Quando o trem partir

Texto que escrevi aos 15 anos para um projeto escolar

Lá estava ele, deitado sobre uma cama de hospital, praticamente em coma, ligado a vários aparelhos. Não conseguia falar, gemia e se alimentava através da sonda.

No seu aniversário de oitenta e seis anos, iria ter uma festa com toda a família. Infelizmente ele mesmo não pôde comparecer porque estava muito ocupado arrumando as malas para a viagem.

Ele me criou praticamente a infância inteira. Cuidava de mim quando minha mãe não estava em casa, nunca ficava bravo comigo, deixava eu fazer tantas coisas… Sempre estava calmo. Para ele tudo estava bom, nunca se estressava. Quando pequena, eu sempre o imitava. Se ele ficava lendo o jornal japonês, eu também tentava ler, mesmo sem entender. Se ele assistia aos programas do canal japonês, eu também assistia. Se ele ficava simplesmente sentado, sem fazer nada, eu também ficava.

Agora penso em tanta coisa que ele fez por mim, e acho que nunca lhe dei um presente de aniversário.

No dia do seu aniversário, fui lhe dar os parabéns e vi como estava fraco. Cansado. Pálido. Um olhar no horizonte. “Jiichan, otanjoubi omedetou! Hayaku kaifuku shite kudasai!(Vovô, feliz aniversário! Fique bem logo!)”. Mesmo falando isso e demonstrando um sorriso, como eu iria ajudá-lo? Ele já estava bem envelhecido e pegou uma pneumonia pela segunda vez, na faixa dos oitenta anos. O que eu poderia fazer? Não sou médica. Tenho quatorze anos. E não sei me expressar, nem tomar atitudes.

Minha mãe decide levá-lo ao hospital, onde ficaria internado por alguns dias. Já me senti aflita, incomodada, mas de um jeito diferente das outras vezes, dessa vez foi mais intenso.

Segunda vez que ele ficaria internado por causa de pneumonia. Segunda vez que ele passará por aquele processo doloroso. Segunda vez que terei que vê-lo sofrer. Ele conseguiu se recuperar da primeira vez, mas da segunda eu já não tinha certeza.

Quase dois meses inteiros internado no hospital, e eu apenas o visitei três vezes. Foram meses muito difíceis para mim. Minha família ficava muito estressada, inquieta, ocupada, cansada. Principalmente minha mãe. Ela que sempre cuidava dos assuntos hospitalares dele. Quando ficava internado ela sempre ia ao hospital e permanecia lá por muito tempo. Passava pouco tempo em casa e prestava menos atenção ainda em mim. Eu já estava preocupada, mas minha mãe me colocava sob pressão maior ainda. Assim, eu acabava me sentindo pior.

Fiquei pensando se trocá-lo pela escola foi uma boa ideia. Minha mãe falava para eu ir com ela ao hospital, mas eu decidia ficar para fazer os trabalhos escolares. Sempre dizem que a família vem em primeiro lugar. Será que eu deveria ter passado mais tempo com ele?

E então, na primeira vez em que fui visitá-lo, quando havia pegado pneumonia pela segunda vez, estava bem fraco. Inchado. Já precisava do auxílio de aparelhos para respirar. Minha avó tentava fazer com que comesse um pouco, mas ele não queria. Tinha dificuldades para se mexer e falar.

Na segunda visita não havia mudado muita coisa. Aliás, havia piorado um pouco. Ele reclamava de dores e tinha de usar fralda. Depois teve que permanecer um tempo na UTI. Quase toda a família já esperava que o trem logo iria chegar. Minha avó pediu para minha mãe arrumar a roupa do dia da viagem. Eu não sabia o que minha avó havia dito à minha mãe, até eu ver que ela estava engraxando sapatos, passando uma camisa e depois um terno. Notei que aquelas roupas não eram do meu pai. Você sente aquele aperto no peito. Você tenta se enganar, mas sabe que é certeza. Você não sabe como lidar com aquela situação, como se planejar ou se preparar para isso. Sabe que é uma viagem sem volta.

Terceiro e último dia de visita. O pior dia, o dia da despedida. Ele estava muito magro. Alimentava-se pela sonda. Não falava, gemia. Praticamente não se mexia. Observar aquela dor e sofrimento era horrível. Você observa uma pessoa sofrer como um simples telespectador que não pode fazer absolutamente nada. Eu apenas segurei na sua mão, com lágrimas nos olhos e disse “Jiichan, arigatou. Sayonara. (Vovô, obrigada. Adeus.)”. Já avistávamos o trem chegando. Essa viagem seria melhor para ele. Ele mesmo dizia para o deixarmos partir, que logo iam vir buscá-lo. Na plataforma, fiz minha última despedida para ele, que faça uma boa viagem, que essa viagem seja férias depois de tanta dor e sofrimento. Todo arrumado, de bengala e chapéu, o vi entrar no trem. Realmente foi uma despedida dolorosa, mas era isso que ele queria. Se isso era para o seu próprio bem, eu aceitava. Queria dizer obrigada por tudo o que fez por mim, dizer que o amava, ter feito mais coisas por ele. Gostaria que ele soubesse como eu me senti.

Eu escuto o som do trem, que começa a se mover. E assim ele parte rapidamente, enquanto eu continuo a acenar para ele.

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