O “Espaço Favela” do Rock in Rio e como ele é um exemplo das novas formas de exploração

Foi ontem o lançamento do novo espaço de socialização e música do Rock In Rio 2019. O local chamado “Espaço Favela” é como se fosse uma maquete em tamanho real daquilo que o Rio de Janeiro tem de mais misto: as comunidades.

Como amante da cultura periférica, é claro que olhei para esse ambiente e fiz algumas considerações sobre o assunto.

Pela estética, é nítido percebermos a vontade dos organizadores do evento em mostrar o espaço da comunidade como um ambiente colorido, alegre, feliz… Convém ressaltarmos que o espaço possui todas essas características, mas o brasileiro - e principalmente o carioca - sabe muito bem na realidade, no dia a dia, no vai e vem dos moradores, não é assim.

As comunidades são marcadas por diversas lutas simbólicas e físicas onde o tráfico, a milícia e a polícia são os atores principais. Em detrimento, temos o povo, que (sobre)vivem muitas vezes.

O empilhado de casas sob o morro não é uma ideia arquitetônica ou uma inovação geográfica, e sim exemplo de como a desigualdade se constrói na cidade maravilhosa. De um lado, a brise leve da zona sul com seus metros quadrados mais caros; do outro, o desdém e desprezo do Estado refletido em cada indivíduo.

Pesquiso muito o funk produzido nas comunidades cariocas e sei como ele é válvula de escape para muitos jovens que tem suas vidas impostas a essa realidade. Como muitas vezes o batidão soa como alternativa para fugir do panorama de opressão.

Estranho é não vermos isso expresso no espaço do Rock In Rio. Estranho mais ainda é percebermos que o mesmo espaço recebe o nome de favela mas a própria favela (e não falando no sentido de descriminação e sim de trocadilho com a palavra) não participa.

O preço dos ingressos que dão acesso ao evento não são pensados para a favela participar. O “Espaço Favela” não é para a favela, não é uma homenagem. É, na verdade, estratégia da indústria da música em capitalizar esses ambientes.

Mostrar para o gringo a beleza das comunidades e ao mesmo tempo excluir seus povos, é uma nova configuração de exploração. É agirmos igual os portugueses, em 1500, quando “descobriram” o Brasil.

É sermos os donos dos meios de produção colocando os operários para produzirem objetos de luxo e não dar a possibilidade dos mesmo objetos serem consumidos pelo os que os fazem.

O “Espaço Favela” serve para mostrar que, no fundo, Marx estava certo.