Eu estudei sete anos no Colégio Pedro II. Para quem não sabe é um colégio público federal considerado um dos melhores do Brasil. O CPII foi minha segunda casa e parte dos amigos que fiz lá são, ainda hoje, como se fossem da minha família. Mas o CPII não era perfeito, claro. O maior defeito foi o de me ter obrigado a assistir as aulas de religião do 5° ao 8° ano com o padre Sebastião. Às vezes eu me pergunto como eu, naquela época, tinha a noção de que aquilo era uma aberração. A maioria devia achar chato, mas tolerava bem a coisa, pois parecia conseguir fazer o que ele pedia sem barafustar. Só houve uma colega que reclamou, porque a religião dela não era cristã - não me lembro se ela era judia - e se recusava a assistir as aulas. Foi difícil. Lembro da cara dela contrariada enquanto falava com o padre/professor. Teve que envolver os pais na história, mas conseguiu. Bateu inveja dela na época, mas que desculpa eu ia dar? Na ocasião, a minha mãe ainda se declarava católica e meu pai nunca deixou de o ser. Hoje o pessoal fala de ensino "não-ideológico" como se aquela tranqueira que o Sebá "ensinava" nos anos 1980 fosse clara de ovo em pó. Sebá era como a gente o chamava quando ele não estava por perto. Mas quando ele estava por perto, ele era o padre Sebastião que dava um gênero de tranqueira mesmo, porque se ele tivesse dado história das religiões, por exemplo, eu teria adorado já naquela época. Um dia ele resolveu simular um teste para dar um ar de seriedade à coisa. O teste era basicamente relacionado com tudo o que se referia ao velho e ao novo testamento. Nesse dia eu lhe perguntei: se eu me der mal eu vou ficar com nota ruim no boletim? Aí ele pigarreou, veja bem, digamos que, blá, blá, blá e finalizou com um não, mas... Bastou para eu cagar baldes naquele troço. Cruzei os braços no fundo da sala e viajei para dentro de alguma sinapse.

O primeiro alívio que eu senti quando cheguei ao antigo segundo grau foi a ausência da religião. Que sensação maravilhosa o primeiro ano sem o Sebá. Veja bem, eu não tinha nada pessoal contra ele, só que aquele papo fofo moralista em nome do pai era muito chato. Mas, pensando bem, talvez eu até tivesse algo contra sim, pois não durou muito tempo a minha alegria. No segundo ano, o Sebá entrou de novo na sala para ensinar... filosofia. Sério, quase chorei de tristeza. Uns até viam pela positiva, pois se dizia que os padres estudavam muita filosofia no seminário. Nossa… Eu, com os meus botões, pensava: e o enviesamento, merda! Ok, vou dar uma chance, afinal, chegava a ser divertido vê-lo entrar na sala enquanto muitos de nós, de pura gozação, cantávamos a musiquinha que ele nos ensinou para começar as aulas de religião. Alô, bom dia oh como vai você… Quando isso acontecia, ele ficava bem incomodado. Acho que todo mundo tinha dúvidas se ele seria realmente um professor de filosofia ou se seria um padre maquiado de professor de filosofia. E, sinceramente, pode-se dizer que aquele foi um ano de filosofia meio perdido para mim. Na época eu lia umas coisas sobre o Pitágoras e consumia tudo sobre parapsicologia que caía nas minhas mãos. Assim, em pouco tempo, eu já tinha passado os olhos por quase todo o livro que ele pediu para comprar no início do ano letivo. Mas as semanas e meses se seguiam e ele não falava muito além de uns pré-socráticos, do Platão ou do Aristóteles. Até aí eu gostava — do assunto, não das aulas — mas eu queria ouvir mais. Lembro da aflição que eu sentia quando ele tentava explicar o ser é e o não-ser não é para a turma. Eu ia enlouquecer, era óbvio isso. Resolvi então passar parte do tempo da aula de filosofia estudando "filosofia", mas a que eu queria estudar. Eu sentava mais pro fundo da sala e abria o livro que eu queria ler. Num dia em que eu lia uma das minhas maluqueiras, o Daniel resolveu pegar o meu livro, porque ficou curioso. Ele olha para mim, lê qualquer coisa no livro, dá um sorriso maroto e levanta a mão para fazer uma pergunta qualquer ao Sebá: professor o que é metempsicose? Risos gerais. Sebá, enquanto professor e pessoa de bem, depois de perder o fio à meada do que falava quando foi interrompido pelo Daniel, começa a tentar explicar etimologicamente a palavra. Tinha que servir para alguma merda o grego que ele tinha estudado, né. Só que não. O pessoal na sala achava bizarra, tanto a pergunta como a resposta confusa do Sebá. Parecia gagueira cerebral: metá, além, psiqué, tititi, popopó. Já dali em diante eu não segurei e comecei a rir. O professor/padre/polícia, "simpático" e "fofo", que chegava abençoando geral desde os meus 11 anos, enquanto cantávamos alô bom dia, oh como vai você, achou que havia uma mumunha qualquer do Daniel ali comigo e acabou me expulsando da sala, alegando que eu debochava dele. Daniel escapou. Até hoje não sei o porquê. De qualquer forma, acho que debochei mesmo do Sebá. Imagina uma fedelha de 16 anos rindo e olhando o professor/padre/polícia como se ele tivesse quatro patas? Parece que eu debochei mesmo. Pois, então, lá fui eu para a bedelaria onde o velho Guimarães recebia os desajustados do corpo e da alma. Lembro da cara de espanto do Guima — era como a gente o chamava, quando ele não estava por perto — me perguntando: mas, minha filha, como você conseguiu tirar o Sebastião do sério? E o Guima, um velhote que andava de terno e gravata sempre, fizesse 30 ou 50 graus a sombra, e que na época já devia ter uns 70, apesar de parecer ter 80, esboça uma conclusão: Justo o professor Sebastião uma pessoa tão calma e paciente! Era óbvio que eu tinha feito algo muito grave, mas eu ainda só tinha vontade de rir. Apesar disso, eu levei apenas uma advertência na caderneta, a qual a minha mãe assinou sem compreender muito bem o motivo. A única advertência da minha vida, aliás, da qual, para ser bem sincera, tenho até um certo orgulho…

Sebá já se foi há tempos, é verdade, mas nunca esqueci do fato de que ele nunca foi muito além dos mesmos filósofos gregos e uns lá medievais. Ignorou solenemente muitos dos capítulos do livro que ele mesmo indicou e que falavam do Sartre, do Bergson ou do Nietzsche. Foucault não havia, com certeza. Talvez ele tenha falado assim rápido do Descartes ou do Kant, embora deste último eu tenha minhas dúvidas. Mas lembro bem de ter lido no livro sobre a lendária pontualidade do Kant. Espinoza e Schopenhauer? Credo, nem pensar, embora até houvesse um capítulo sobre eles no livro também.

Dizem que de boas intenções o inferno tá cheio. O Sebá era um sujeito de boas intenções. Tava ali achando que fazia o bem, que era professor de filosofia, mas deu um ano de uma filosofia chinfrim e enviezada e nunca conseguiu se desmarcar da sua forma homiliofílica de ensinar. Por falar em inferno e de boas intenções, eu queria era que o ensino religioso nas escolas passasse a milhas de distância das escolas públicas brasileiras. Que os padres, pastores e afins ficassem nas suas igrejas e templos com os seus bezerros. A minha experiência só me diz que a presença deles nas escolas públicas é uma grande bosta. Mas quem sou eu para ter um desejo ideológico desses, né. Justo a estudante — talvez a única, sei lá — que o padre mais fofo, tranquilo e paciente do CPII expulsou da sua aula porque não topava e não topa até hoje com tanta fofura.