Rubra
[poesia sobre tom > vermelho]

A fotógrafa angolana Hindyra Mateta, retratada por Francisco Vidal (Luanda, 2013)

Lábios pintados no solo.
País inteiro beijado por tua boca.
Lá, onde terra é fogo, e a todas as acácias deram o teu nome.
- Rubra, fica até o Sol se pôr.
Ela aceitava e o horizonte tingido a retratava.
Qualquer lugar r-u-b-r-a,
Separava e juntava as letras,
E o eco da realidade respondia.
Tudo ali lhe dizia casa.
As pitangueiras em flor.
Jindungo febril nas línguas vadias.
Loengos e mirangolos na quitanda beirando a estrada.
A goiaba nas metades.
Ibís em voo flambando o céu.
Diamantes manchados.
E as rosáceas do colonialismo.
E o socialismo na bandeira.
E o sangue fratricida derramado tão igual,
Implodindo o coração de Angola.
Poeira obscena.
Poesia entardecida.
E aquele semba divagava no rádio:
Oh, Terra Vermelha | Tua musa Liberdade
‘Tá naquela, ‘Tá à toa | ‘Tá perdida na vaidade.
Gingando fácil, Rubra emendava a canção.
- Xé, somos país de verdade.