Bonito como um acidente de carro.

The Fate of the Furious. O título já entrega que estamos em outra esfera. A franquia já flertava com o épico faz tempo, mas agora parece finalmente livre pra cumprir o seu destino, que é grego. Não quero falar muito pra não dar spoiler, mas a mitologia da série finalmente chegou ao ponto de não só desprezar qualquer lei da física, desprezar também as leis cronológicas, psicológicas e até a barreira final que é a irreversibilidade da morte humana. Alguns diriam que virou história de super herói, mas vou mais longe: virou Teogonia. O ato final do filme tem sequências de ação que o antropocentrismo simplesmente dá lugar a um caos elegante que já não é interpretável por referenciais humanos: são só elementos e cores lutando entre si, se destruindo e se renovando e dando lugar a novas combinações. É expressionismo abstrato em movimento. E porque nos caberia interpretar Deuses fazendo coisas de Deuses? Só nos resta encostar na cadeira e apreciar a beleza e o mistério.

Aqui a gente fica tentado a citar Burke, e vou citar porque ninguém me manda: “Tudo o que seja de algum modo capaz de incitar as idéias de dor e de perigo, isto é, tudo que seja de alguma maneira terrível ou relacionado a objetos terríveis ou atue de um modo análogo ao terror constitui uma fonte do sublime, isto é, produz a mais forte emoção de que o espírito é capaz”. E o que existe de mais terrível E plausível hoje em dia do que um acidente de carro? ‘i’m amaze that i survived, an airbag saved my life’.

E os gregos estavam no caminho certo quando falavam de catarse. Embaixo do nosso capô polido, reluzente e civilizado de racionalidade existe nosso cérebro réptil que precisa ser saciado com violência, com o trauma que é olhar embaixo desse capô e ver as paixões pulsantes e sanguinária, as tragédias que a gente antecipa no teatro da mente, e nada melhor que um palco inverossímil e fora das leis cotidianas para a purificação desses prazeres. Vai por mim, é melhor a realização simbólica dessas pulsões do que foder seu fígado ou a paciência de quem tá por perto. E acredito que problemas criados pelo inconsciente nunca vão ser resolvidos pelo cérebro diurno e racional. Mas já estou divagando…

Finalmente quando a poeira e o fogo abaixam eles estão todos lá, fazendo coisas demasiadamente humanas, bebendo cerveja ruim, flertando, comendo, casando, fazendo alianças e inimizades, se fartando com piadas imbecis e nos lembrando lá do Xenófanes, que nós criamos os deuses à nossa imagem e semelhança. E o que sobra no final é sempre a família, mesmo que seja a família que a gente escolheu, nosso panteão particular.