existem muitos caminhos na vida além do empreendedorismo, esse é apenas uma das trajetórias que podemos escolher traçar dentro de um mar de possibilidades oferecidos pela vida. Por mais que a mídia e a sociedade nos pressionem a seguir algumas diretrizes, nós ainda temos o poder de escolha.

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Pensando nisso, decidi me aprofundar no conceito de empreendedorismo e embarcar em um novo mundo de descobertas. Fiquei chocado como nós temos um mundo de informação na palma das nossas mãos e esquecemos de usá-lo. Ouço essa palavra mais de uma vez por dia e nunca tinha me dado o trabalho de procurar a definição dela na língua portuguesa. Para aqueles — que como eu — não tinham ido atrás do significado etimológico da palavra empreendedorismo aqui está o seu significado: é a disposição para identificar problemas e oportunidades e investir recursos e competências na criação de um negócio, projeto ou movimento que seja capaz de alavancar mudanças e gerar um impacto positivo. O que torna o empreendedor aquele que possui a sensibilidade necessária para essa percepção de oportunidades.

Tudo ficou mais confuso ainda. Eu, que não me via nem perto dessa classificação, comecei a me identificar com o conceito e percebi que passei grande parte da minha vida profissional — e pessoal em alguns momentos — empreendendo. Quando eu vi minha cabeça estava a mil e eu não conseguia parar de pensar em coisas que eu poderia fazer, limites que eu poderia transgredir e mudanças que eu poderia causar. O perfil de empreendedor se encaixava com o meu perfil a partir do momento em que ele pretendia causar impactos positivos. Sejam institucionais, sociais ou capitais, a visão de empreender estava sempre pensando para frente. Comecei a pensar as minhas ideias com as minhas ferramentas e percebi o quão escassas elas eram. Até que em determinado momento eu me toquei de uma parceira que não tinha dado muita importância mais uma vez: a internet.

O mundo digital está tão presente e naturalizado no nosso cotidiano que muitas vezes esquecemos de racionaliza-lo e usá-lo para além do óbvio. Nós nos esquecemos do poder de comunicação que temos a nossa disposição 24h por dia. Um boato lançado na internet pode ter consequências catastróficas na vida das pessoas. Assim como a veiculação de notícias e informações pode ajudar muita gente em diversas situações. Na visão empreendedora, uma ideia aplicada no meio digital pode elevar o nível de alcance do seu projeto a uma altura que nem você tenha almejado tanto. Nós não temos o controle na era da informação. Podemos pesquisar, estudar, planejar e idealizar resultados para que tudo saia perto do que pretendíamos. Uma vez que algo é lançado na rede, isso para de pertencer somente a nós e passa a ter influências de todos aqueles que tem acesso, interpretam, compartilham e propagam o seu pensamento.

Entre as maiores dificuldades e desafios de empreender é fazer-se compreender nessa era. Não deve haver margens para mal entendimentos ou interpretações erradas. A sua ideia deve atingir as pessoas de forma que elas imediatamente percebam o impacto positivo daquele projeto em suas vidas. A clareza da informação vem a partir de dois elementos essenciais: pesquisa e organização. Toda cabeça que deseja empreender deve pesquisar e estudar profundamente o problema o qual está propondo a solução. Para que não haja dúvidas na cabeça dos receptores, não pode haver dúvidas na cabeça dos propagadores. Depois da apreensão de muitas informações, a organização entra como ferramenta chave: o que estamos fazendo? Para quem? Como? Saber responder a todas essas perguntas e outras que possam surgir só é possível depois de organizar os nossos pensamentos.

Quando temos uma ideia e conceito consolidado em nossas cabeças, chega a hora de planejar o nascimento e o início da vida desse embrião. Esse projeto passa a ser um filho e todo mundo sabe que para cuidar de um bebê é necessário muito planejamento. Um dos motores dessa etapa é a estratégia. Analisar os riscos e as oportunidades para que esse recém-nascido sofra o menor número de imprevistos possíveis e — caso haja alguma fatalidade — estar pronto para se livrar dos problemas. Até porque problemas fazem parte da vida, nós só não podemos deixá-los impedirem que sigamos o nosso fluxo. Cuidamos desse filho e o protegemos com o maior carinho que há, mas uma vez em contato com o mundo, ele segue seu rumo sozinho. Aos pais, resta observar e garantir a assistência para que ele continue se desenvolvendo e crescendo de maneira saudável.

Foi pensando na vida e na natureza que eu consegui descobrir a beleza do empreendedorismo. Não é sobre ter ideias geniais e ganhar dinheiro em tempo de crise, muito menos ter a sua própria empresa e ser independente. Empreender não é o caminho para ser dono do próprio nariz custe o que custar e nunca mais ter que lidar com um chefe ou superior. Tem muito de todos esses fatores também, mas pessoalmente vejo eles como consequências do ato em si. Ser empreendedor — principalmente na era da informação — é garantir mudanças significativas e duradouras na vida das pessoas para melhor. É saber o que falta no mundo para que a nossa vivência se torne melhor e mais saudável. Isso não torna ninguém melhor ou pior do que quem não quer ser empreendedor. Não torna herói ou o salvador da humanidade quem tem esse pensamento. Cada um escolhe o caminho certo para si. Sem pressões, exigências, certo ou errado. Pelo menos é assim que deveria ser. Todos os papéis desempenhados colaboram para que o nosso mundo funcione. Os empreendedores são apenas os que buscam inovações e soluções criativas para os problemas mais ordinários da humanidade.

Por Rodrigo Cohen