é assim que você desaparece

eu sempre acreditei que você era boa demais pra ser real, até perceber que eu quase tinha te inventado.
mas você ainda anda por aqui, essa casca que você parece habitar ainda dói, ainda tenho medo de nunca inventar nada tão bom na vida. por muito tempo você foi minha melhor ficção, até que escolhi o exílio.
pra te expulsar do meu país imaginário eu resolvi queimar os mapas e emudecer as rádios. mas eu nunca fui bom de silêncio, só passei a falar mais baixo, só pra quem estava a alguns metros de distância.
disso brotou uma perda de potência, use it or lose it, e o medo de sofrer de novo, depois medo de não sofrer nunca mais e o consequente recalibramento da intensidade das sensações, o deus das miudezas, os sorrisos fáceis, seus presentes de aniversário que eu guardei pra mim mesmo, o fastio de discordar do seu fantasma, a obsessão por leveza da nossa turma… mas nem tudo pode ser leve, the deeper you go, the higher you fly etc.
eu esqueci que o quanto a gente pode ser feliz é diretamente proporcional ao tanto que a gente tá disposto a sofrer, mergulhar de cabeça, enfiar o carro num muro a duzento quilômetros por hora. eu quero me sentir vivo de novo, eu preciso voltar a ser eu, sem luvas, sem escudos, me mover rápido e quebrar as coisas, sem medo de te machucar — afinal se você quisesse palavras mais doces devia ter se comportado melhor.
eu estou cansado de estar abaixo do radar, eu quero ser descoberto e descobrir novas pessoas e lugares pra amar. e se isso significa abrir os portos pra você, que seja. mas daqui pra frente você é um fantasma, eu ignoro seus ruídos e os móveis se arrastando e é assim que você desaparece.
