Quem tramou Laura Palmer?

[ficção | quaisi-relato]

Laura Palmer (DR)

Aguruzada do WebSummit e sucedâneos que me despreze por não potenciar o reach. Sem delongar, foi o Miguel, foi o Miguel, foi o Miguel.


Mil novecentos e noventa e um: aquele bordão tonou-se a nossa insígnia transgressora, uma espécie de provocação não tão privada assim e que resultava sempre hilária: um bilhete anónimo queres-namorar-comigo? — Quem matou Laura Palmer?; mexeram no saco dos valores? — Quem matou Laura Palmer?; a professora de Música sempre faz greve? — Quem matou Laura Palmer?
Quando um mistério tinha caroço, ínfimo fosse, traduzíamos a dúvida pelos quatro ases semânticos dos anos 90: Quem. Matou. Laura. Palmer. Houvesse motores de busca e veriam quais seriam as palavras do ano ou a personalidade mais pesquisada em 1991. 
Amigos, só para esclarecer, isto não é uma crítica à série lendária, tínhamos dez, onze anos, ninguém entendia o que era a morte ou queria propriamente saber quem acabara com a laura-loura, miss sobrancelhas de avó e carão esmaltado a lilás, era simplesmente o esplendor da via sacra estudantil do Miguel a rebrilhar.

Sexta-feira, depois da hora de almoço, tínhamos uma disciplina meio atabalhoada, um híbrido entre Ciências da Natureza, Geografia e História, chamada Meio Físico e Social (!), aquilo era um alvoroço pós-apocalíptico com um professor muito Paulo, alto e magro e novo, ainda pouco talhado para as coisas da pedagogia e para o multi-tasking programático e, como era hábito quando cheirávamos inexperiência, instalavamos o caos ao primeiro suspiro ministerial. O Alfredo-Cenoura sacou da mochila um tubinho das obras do pavilhão de desporto (duraram oito anos), projetando uma pasta de papel e baba para a desgovernada cabeleira do Miguel — um cromo competente de óculos e tudo, esperto como o caraças e tudo, lembrete humano que sim, havia trabalhos de casa e tudo, péssimo a Educação Física e tudo — foi o início do fim do serão mais aguardado da semana: quinta-feira, canal 1.

Sabe Deus o que deu ao miúdo, Miguel surtou. Para a frente e para trás, a cadeira balouçava o seu corpo curvado sem parar, ele zurrava, alto e mais alto (juro), empurrava a mesa, esperneava, e se na altura eu já tivesse ouvido falar de transmigração de almas, meus amigos, aquilo era o Bob alojado no garoto, que era. Ainda rendia tal tremendice e o stor começa a abaná-lo pelos ombros e, do transe, Miguel aterrou direto num estado catatónico só lhe faltando babar. Vinte e uma cabeças extraordinariamente atentas e caladas, vidradas nele, o infante tímido. Foi um absurdo. Não sabíamos lidar com a situação e desconfio que o professor também não, então, o único adulto na sala optou por insistir até Miguel articular qualquer coisa semelhante a uma razão, perante a audiência:
- Eu ontem vi o Twin Peaks.

Quetepariu, Miguel! Seguiram as cadernetas do aluno com um aviso expresso aos encarregados de educação, proibindo o visionamento do seriado. A nota da professora Paula, diretora de turma, narrava sucintamente o episódio e os pais entraram em pânico. Primeiro a nossa turma, depois a escola toda (já vos disse que a pedagogia estava de férias, não já?), daí, os soltinhos como eu, tramaram-se.
- Se não estivermos em casa, façam o favor de não deixar a vossa irmã ver a série.

Morri. E a mim, foi Miguel quem matou.

Vivia largamente, amigos. A minha irmã e o meu irmão,19 e 17, tomavam conta de mim na maioria do tempo, quer isto dizer que ninguém me ligava bola, ninguém me controlava desde que figurasse, apenas, ninguém achava impróprio assistir ao Sombras e Neblina (Woody Allen, vi) ou Ata-me (Pedro Almodovar, vi) comigo ao lado. Eu não entendia nada, óbvio, crescida por estar com eles e feliz por isso, simples: não abria o bico ao pai e à mãe sobre as incursões compulsivas ao VídeoMania, onde acumulávamos uma dívida digna de intervenção da troika, e eles admitiam-me na vidinha deles, forrando-me o silêncio e o estômago a bolachas de baunilha compradas ao quilo, na fábrica atrás do liceu — se a prata estava curta, e a material escolar colorido, 100 porcento plástico, da Sempre em Festa — se a mana passava no Amoreiras, após encaixe dos extras ao fim-de-semana n’A Última Ceia (ou seria no Paulinha?, enfim, seguro ficava na 24 de Julho). 
E o cão do Miguel acabou com o meu reinado!

Na semana seguinte, à quinta-feira, fiquei à porta.
- Não, depois chibas aos pais ou chibas na escola!
- Béeh, béeeh!
Bateram-me com a porta do quarto na cara. Não houve para mim a articulação da cambalhota (Deus, mobiliário dos 90), a tenda improvisada a partir da qual espiolhava menos a trama densa de Twin Peaks, e mais a poupa irrepreensível do meu irmão, à razão de uma bisnaga de gel extra-forte da L’Óreal por semana, de gola alta preta sempre alheio à temperatura, blazer de lapela finíssima, e a mana, toda de preto também, calças por-fí-ri-os justas, cintura alta, mais a gargantilha de veludo e os sapatos quadradões Ana Salazar. O brinco quase inédito no nariz. Eles pertenciam a uma trupe urbana, os vanguardistas, isso eu sabia, só desconhecia o que queria dizer além do guarda-fatos monocromático e uma resistência ao calor acima da média; no entanto, bastava-me ficar no quarto com eles, a idolatrá-los em silêncio, enquanto uma senhorinha estranha falava com um tronco na televisão.

Na escola preparatória onde se proibiu Twin Peaks, sem surpresas, Miguel passou a ser Bob, ele, que queria apenas ser invisível e, já agora, que não lhe cuspissem para o cabelo, ganhou o protagonismo caríssimo da diferença, então, já foste ao psiquiatra?, oh, Bob, quem matou Laura Palmer?, foi este inferno até ao final do 6.ª ano, depois perdi-lhe o rasto. O reencontro deu-se no liceu, no 10.º. Continuava sinistro, solitário, um saco de vacilo espinhoso e joelhos enfiados para dentro, e chispava cada olhar, amigos, uma bomba ao retardador; eu pensava, um dia destes, Bob pega numa metralhadora e arma o Columbine do subúrbio. Não aconteceu. Entretanto, troquei Laura por Dylan, Brandon (nunca o Steve), Brenda e Kelly, quando Bervely Hills passou a ser a casa do nosso desejo de consumo e 90210 código postal de todos os sonhos juvenis. David Lynch, pouco dado a cronologias, esperou para entrar na minha vida novamente em 2001, com Mulholland Drive. Recuperei então o lugar de Twin Peaks com o deslumbramento prévio perante uma porta vedada por muito tempo, finalmente escancarando tesouros e mistérios, sensorialidade e dimensões oníricas, estranheza e múltiplos estágios de não-entendimento. Aí, encontrei-me com a minha idade. Restaurei alguma autonomia, editei e revi o episódio preparatório, considerando-o numa realidade quântica, ou seja, inscrevendo-o como parte da série, nós fizemos parte da série.

Dois mil e dezassete:

  • O 5.º I continua intrépido. Graças ao Facebook, fazemos encontros anuais há sete anos, finais de Junho. Jantamos com a professora Paula, a diretora de turma, e ficamos um par de horas em estado de graça, só fervendo nata, todos ebulição, sem os grilhões da vida adulta ou a canga do dinheiro e do sucesso material sobre os ombros. Rimos de todos os falhos e sucessos com a mesma intensidade, a medida da nossa existência e qualquer sofisticação metafísica se reúne na questão: Quem matou Laura Palmer?
  • Miguel, que não se chama Miguel, vai aos encontros. É investigador na aérea da termodinâmica, cinturão castanho em taekwondo e toca viola. Continua encurvado.
  • Alfredo é hoje um homem corretíssimo, algo rígido, até. Militarizou a sua vida e vai aos jantares quando não está “ao serviço”.
  • Do professor Paulo, um breve encontro há um par de anos, na fila da bilheteira da FNAC; estava acompanhado pelo filho adolescente (vexado por demais) e disse-me: estás crescida, olhei-o com desprezo e ele repetiu, agora acrescentando o meu nome: estás crescida, Sílvia, sorriu e desbloqueou-me a memória, os anos a menos, os quilos a menos, a vida a menos, estava ali, o storpaulo.
  • A professora Paula, também responsável por Português e Francês, tornou-se numa amiga. É das primeiras a ler-me e continua a inspirar alunos.
  • Os meus irmãos deixaram o preto. Continuam os manos mais classudos do mundo, notem, gerando a curiosidade e admiração nos meus amigos (e em mim) e sendo o meu cartão de visita por excesso. São também os meus anjos vagantes, sempre por perto, e seguem oferecendo-me presentes. A eles devo grande parte do meu corpus de conhecimento e a quase totalidade do reportório cultural: Boris Vian, Jorge Amado, Irving Welsh, Depeche Mode, Body Count, The Beach Boys, Barry White, Almodovar, Tarantino, Allen, heróis da Marvel, Kubrick, Virginia Woolf, Bret Easton Ellis, Nick Cave, Kandinsksy, Basquiat, Madonna, Bowie, James Dean. Lista perene de onde tudo precede e tudo procedo, por influência direta ou por querer sempre impressioná-los, aos vanguardistas.
  • Eu recuperei o meu vidão fazendo apenas o me que apetece na maioria do tempo, interdependente fraterna, claro, aguardando em conluio familiar pela 3.ª temporada de Twin Peaks.

No próximo encontro — e se houver álcool, ele atualizou-se nas artes marciais, hein — vou agradecer ao Miguel: obrigada por me teres feito guardar a série até conseguir recebê-la e adorá-la totalmente, Bob. (demasiado cedo?)