“Os Pobres Diabos” e os novos e velhos questionamentos sobre a arte dentro da sociedade de mercado
A convite, fui assistir ao longa “Os Pobres Diabos” há mais ou menos uma semana. Não escondo que o fato de Sílvia Buarque, filha do meu amado e afetuoso Chico, influenciou muito no meu interesse para ver o filme. Mas juro, a medida que fui observando o desenrolar da história, percebi que não foi uma escolha infeliz para um sábado a noite.
O filme não é lá uma obra prima do nosso complexo e um pouco bagunçado cinema nacional como Bye Bye Brasil (apesar de muitas críticas terem o comparado com ele, vai entender…) mas, ao mesmo tempo, não é de se jogar fora e ainda garante algumas reflexões sobre arte, cultura e até mesmo mercado na nossa sociedade atual.
O filme se passa naquele típico clima árido do sertão. Casas simples, paisagem sem muita vegetação, o sol esquentando e aquela gama de personagens caricatos que no fim das contas ajudam a entender melhor os diálogos que vão se desdobrando ao longo do filme.
Basicamente, tudo gira em torno de um circo, o Circo Grand-Americano, que estreia mais uma temporada pelas cidades do nordeste mas que vive sob o olhar tenebroso do esquecimento. Parece que diante de toda a modernidade que se instalava, mesmo no interior do nordeste, produções artísticas como o circo já não eram tão importantes e rendáveis.
Dessa forma, o Circo enfrentava uma grande crise econômica, onde logo de início podemos debater a questão da arte na contemporaneidade. Como fazer uma produção tradicional se estamos diante de um mercado globalizado e que tende a se modernizar? Lembro de Adorno e do que ele falava, lá pela década de 1940, sobre a reprodutibilidade técnica inserida nas obras de arte.
Mas as questões não param por aí. O fato da crise econômica que a trupe enfrentava era só a ponta do iceberg que daria origem a várias outros debates, como a desigualdade e a exploração social em cima dos próprios artistas.
Para compor um ar de realidade as falas, o diretor se abastecia de uma certa extravagância dos sentimentos, que ajuda a entendermos melhor a trama, a tornando mais didática e compreensível, criando certos estereótipos nos personagens, fato visto com muita clareza na personagem da própria Sílvia.
Juntamente com isso, vem o clima do local que favorecia para que esses sentimentos e estereótipos melhor se difundissem. Um sentimento de identidade social com o interior nordestino parecia ligar o circo com os personagens com compunham a trama. Nessa mesma perspectiva, a secura e a ardência dos sofrimentos individuais dos protagonistas se contrastavam o cenário áspero do sertão.
No fim, o filme parecia relembrar aquela personalidade cristã presente na maioria dos filmes nacionais desse gênero. A significância dos símbolos religiosos em comunhão com a crença de alguns personagens trazia o dissabor pessoal e a dor mitológica da fé.
Para quem se interessa por temas importantes mas não tão relatados no cinema, como a arte o papel do circo diante das desventuras da contemporaneidade, o filme é incrível; com suas falhas, claro, mas com assuntos tão importantes a serem debatidos que se torna interessante para começarmos um diálogo sobre o papel da cultura nas regiões periféricas.
