Palavras

Voltando a mim

As palavras jorram da minha cabeça como jatos dos poros e folículos do meu couro cabeludo. Meu couro não é grosso, é fino e sensível. Minha casca arranha e fura facilmente. Qualquer coisa eu grito.

Palavras sem sentido formam frases sem sentido que cuspo como leite estragado. As ideias chegam e passam e parecem fazer sentido, mas são como um sonho em que minha mãe é outra pessoa e me dá o resto de um milk-shake de morango. Eu não gosto de sorvete de morango.

Eu me atropelo e falo minhas palavras sem sentido antes que você possa balbuciar suas palavras cheias de sentido. Suas palavras são bonitas, será que são pra mim? Palavras que não entendo chegam aos meus ouvidos e saem pelo meu nariz, numa confusão de letras e números embaralhados.

A sua teia me envolve macia, e não me importo se em breve for devorada. É bom sentir o seu desejo, e as letras e números e palavras sem sentido que saíram de mim formam peças de um quebra-cabeça sem fim. Meus braços querem te abraçar mas paralisados não te alcançam, e em minha boca entreaberta sinto a poeira trazida pelo vento.

E as palavras voltam e penetram meu ventre pelo meu umbigo. Elas derretem e saem como leite, mas algumas ficaram em suas mãos. Algumas palavras e letras grudaram em você como no melado que você lambe, e minhas palavras sem sentido passam a fazer parte de você. Em você, elas ganham sentido. E eu, eu… Eu materializo em mim na sua teia como antes, quando as letras corriam em minhas veias formando palavras que formavam frases que falavam dos meus sentimentos. E eu faço sentido.

Não preciso dizer que, se você gostou, vai lá e clica no coração, né?