Quarto 198(4) — seres olhados

[ficção | cross-story]

Pouco depois, a decisão seria somente admitida, mas Julia insistia no lacre:
É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre, é uma concessão ao baixo instinto de querer dar nas vistas ou nos ouvidos.
Fernando Pessoa, o atirador, a bala procurava Smith, Winston Smith.
Nem sempre Julia precisara de glorificar cada escolha, tornando-a unívoca e imprescindível, mas se a assunção masticatória de Winston recuperava a realidade pré-construída do livramento, lá atrás, quase trinta anos antes, ela revidava até vencê-lo.

A chegada a Carcavelos tão discreta. Amor a Pessoa, não tanto as classificações do TripAdvisor, tornaram o Hotel DelMar a trégua à extensa perseguição orwelliana. Por fim, seriam privados, hóspedes comuns naquela estria vertical e finíssima, grisalha ao sol da Avenida Marginal.
Eram todos os outros casais ingleses de meia-idade, passeios à sombra dos choupos, panamás, calções demasiado cintados, sarja caqui e um número acima, olhos-espelhos do mar (ou seria ao contrário?). Gim. Pele escaldada. Reforço de hidratação. Loção pós-solar. Sardinhas, peixe-galo, caracóis, não obrigado, navegar pelo Tejo, sim, perfeitamente, amanhã. Sangria. Belém. Vinho verde. Cascais. Guincho. Esplanadas. A Brasileira. Ela fotografava. Ele queria tanto ir à Parede, alguém havia avistado a gaivota-prateada, lera no último número da Birdwatching Lovers — Portugal Edition.

Na intimidade, Julia vestia o colete da memória, botão a botão, casava censura, opressão, vigilância permanente. Escolheria outras roupas, se pudesse, outras vidas, se pudesse, um fruto amadurecido nos pomares longínquos de Oceania — do caroço, restava o Big Brother. Terminada a ditadura derrubou-se a dupla em entrevistas, reportagens, documentários, biografias autorizadas, não autorizadas, séries televisivas, teses académicas, honras de estado, t-shirts, seminários, boards na ONU, finalistas do Nobel da Paz, do Pulitzer, 1984 estampado nos bonés. A cara exposta, descascada pelas sucessivas leituras em salas de espera de consultórios, na boca desabitada das peixeiras, nas parábolas dos reality shows, nas piadas de café, em saldo na feira do livro, cada vez mais, nos lives nas redes sociais, cada vez menos, nos programas da tarde. Queriam-nos imutáveis, reconhecíeis, com as rugas e as barrigas esticadas, toda a intimidade retocada do tardiamente amor assumido, encenando a mesma história uma vez mais. Desde 1984.

Hotel, por Alex K.

A coruja quietamente observada por Winston era a soturnidade de Julia, quando os pensamentos de ambos enevoavam o quarto 198, 4.º piso, a perenidade conjugal latejava, opondo a aceitação dele à repulsa pela popularidade dela. Ele, um simples revisionista do regime, reescrevia a história como podia, aqui, os paparazzi nunca darão connosco, sossega. Winston não o poderia saber, era sobretudo um crente em narrativas fechadas, como regra de procedimento mais do que como confissão, polia então qualquer rugosidade, metodicamente, até se sentar macio sobre a pedra — assim, apagara o orfanato da infância, assim, servira cegamente o Outer Party, assim, delatara Julia.

— Quarteto Bolling interpreta Suite for Cello, Madame— Winston estendia dramaticamente a mão para Julia — os Hamilton esperam-nos no bar do terraço para um aperitivo, seguiremos juntos para o Teatro Nacional de S. Carlos.

Depois esqueces parte de tudo aquilo, repetia Julia. Para ela, socializar era ser o cão de outro homem, um animal castrado, de cócoras, encolhido numa existência sitiada. Queria ser livre e só poderia sê-lo sozinha, outra, apagada e muda nos ecrãs da fama. Cansada. Anónima num mundo visionado, voluntária e ininterruptamente; jamais compreenderia o fenómeno.
Saíram, à porta do quarto Julia rendeu o braço a Winston, sofisticada num vestido longo, preto, ele de laço, botões de punho, aquietaram-se num abraço durável, entre 4.º piso e terraço, aos amantes, escapara finalmente o autocolante no elevador: vigiado por câmeras de segurança.


Cross story: “Teoria da Presença de Deus” (Ruy Belo) vs. “1984” (George Orwell)