BRAZILIAN GODS: Novos e velhos mitos políticos

Havia lido que “em tempos de obscuridade e desesperança o povo se volta para o misticismo e idolatria em busca de conforto e respostas”. Não consegui lembrar o autor, mas ao rememorar o sentido da frase novamente conectei-me a Robert Michels (1915/2001), que escreveu: “as massas possuem uma profunda tendência para venerar personalidades. No idealismo primitivo, têm necessidade de deuses terrenos aos quais se agarram com tanto mais amor quanto mais duras forem suas condições de vida”.
E por que cheguei a estes autores e qual a relação disto com o título deste texto? Referências. Sim, já há algum tempo, em meus estudos e pesquisas, me propus a tentar entender os discursos e ações dos indivíduos em relação à política. Esclareço que uso sempre o conceito de política como sendo algo para muito além das disputas por mandatos, vejo-a como um exercício inerente ao comportamento do cidadão em contexto social, e embaso-me em uma série de autoras/es que se debruçaram sobre o tema através dos séculos.
Sendo assim, o exercício de tentar entender as referências dos outros me ajuda a significar melhor os contextos e perceber (talvez) as possibilidades que emergem em momentos críticos. E tenha certeza, olhar para o passado, para aquilo que já foi produzido em vários momentos da história da humanidade, nos permite reunir um arsenal de lentes capazes de fazer-nos enxergar mais nitidamente tudo o que nos é mostrado e, até, ocultado. E aqui chegamos a uma frase brilhante dita por minha esposa em nosso momento de caminhada: “estamos testemunhando o retorno cíclico da história”.
O Brasil do ano de 2017, por mais que nos tentem vender um caos atípico e inédito, é o mesmo que há 500 anos tenta se firmar enquanto país, mas acaba por patinar na mesma lama que lhe lambuza os pés há séculos. Decomponho-a em doutrinação, manipulação e deseducação. Por mais que isto mexa com suas certezas — dogmas? -, as instituições que nos servem de fornecedoras de referências têm prestado o maior desserviço ao avanço do povo brasileiro em direção ao “país do futuro”.
Não desmereço nem anulo as positivas contribuições das igrejas, escolas, instituições políticas, sociais e midiáticas, mas não posso anuir à ideia de que todas estão sempre a nos proporcionar uma capacitação ao criticismo e à reflexão, ao invés de reproduzirem meios de manter sua aura de arautos das verdades supremas. Como dito no seriado “American Gods”, e retirado de várias referências bem mais elaboradas e antigas: “os deuses só existem enquanto alguém neles acredita”. E nos fazer acreditar é algo do qual depende a própria legitimidade destas instituições, e de seus atores.
Enquanto não houver um movimento conjunto em busca de novas e variadas referências, a construção e destruição dos mitos políticos adorados e odiados por milhões de brasileiros continuará a ignorar aquilo de que o povo precisa, e seguirá firmemente fomentada por aquilo que o povo foi convencido a querer. Lula e Bolsonaro são clássicos exemplos do que estou a dizer. O primeiro pode ser percebido como um mito caído, mas que possui seguidores dispostos a manter o culto independentemente do esfacelamento da doutrina. O segundo, talvez mais perigoso, é um mito que está a ser construído por seguidores que pouco se importam com a legitimidade da doutrina, mas que fervorosamente anseiam por um totem para adorar. Sinceramente, se direitas e esquerdas apostam suas fichas apenas nestes dois nomes, não vejo bom futuro para ambas as correntes.
Vale lembrar que não são estes dois casos os primeiros na história política do país. Vários outros mitos já foram construídos e destruídos ao longo de mandatos, e também fora deles. Podemos ir de Getúlio a Collor, passando por JK e tangenciando mitos de outros credos que tentaram ser cooptados pela seara política como Joaquim Barbosa e Sergio Moro. Importante é percebermos a forma dogmática usada para fazer emergir os mitos/deuses, geralmente apoiada nas forças e interesses das estruturas de mídia da época, que não deixam espaço para questionamento e/ou considerações que lhes deslegitimem a aura celestial.
A fúria com que os “fiéis” defendem seus mitos é, no mínimo, assustadora. Além disto, a mim me parece que toda defesa colérica de um deus é ancorada no medo de que algo desconstrua a fé daquele que nele crê, fazendo assim com que o próprio deus deixe de existir. Percebo que muitas pessoas não estão dispostas a abrir mão do seu mito de devoção, geralmente por não terem argumentos para defender seus pontos de vista e opiniões sem usar da mera metafísica devocional.
Alheios a isto estão vários grupos que não pretendem prestar culto a qualquer dos “mitos” apresentados, mas que também não se disponibilizam a produzir e tornar acessíveis referências capazes de permitir que os indivíduos assumam suas responsabilidades para com aquilo que realmente desejam. Há grupos de descrentes que são tão nocivos para as sociedades quanto os fanáticos que nela pregam a adoração aos seus deuses. Os alheios não fazem qualquer bem, nem contribuem para alguma melhora do contexto social.
A crença é importante, o mito pode ser útil, mas a postura dogmática em política jamais favoreceu algum povo do passado, menos ainda do presente, para não ousar pensar em futuro. A política é algo criado por homens, que jamais poderiam ser enxergados como deuses, pois se o fossem, como todo deus que se preze, não precisariam negociar com as maiorias e minorias, mas ficariam a conceder graças aos adoradores e vingança aos infiéis…opa, espera!
Retomando a perspectiva cíclica da história, e nosso papel como testemunhas presenciais deste momento de aparente refluxo nas questões progressistas, cabe-nos a busca por mais igualdade de condições sem a obrigação da anulação das diferenças individuais, a continuidade dos debates, a defesa do contraditório e, quando as coisas tomarem rumos diametralmente opostos, a resignação de que podemos concordar em discordar. A política não é feita por mitos ou deuses, tampouco para anjos ou imaculados, ela é a práxis de todos para todos, pela sobrevivência e pela integridade do único espaço onde podemos existir enquanto indivíduos autônomos — porém coletivos -, as ruas, cidades e nações.
Originally published at https://www.linkedin.com on July 25, 2017.
