Eleitor fiel

O pleito de 2018 se avizinha e os palanques eleitorais já começam a ser montados, inicialmente em meio a grupos sociais, entidades de classe, instituições públicas e, principalmente, templos religiosos.

A batalha pela cooptação dos votos dos fieis é generalizada. Templos evangélicos e igrejas católicas, cultos e missas, ternos e batinas são imiscuídos na estratégia política de grupos de poder, a fim de favorecer seus escolhidos.

Mesmo entendendo que os templos são locais apropriados para se falar sobre política — falar sobre todos os assuntos que regem a polis, a cidade, e nossa convivência enquanto sociedade — acredito que não devam ser usados como palanque para politicagens e encabrestamento de eleitores.

Poucas são as igrejas, católicas ou protestantes, que levantam bandeiras perenes em prol dos seus cidadãos-fieis e dedicam-se a politizar seus membros a fim de não deixá-los como ovelhas na presença dos lobos políticos — e não permitir que sejam usados apenas para saciar a fome de poder e riqueza de alguns.

Avalio que o título de pastor ou padre, por si só, não capacita alguém para ocupar uma cadeira no legislativo ou executivo. A escolha da cúpula eclesiástica, ou mesmo a decisão isolada e motivada por interesses particulares de padres e pastores, não deve ser a base usada por um eleitor para tomar sua decisão de voto.

Reconheço a necessidade das correntes religiosas terem seus representantes políticos, mas condeno quando isso suprime o intelecto das pessoas e se calca apenas na mística espiritual que levanta “ungidos” para receber votos, sem que este abençoado consiga por ele mesmo, por suas propostas e condutas, conquistar a mente e o coração dos eleitores fiéis.

Não julgo as religiões, ou faço juízo de valor sobre rituais e crenças, porém não posso calar-me frente a algumas práticas inescrupulosas que visam beneficiar projetos particulares, sobrepujando pessoas e se valendo justamente do que lhes é mais caro, sua própria fé.

O livro sagrado traz em si a seguinte mensagem: “conheceis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32), sendo assim, espero que neste pleito os líderes espirituais exerçam seus ministérios para expor a verdade sobre os interesses políticos de seu grupo, a verdade sobre os candidatos que decidiram “ungir” e não se valham de artifícios, mitos, medos, ameaças ou versículos com números subliminares na tentativa de cooptar votos.

Seja um eleitor fiel, mas seja fiel apenas à sua consciência, sua racionalização das propostas e condutas daqueles que lhe pedirão o voto. Não diga amém ao líder religioso que tenta lhe catequizar sem ao menos explicar os motivos que o levaram a proclamar o escolhido. Seja livre para fazer suas escolhas e tenha coragem para arcar com os resultados delas.

(Texto originalmente publicado no Jornal O Popular em ago/2014)