Dia 24 — EscrevOutubro 2018

tema: JEREMIAH THE BLOODY

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A luz forte já não cegava mais. Anos e anos de hábito entre aquelas quatro paredes pálidas, adaptadas para limpeza e higienização, as contenções pretas presas nos quatro cantos da cama sempre visíveis contra o branco do azulejo. Suas mãos não tremiam. Pode-se dizer que não havia mais excitação no ato: seu corpo não vibrava com o uso dos instrumentos; suas glândulas não secretavam alegria em êxtase pelos cortes, extensões de tecido, exposição de gordura, manipulação de órgãos. Mas estava contente, realizado em executar sua obra de novo e de novo, suas taxas de sucesso praticamente perfeitas.

Quando falhava… bom, geralmente não era culpa sua. A obra em si tinha um histórico de problemas, ou comportamento inadequado, ou simplesmente não era pra ser. Com sorte, ainda conseguia-se salvar alguma coisa, o que acabava sendo a maioria dos casos. Mais que sorte, então, habilidade. Sua, claro. A inadequação da obra não lhe dizia respeito, mas a adequação, sim.

O tecido esticado, como mortalha, cobria a parte que não lhe interessava. Seu trabalho magistral estava ali, nas pernas e pés nus, na pelvis exposta e pornográfica, no umbigo dilatado. Com a ponta dos dedos sob as luvas conseguia sentir primeiro o talco hipoalergênico que o separava do látex, então a pele, então o metal fino que manipulava como qual opera movimentos precisos. Um único corte o separava do acerto — um corte pequeno, otimizado pelos tempo infinito de prática, que podia ser esgarçado conforme necessário, e assim o era. Camadas e camadas de ser humano em contato com o oxigênio estagnado do cômodo e nem um som proferido.

Até haver o som. Um ruído agudo e embargado que começa entrecortado, como um disco arranhado, e então se torna constante. Som esse que significa somente alguma coisa salva, até desfazer o dano dos cortes, limpar o sangue das mãos e sair da sala — aí sim, uma obra completa, mais um para sua taxa de sucesso.

Enquanto finaliza com suas agulhas e linhas, para poder passar logo para seu próximo grande feito, pode ouvir a assistente dizer, fingindo entonação:

— É um menino saudável, parabéns!