Despadronização

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Quando buscamos o significado de “despadronizar” em qualquer site de busca da internet nos deparamos com a seguinte definição: “Retirar do padrão; marginalizar de acordo com um padrão”. Então, a despadronização estaria relacionada ao princípio de que existe um modo ou modelo “correto”, como centro da nossa sociedade, visto como padrão ou “o normal” que serve como base para toda população. Os outros, ou seja, qualquer um que esteja fora deste modelo, são estranhos à essa definição e não fazem parte do seleto grupo dos padrões, muitas vezes sendo vistos de modo inferior e pejorativo. Bem, essa definição nada tem a ver com o que essa expressão vem buscando. Atualmente, o “despadronizar” tomou como sentido tornar as particularidades de cada pessoa como seu próprio padrão, dentre tantos outros, que, reunidos, passam a ser periféricos e nenhum central, sem haver um padrão correto, modelo ou base comparativa. (Até porque, somos feitos de diferenças.)

Nos soa estranho ou, no mínimo, incomodo que ainda tenhamos um modelo padrão “superior” em um mundo tão globalizado e interligado como o que vivemos hoje, não é mesmo? Principalmente no país em que habitamos, onde nossa população é muito diversificada, resultado de uma miscigenação intensa, desde o nosso descobrimento. Atualmente, temos acesso a diversas culturas, tendências, costumes, inovações e uma infinidade de outros elementos estranhos e novos a nós, sem sairmos de casa, seja onde for. Isso nos torna muito mais capazes, sensitivos e conscientes de que o certo e o errado, no modo de viver e fazer escolhas, é algo muito relativo e pessoal. Isso deveria nos fazer pensar no quão primitivo é termos um padrão dentro da nossa sociedade contemporânea, e como isso está se tornando cada vez mais sem sentido, nos levando a caminhar para a reflexão do coletivo, rompendo assim, os limites dos padrões.

Acredito que estejamos cada vez mais próximos de entender e nos conscientizar que a nossa forma de pensar, agir e enxergar o mundo é tão particular quanto a escolha do que vamos vestir ao acordar (porém, muito mais complexa). Despadronizar uma sociedade e seu modo de pensar muito tem a ver com empatia, em se colocar no lugar do outro, sem se projetar no outro (e este é um desafio e tanto, que muitos ainda não entendem). É uma forma de nos relacionarmos não mais verticalmente, mas horizontalmente, onde todos tem sua razão, todos os princípios são respeitados e nada disso é baseado em um único, imutável e soberano modelo. Padronizar nunca esteve tão fora de contexto como hoje, quando sabemos que somos feitos de diferenças e existem cada vez mais pessoas conscientes e dispostas a tornar essa nova definição, uma realidade. A despadronização envolve tantos assuntos e acolhe tantas pessoas que se torna difícil se posicionar de forma unificada. Despadronizar é quando o filho gay abre o jogo para a família e continua sendo tão acolhido quanto o filho hétero, pois ambos vivem dentro de seus princípios e formas que se sentem felizes e realizados. É o cara do corte black power não receber olhares de surpresa ou estranhamento na rua, pois ele está tão estiloso e de bem com sua auto estima quanto o outro, que usa gel no cabelo curto. São os estudantes dos cursos de arte, design e humanas serem reconhecidos com a mesma relevância das outras áreas, pois precisam de muito estudo e empenho como qualquer outro, e exercem um papel tão fundamental quanto, na sociedade.

A verdade é que os padrões nos cercam de maneira tão massificada e abrangem tantas áreas que os tornam fatores difíceis de serem trabalhados de uma só maneira para sua desconstrução, porém, existem muitas pessoas prestando atenção e chamando atenção para esse assunto tão importante, que nos faz agentes ativos e responsáveis, todos os dias, de conscientizarmos mais pessoas, para buscarmos viver em uma sociedade cada vez mais despadronizada e unificada.

Por Camilla Pires

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