Arte e Design: há alguma diferença?

Ainda é possível encontrar pessoas que se confundem com os termos arte e design. Afinal, design faz coisas bonitas, certo? Tem muita liberdade criativa, certo? O designer é um artista, certo?
Errado.
Confesso que caí no conto do “design é arte” quando entrei no curso de Design. Eu tinha uma boa habilidade em desenho e queria estar numa faculdade onde poderia me desenvolver na área de ilustração. Na verdade, queria ser uma artista. Fiquei em dúvidas se cursaria Design ou Artes Visuais, e visualizando a grade horária de ambos, pareciam haver poucas diferenças. O que me atraiu ao Design foi a variedade de áreas e também uma presença maior dos meios digitais.
O curso, no primeiro ano, tem sim uma cara de curso de artes: existem disciplinas que tratam de criação autoral, de experimentações com materiais e até história da arte. Mas tudo acaba por aí, no primeiro ano. Na verdade, no segundo semestre se nota uma mudança no ritmo do curso, e do nada, o que parecia ser pura liberdade criadora vai se moldando até se transformar num ensino de métodos de serviços para empresas e clientes. E quando vi, eu estava desenvolvendo projetos voltados ao mercado, me aprofundando em áreas como branding e marketing. E ilustração? Sim, tinha ilustração, mas uma ilustração bem comercial e às vezes engessada, onde poucas vezes eu poderia me dar ao luxo de simplesmente desenhar o que quisesse.


Nesse meio tempo, entrei em contato com o curso de Artes Visuais. Foi um choque: tudo o que eu imaginava que seria design estava na verdade num curso que não era design!
Achei muito contrastante o comportamento dos alunos em ambos os cursos. Em Design, há uma nítida divisão de grupos de convívio de alunos (as “panelinhas”) e em geral não parece haver uma vontade de interação entre esses grupos. Inúmeras vezes um aluno pode ser deixado na mão quando está em dificuldades numa disciplina e aquele que poderia ajudar ignora-o simplesmente por não fazer parte do mesmo grupo — já passei por isso diversas vezes. Em Artes existem essa divisão de alunos também, porém parece haver uma aptidão melhor de se ajudarem nos momentos difíceis. Outro aspecto é o relacionamento entre alunos e professores: em Artes os alunos são mais próximos de seus mestres, chegando a desenvolver uma amizade, enquanto em Design esse comportamento raramente é percebido.
Talvez seja pelo fato do design ser muito voltado para o mercado, mas há uma enorme competitividade entre os alunos desse curso. No meio profissional, percebo uma divergência entre os designers, apesar do empenho de alguns em tornarem essa classe mais unida. No lado da classe artística, porém, percebo o oposto: há mais união entre os artistas, mesmo o circuito artístico sendo mais acirrado na questão de vagas de emprego e oportunidades de exposição.
Bruno Munari, em seu livro Artista e Designer (1971), faz a seguinte distinção entre o artista e o designer: o primeiro trabalha sozinho, enquanto o segundo trabalha em grupo. Porém, percebo uma inversão: os artistas parecem trabalhar mais em grupo dentro do circuito, enquanto o designer tem uma preocupação maior em desenvolver seu portfólio individual dentro do mercado. Obviamente, existem exceções.
Mas talvez o que mais intriga-me é o espaço da poética. Os designers possuem um potencial poético muito grande em seus trabalhos, mas devido às pressões mercadológicas, acabam se sufocando no processo criativo e tornando-se meros prestadores de serviço. Eu só percebo uma poética no design quando este se aproxima das artes visuais, o que é difícil e ainda assim marcada pelas diferenças entre as áreas.

O design procura ser explícito, enquanto a arte é implícita.
O design quer que todos entendam os objetivos da proposta desenvolvida, por isso o profissional faz pesquisas e análises do público-alvo que vai consumir aquele produto ou serviço, para que possa ser direto e claro. Já o artista não se preocupa se o espectador que entra dentro de um museu (ou qualquer outro local) compreenda as suas obras ali expostas — na verdade, cada trabalho pode ter múltiplas interpretações. O design tem a obrigação de conseguir atender a qualquer tipo de pessoas, e a arte por sua vez exige um olhar mais treinado para o êxito de sua fruição estética.


O design busca respostas, a arte faz perguntas.
O designer não pode deixar em dúvida o usuário, e quanto menos ele refletir, melhor. O design trabalha com questões subjetivas do ser humano a seu favor, para estimulá-lo a comprar um produto ou usar um serviço. Já a arte busca refletir, problematizar e levantar questões diversas, de modo que às vezes confunde o espectador.


Mas em uma coisa o design e a arte fazem igual, ou pelo menos de forma muito parecida: projetos. Nenhum trabalho de design ou de arte nascem do nada, em um repentino insight e momento de inspiração, por mais aleatórios que alguns trabalhos possam parecer. Há uma intensa busca por informações, materiais e testes antes da conclusão. E ambas as áreas NÃO são produções meramente decorativas. Outra coisa que me surpreendeu em artes visuais é que o processo da obra é muitas vezes mais importante que a obra finalizada — em design o resultado é o que vale, pois o processo na maioria das vezes precisa ser o mais rápido possível para atender os prazos.

Então, sim, há muitas diferenças.
Mesmo que o design se aproprie das mesmas linguagens visuais usadas pelos artistas, ele se direciona mais a questões comerciais, e quando seu intuito é social, o design tem mais como função informar e auxiliar. A arte por sua vez não assume esse compromisso, sendo algo muito mais poético e problematizador, não tendo a informação e a educação como prioridades.
E a ilustração? Bom, depois de muito tempo, percebi que a ilustração é uma área à parte, podendo se tornar arte e design ao mesmo tempo, ou nenhum dos dois. Mas creio que esse deveria ser assunto para outro texto.
Fonte das imagens:
Telefone afrodisíaco: TATE
Ateliê de Joan Miró: Flickr — Thierry Chervel
Business: Pixabay — StockSnap
Stefan Sagmeister: sala7design
Art Exhibiton: Wiki Commons
Woman reading: Pixabay — Unsplash
Barbara Kruger: The Art History Archive
Vintage Coke: Vintage Ad Browser
Esboço de B. A.: Bolsa Produção para Artes Visuais 5, catálogo, 2013. p. 17.