O funk proibidão: ele existe, é produzido e comercializado na favela e fora dela

Desde que comecei a me interessar pelo funk, sendo ele o de raiz, aquele que se originou no estado do Rio, nos anos 80 e que disseminou para vários estados do país, ganhando características e batidas próprias de acordo com a região, venho almejando pesquisar cada vez mais sobre o ritmo.

Dentre as idas e vindas que a pesquisa nos proporciona, dei de cara com o funk proibidão. Até então, não sabia como ele era formado e, acredito, que essa falta de informação (e curiosidade para saber) foi um dos fatores que mais me motivou — e continua me motivando — a pesquisar o funk que é tido como proibido, reprimido pela PM e que causa verdadeiro terror no senso comum.

Mas o que é mesmo o funk proibido? Pelo sentido denotativo, ou seja, sentido do nosso dicionário, proibido seria aquele que não pode ser revelado, não pode ser desejado, não pode ser tocado, algo que está além de nós e que não nos é permitido. No mundo do funk, tomamos como proibidos aqueles funks que, além de outras coisas, mantem em suas letras uma forte influencia do crime organizado, das facções, do uso de drogas e assim por diante. Algo que, se for ouvido pelo senso comum, provavelmente será discriminado pela sua maioria mas que se for analisado por olhar mais crítico, veremos que essas canções retratam nada mais do que a realidade de seus narradores.

Uma vez que afirmamos que os funks proibidões estariam incentivando ao crime, como uma apologia, estamos fechando nossos olhos para a realidade que tais funks relatam. Uma realidade que expressa as condições precárias, hostis e contraditórias pelos quais são produzidos mas que procura narrar com precisão as experiências vividas por seus autores.

A questão não é virarmos adeptos e fãs do funk e muito menos escutar proibidões a torta e a direita mas sim praticar o respeito e, com o respeito, entender o motivo desses funks existirem, que são vários. Deste a exaltação a facção criminosa ao simples aviso de demarcação territorial da comunidade.

Diante dessa pesquisa, pude compreender melhor esse universo; percebi que o funk, para essa determinada produção, não é apenas um estilo musical, é um mecanismo de afirmação, demarcação de território diante dos rivais. Mas que não deixa de ser comercializado, uma vez que é produzido, e divulgado. Passando dos muros das favelas, vai para a internet, vai para a boca do público, vai para o celular do jovem que escuta e é repreendido pela PM, é preso e não entende muito bem o que está acontecendo, ele apenas quer escutar o som que lhe atrai, simples.

As vezes a falta de informação ou até a falta de vontade em irmos atrás dela, nos faz julgar por alto e, a partir desses julgamentos, imprimirmos discursos de ódio que não nos engradecem em nada como seres humanos.

Vejo o funk, assim como a MPB e o samba, como um estilo resistente. Uma arte que nasceu no morro, na favela e na realidade do povo que não aguentava músicas com letras abstratas e sonhadoras e que para isso produziu seu próprio som, com a sua cara e com a sua realidade. É hora de tirar a mochilinha do preconceito sobre o funk, ela ainda existe. Além disso, quando toca, ninguém fica parado.

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