ilustração: Henn Kim

Carta ao que não amamos em nós

Sobre amor próprio, indecisões, inseguranças, transtornos alimentares e outros tabus

Eu não me lembro bem quando comecei a me odiar com tanta intensidade. E já cansei — acho que a terapeuta também — de tentar entender o porquê. Quando dizem que “o buraco é mais embaixo”, não fazemos ideia de que ele está quase no centro da Terra: é difícil e doloroso chegar lá.

Por volta dos meus treze anos, eu desenvolvi um distúrbio alimentar. Vamos chamar do que ele realmente é: bulimia. E ele durou, entre idas e vindas, muito mais anos do que eu gostaria de admitir. Até hoje, o ato de vomitar é um gatilho instantâneo capaz de me desestruturar completamente. E, por mais que ele tenha começado como uma tentativa desesperada de não engordar, tornou-se outra coisa: uma válvula de escape. O espelho era meu inimigo, e eu passei a expulsar tudo que havia de figurado dentro de mim — só que literalmente.

Você já parou pra pensar quantas coisas figuradas a gente expulsa de forma literal? Todas as palavras que engolimos, todas as vezes que evitamos o espelho (ou quando não evitamos, mas odiamos o reflexo que vemos nele), todas as vezes que nos sentimos ridículas, inadequadas, inapropriadas. Todas as vezes que nos dizem que não somos suficientes — e acreditamos nisso.

Desde pequenas, somos ensinadas a servir um padrão inalcançável, que molda não apenas nossa estética, mas também nossas ações, decisões e comportamentos. Emagreça. Sorria. Feche as pernas. Cozinhe. Emagreça mais um pouco. Deixe o cabelo crescer. Já foi malhar hoje?

Para o capitalismo, importamos enquanto consumidoras. Para o patriarcado, enquanto objetos: na intersecção desses dois, enfim, somos objetos que compram. E o ódio é essencial para que continuemos sendo uma fonte inesgotável de lucro.

E é guiadas por esse ódio que passamos a buscar com tanto fervor lá fora um amor que compense. Acabamos, muitas vezes, dependentes de homens abusivos. Presas ao lado de amigos e relacionamentos que nos mantêm debaixo de suas asas. Incapazes de estarmos verdadeiramente sós e felizes com a própria companhia. De tanto caçar nos outros, nos esquecemos de procurar esse amor aqui dentro — onde ele realmente está.

Hoje, botar pra fora não faz mais parte de mim. Mas outras coisas, como a ansiedade, ainda fazem. Isso porque o caminho para o amor-próprio é tortuoso e exigente: não há progresso sem uma luta diária. Todos os dias, olhar no espelho e sorrir de volta é um exercício — muitas vezes, uma tarefa árdua. Às vezes, não consigo. Em outras, no entanto, o sorriso se abre naturalmente: eu aprendi a gostar das minhas sardas, dos meus ossos saltados, dos meus braços compridos, do meu nariz arrebitado.

Não é fácil remar contra essa maré — sabemos disso. Diariamente, contrariar todas as expectativas e julgamentos silenciosos nos faz guerreiras. E é essencial que a gente finque os pés em nossas raízes. Não deixe de olhar pra trás e agradecer por todos os passos que já deu sozinha — e que eles sejam força para os seguintes. No fim das contas, é a nós que pertence cada centímetro nosso de pele, cada lágrima, cada estria, cada fio de cabelo. Nosso corpo é só nosso.

Hoje, eu sou o meu lar.

E aqui só se entra com o meu aval.