A geração que perde os trilhos pelo vestibular

Sobre sacrifícios mentais e físicos demasiadamente grandes e uma sociedade que nos empurra aos nossos limites

Tu acorda bem cedo, come qualquer coisa, já se entope de café. joga uma água no rosto pra ficar bem acordado. Seis horas de aula com uns vinte minutinhos de intervalo. Depois do almoço, revisão extra do Enem. Ou da Fuvest. ou do Ita. ou da Unicamp. Sei lá. Que dia é hoje mesmo? Ah é, quarta feira, trouxe a apostila errada, achei que fosse sexta, a semana tá passando tão devagar né? Olha, o relógio não anda, essa aula não acaba.

Ao chegar em casa, tu come qualquer coisa (de novo), mais uns goles de café, mais uma água no rosto, dezenove horas e quinze, a noite é uma criança, tem três listas de física para resolver, uma redação pra entregar e uma pra refazer. Tirou cinco e meio de novo. Quando vê, já passou da uma, as costas doem, os olhos pesam, tu toma um banho bem sem vergonha e dorme de cabelo molhado pra acordar com dor de ouvido no dia seguinte.

Na sexta à noite resolve sair, enche a cara, dorme duas horas desconfortáveis e levanta com pressa para a revisão de literatura do sábado. Deixa para dormir no domingo, mas se esqueceu do simulado da fuvest naquele cursinho em que você se inscreveu. Tudo bem. Agente dorme quando morrer.

E entre o simulado malfeito, a noite virada e a refeição que se esqueceu de fazer, vão chegando de mansinho a gastrite, a fadiga mental, a instabilidade emocional, a competitividade excessiva, a insegurança. Vão chegando e é para ficar, mesmo.

Hoje, torna-se cada vez mais difícil de se desvencilhar dessa cultura doentia. digo isso porque eu mesma não fui capaz de fazê-lo. Passei por todos os estágios, todas as dores de estômago, todas as insônias, todas as lágrimas. No fim das contas, passei com méritos na maior universidade do país, só para descobrir, cinco semestres depois, que não estava feliz. E queria outra coisa.

O ponto com isso? Por mais que te digam o contrário, acredite: tua felicidade não necessariamente reside numa faculdade de alto padrão.

Quem dita as regras é essa cultura do sistema de ensino privilegiado, que zomba descaradamente de universidades menores e de menos prestígio, cujos preços são mais acessíveis e cujo sistema de ingresso é menos exigente. O discurso elitista da uniesquina toma proporções estratosféricas e se reproduz na boca dos vestibulandos, que passam a crer piamente na universidade de renome como única alternativa aceitável para a construção de um futuro.

O mito dos louros da grande universidade pode deixar qualquer jovem de dezessete anos no chinelo do mundo. Mas sabe o que é? Ele é só um mito. Criado para servir propósitos daquele famoso capitalismo financeiro de que já ouvimos falar. Ele é criado para dar lucro e, consequentemente, reforçar um sistema dolorosamente desigual que toma conta da educação brasileira.

Não se deixe levar por esse mito. Não negligencie nenhum minuto a mais de sua saúde física e psicológica. Não abra mão de sua juventude, de seus sorrisos, de seu descanso. Não se agarre a esse sistema como única opção plausível para sua vida acadêmica e profissional — ela depende de milhares de fatores além disso.

Não tema esse sistema de seleção como se não houvesse amanhã. Porque há, sim. O vestibular, no fim das contas, é só isso, mesmo: um vestibular.

Não perde os trilhos ainda, não. Você vai precisar dele para viajar por estradas maiores.

Aguenta firme e não desiste de você. ❤