Breve sobre feminilidade

[opinião | feminilidade]

“We have seen a 30% rise in women requesting a smaller nipple size in the last year [2016]” (in The Plastic Surgery Group)

[tendência. mamilos. reduzidos. tendência. o que antecede o ridículo?]

O baralho está gasto. Naipes de esquemas: perceptivos, avaliativos e práticos. 
O trunfo está gasto: dominação simbólica.

Arrisquemos outra cartada: o corpo feminino é um ato político e a feminilidade é um ato performativo. O seu reconhecimento esbarra na economia das trocas simbólicas de Bourdieu, com a fêmea socialmente situada enquanto objecto de troca, um ativo coparticipante na construção do capital simbólico masculino (Pierre Bourdieu, Dominação Masculina, Relógio d’Água, ed. 2013).

Como é que eu me objectifico? 
Pela subordinação à ordem. Recorrendo à violência simbólica (slut-shaming é ápice nesta montanha), o estabelecimento da ordem abandona as estruturas cognoscentes e naturaliza-se quer para dominador, quer para dominado. Neste ethos, as que de nós rompem com a teleologia patriarcal são proscritas — não parecem mulheres: maria-rapaz, sapatão, macha, a serena-williams-não-é-gaja–, ou seja, os sujeitos socialmente considerados inautênticos são fêmeas que conseguem rejeitar, ou afastar-se, do desempenho da feminilidade.

Como assim, o simulacro é o real?
O género não é inato, aprendemos com Beauvoir e a segunda vaga feminista. Desse processo de construção identitária resultamos mulheres (Simone Beauvoir, O Segundo Sexo, vol.I/II, Quetzal) e o IMI por habitar um corpo feminino é, provavelmente, o imposto mais elevado do mundo.

DR: Julia Roberts foi alvo de críticas por optar não remover pelos.

A semiótica da feminilidade é tão escandalosamente cara que, recebendo menos do que um homem pela mesma função, pagamos mais por produtos equivalentes: uma lâmina “feminina” custa mais do que uma lâmina “masculina”. Mas a Gilette tem género? Não, no entanto, a cobrança em apresentar-se sem pelos tem, a expectativa sobre a pilosidade apresentada por homens e por mulheres tem. Quem esquece a axila de Julia Roberts sobressaindo no vestido de gala, fazendo capas pelo mundo inteiro? Se tem liberdade para não o fazer, tem, mas tal escolha é recebida da mesma forma pela sociedade? O economato de beleza feminil premium é todo um espelho dessa “vaidade” social, económica, política e cultural, historicamente imposta. E dispendiosa, confirmem o artigo do Independent sobre disparidade na relação de preços de produtos vocacionados para homens e para mulheres.

Subtrair à já desigual capacidade financeira das mulheres, explorando o filão da “futilidade”, corresponde a aumentar a disparidade económica, perpetuando uma condição de dependência e um lugar subalterno, tão conveniente ao machismo; porém, os resquícios misóginos tão amantes da idealização da beleza feminina não se cingem à distinção nas etiquetas nos bens de consumo. O tempo requerido no exercício interminável para-ideal é outra estratégia de enfraquecimento do Eu (quando parei de ir semanalmente ao cabeleireiro, bom, Bell Hooks conta-vos essa história).

Reparem no tempo que dedicam a essas questões: beleza, roupa, maquilhagem, dieta, auto-depreciação, celulite, gordura localizada, peito pequeno, mamilo assimétrico, rejuvenescimento vaginal, aclaramento vaginal. Quanto dedicas? 1/3 do dia, mais, menos? Cabeleireiro, manicure, depilação, “rituais de limpeza”. Quanto pesas? A infiel balança é outro instrumento de controlo social, o peso da mulher é escrutinado e o seu corpo é policiado não tanto pelos dígitos da sua materialidade, mas como insulto, como forma de desvalorização, como diminuição da auto-confiança e ferramenta de humilhação pública, a magra que se mantenha magra, magérrima, custe o que custar, e a gorda é posta no seu lugar: cala-te, gorda. Se o valor feminino é centrado no seu capital de atratividade e a gorda está fora do padrão de beleza, bom, ela não tem valor de mercado — desmazelada, feia, doente — e os media são a praça financeira de eleição para estas trocas (“The Objectification of Women in Mass Media: Female Self-Image in Misogynist Culture”). Pouco interessa a articulação, a profundidade, a assertividade, ou lógica, elas são recorrentemente esvaziadas pela percepção do cumprimento do papel social — ornamental, outra face axiomática do continua no teu lugar, mulher.

O jet lag da beleza é dimensão desconhecida para a maioria dos homens: “as mulheres precisam de duas horas para se vestirem”. De novo, há homens que ocupam muito do seu tempo com estas questões. Que se depilam. Que fazem máscaras hidratantes. Que têm apps com paletas de cores para combinar outfits. Que adoram compras. E ainda bem! Mas se não o fizerem, ninguém os ataca. E ainda bem, também! É precisamente esse o patamar que pretendemos. Steve Jobs, por exemplo, era um visionário elegante e desapegado, com a sua gola alta preta, já a indumentária de Angela Merkl é constantemente alvo de comentário público: o frumpy power suit; a “chancellor chic? . A dualidade de critérios é coisa séria, espreitem o vídeo “Double take: Women wears same outfit every day!”.

DR: Cartoon sexista publicado pelo Charlie Hebdo, visando a fertilidade da Brigitte.

Dinheiro. Tempo. Gasto e imparável. Para nós, a dilação da fertilidade é o estado último da feminilidade, a capacidade reprodutiva requisita e atesta a minha competitividade perante os insumos de outra mulher — somos criadas para concorrer inter pares — esta noção de validade explica a Barbie geriátrica de Macron, a menopausa de Clinton e outros mimos da misoginia a mulheres passadas do prazo; atesta ainda que “os homens envelhecem bem, as mulheres não”, anelando dinheiro e tempo à não aceitação da idade e à emulação do estado pueril, às eternas ninfetas e à proliferação de apps para sugar daddies. Física e mentalmente frágeis, dóceis, lisas, inocentes, a quem se oferece peluches, pijamas com bonecos, doces e explanações simplistas sobre o mundo, a hipersexualização de menores, ou das barely legal, reafirma uma posição tutelar do homem em relação à mulher. A mulher feminina é a mulher-menina, a pubescente busty teen, que lidera os termos nas pesquisas pornográficas. Boneca. Eternamente, até no Tinder. Ou antagoniza-a, com a femme fatale, arquétipo do fetichismo stiletto, roupa coleante, lábios encarnados, manipuladora porque sexualmente livre, sedurora i-rre-sis-tí-vel. Baloney, mas a falácia do feminismo liberal e da liberdade sexual (na realidade, objectivação embrulhada como presente emancipado) numa sociedade patriarcal cabe a outro dia. Não existe fórmula definitiva ou imediata para erradicar as expectativas sobre papéis de género; podemos, devemos — imediatamente, deixar de julgar as congéneres distantes ou alheias do padrão, podemos e devemos — do ontem, ser indulgentes connosco e reflectir sobre condição social e liberdade individual. Podemos e devemos combater a legitimização contínua do machismo e evitar a sua reprodução. Sem hipocrisia, todos temos expectativas sobre o mundo em que vivemos e sobre os outros. A construção do género também assenta na gestão dessas expectativas, o que é um homem?, o que é uma mulher?. Vamos então esperar ser legitimamente equivalentes quando escolhemos e sermos iguais nas consequências.

“Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo!”
Clarice Lispector