E agora?

Marília Alves
Sep 6, 2018 · 2 min read

Na noite do domingo, 02 de setembro, liguei na Globo News, como faço todos os dias, e não acreditei na cena que estava vendo: o Museu Nacional em chamas.

Demorei para acreditar que o que estava pegando fogo era de fato o Museu enquanto a jornalista dava a fatídica notícia com tom de exclamação. Minha sensação, a princípio, foi de total silêncio, não consegui exprimir uma palavra porém minha cabeça já borbulhava de questionamentos.

Veio a segunda feira, já com ânimos “calmos” e consegui pensar em algo, consegui, de certo modo, organizar meu psicológico.

Foi difícil aceitar que essa tragédia aconteceu pois o Museu já fazia parte de mim sem, ao menos, eu fazer parte dele. Como toda amante de antropologia, é impossível não associar algumas pesquisas antropológicas ao Museu, lá era o berço dos estudos iniciais da área aqui no Brasil e, particularmente, uma das minhas opções de pós-graduação.

Eu penso em quantas vidas foram abortadas, em quantos sonhos e pesquisas precisaram ser interrompidas drasticamente. O fogo não só queimou objetos históricos mas, simbolicamente falando, queimou nossa história.

Li algo parecido com “como vamos cuidar do futuro sem preservar nosso passado?”. Isso explica mas também coloca em jogo muitas ações políticas que presenciamos nos últimos anos: construções de estádios milionários, investimentos em eventos esportivos, produções de monumentos “modernos” mas e nossa história?!

Ver sendo queimado (o pior que literalmente) a casa onde um dia morou nosso imperador e o local onde abrigava diversos objetos importantes para a efetivação de nossa nação, soa como ver sendo queimada a cidade de Versalhes, no panorama francês. Porém, infelizmente, não temos a mesma sagacidade, digamos assim, que a França.

Não temos a cultura da preservação de nossa história e isso pode ser devido as nossas chagas políticas ou a qualquer outro motivo; o fato é até onde estamos indo, até onde vamos chegar.

Quantos mais Museus Nacionais precisão ser queimados, destruídos e esquecidos para que valorizemos nossas raízes? Sem nacionalismo algum, falo como brasileira que quer, acima de qualquer pensamento ou ideologia política, o bem do nosso Estado.

É essencial nos perguntarmos isso em ano de eleição, aliás, partindo para o discurso do “dos males o menor” esse incêndio serviu para abrir nossos olhos e observarmos atentamente as falas que cada candidato está comprando. O que eles apoiam, os tetos que querem estabelecer e suas posições.

A única atitude plausível que podemos tomar diante desse assassinato a nossa riqueza histórica é através do nosso voto, elegendo pessoas (e isso falo de deputado estadual a presidente) que realmente tenham um olhar sério sob nossas raízes, que não enxergue a cultura como qualquer coisa mas que veja nela também uma parte do nosso país.

    Marília Alves

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    Eu escrevo sobre sociologia da cultura, antropologia cultural, consumo, cultura de massa e produção cultural. As vezes, um pouco de sociologia e literatura.

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