Como a mídia estragou Pokémon GO

O excesso de popularidade que gerou uma absurda onda de negativismo

Sinceramente estou começando a desgostar da repercussão de Pokémon GO. Falo isso como fã, que desde os 11 anos começou a jogar os jogos de Pokémon lançados para Game Boy Advance. Em seguida para Nintendo DS. E agora para Nintendo 3DS. Ainda pretendo um dia comprar um Game Boy clássico e uma cópia original do primeiro Pokémon lançado.

Quando vi a notícia de que esse jogo seria lançado, no ano passado, me empolguei e fiquei contando os dias para o lançamento. Lançou. E aconteceu o que nem a Nintendo (empresa responsável por Pokémon) esperava: muita gente, mas MUITA GENTE baixou o app, tornando-se o aplicativo mais baixado do mundo: 100 milhões de downloads só no Android, e outros tantos milhões no iOS — superando até os aplicativos de pornografia. Já entrou para a História.

Acontece que é muita gente aleatória baixando, que nunca ouviu falar em Pokémon ou Nintendo. Como toda ação tem uma reação, surgiu muita gente aleatória xingando, tratando a franquia como uma marca que acabou de ser lançada (sendo que ela existe há 20 anos e todo ano tinha jogo novo de Pokémon, além de desenho animado, filmes, história em quadrinhos, cartas e brinquedos) e vendo-a como um grande mal que aliena as pessoas. Mas será que o ser humano nunca foi alienado?

Um exemplo é uma ilustração que vejo muita gente compartilhar no Facebook. E junto dela, a famosa frase de Albert Einstein “temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas”. De repente, quem compartilhou isso tornou-se incrivelmente intelectual, um verdadeiro crítico da pós-modernidade que merece menções honrosas.

Mas é muita hipocrisia dessas pessoas não conhecerem o incrível trabalho de Pawel Kuczynski, um artista polonês que eu admiro muito por suas ilustrações que criticam os excessos da vida contemporânea. Inclusive reproduzirei outro trabalho seu.

Sim, ele também critica as redes sociais. E agora? Vamos todos excluir contas do Facebook para afirmarmos nossa inteligência e provar ao mundo que não fazemos parte da geração de idiotas descrita por Albert Einstein? Não. Como já foi dito, as críticas são para o excesso de uso, e não para o uso em si.

É o excesso de uso que fez um casal se viciar em internet e esquecer que tinha uma filha de 3 meses — que acabou morrendo por negligência de ambos. É também o excesso de uso que fez um jogador gastar R$500.000 em moedas virtuais num jogo e que fez outra jogadora ficar 3 dias sem tomar banho, tamanho o vício. E ainda foi o excesso de uso que fez uma mulher ser internada em uma clínica para dependentes químicos porque perdeu peso e emprego por overdose de internet. Mas tudo bem, ninguém se importou e fez textão no Facebook, montagens com imagens e frases geniais. A vida continua e até hoje muitos se viciam em jogos e internet e são invisíveis.

Há 1 ano eu me imaginava jogando discretamente Pokémon GO. Por que as pessoas ligariam? Pokémon, apesar de famoso, não tinha um impacto muito grande na sociedade. Eu iria me divertir, caminhar bastante, me desestressar após concluir trabalhos de faculdade e de estágio, enfim, ter outras possibilidades de entretenimento além de ler e desenhar, meus hobbies favoritos. Mas agora não posso mais tirar o celular do bolso que acham que estou em busca de gambozinos. E já chegaram a me tirar sarro. De repente, pessoas desconhecidas param-me na rua caçoando-me por eu jogar algo de uma série que desde criança eu gosto muito.

Só que Pokémon GO não é novidade, e os fãs sabem disso. Em 2009 a Nintendo lançou o jogo Pokémon HeartGold/SoulSilver, que vinha de brinde um podômetro (contador de passos) chamado PokéWalker. Mas não era um podômetro comum; era um podômetro onde você podia levar seu pokémon para passear, capturar mais pokémons e coletar itens enquanto caminha na rua. Achou familiar?

PokéWalker

O PokéWalker é um precursor de Pokémon GO. O jogo HeartGold/SoulSilver vendeu 12,72 milhões de cópias. Ou seja, 12,72 milhões de pessoas no mundo inteiro andaram com um PokéWalker na rua. Mas por que ninguém xingou? Simples, porque não foi divulgado nos jornais, nem teve propagandas. Apenas quem tinha um console Nintendo DS sabia da existência disso.

Atualmente o Nintendo 3DS é o console mais popular da Nintendo, e custa U$199. Os jogos custam entre U$19 e U$69

A Nintendo sempre foi durona quanto aos seus jogos: eles só podiam ser lançados para seus videogames. Em hipótese alguma queria lançar algo para outros videogames como o Xbox e Playstation, muito menos para computador ou celular (os jogos que aparentemente tinham personagens da Nintendo nesses meios não são oficiais). Mas sua implicância resultou em prejuízos, ainda mais porque Playstation e Xbox começaram a vender mais do que seus consoles, e cada vez mais gente aderia ao computador e ao celular para jogar. E então a Nintendo cedeu. Lançou em 2015, para celulares, o jogo Pokémon Shuffle, um puzzle que já tinha dado as caras no Nintendo 3DS. Com um sucesso razoável, ela iniciou uma parceria com uma empresa especializada em aplicativos, a Niantic, para desenvolver um jogo de Pokémon onde o jogador pudesse interagir com o mundo real (não é realidade aumentada, os meios de comunicação estão equivocados ao usar esse termo).

Mas como o jogo ficou tão popular? A primeira resposta que muitos irão dar é que Pokémon GO é muito divertido. E é mesmo. Segundo, o jogo ficou mais acessível, afinal a cada ano aumenta o número de pessoas que possuem um smartphone, abrangendo consumidores que não tem nenhum videogame em casa. Logo, muitos dos jogadores de GO nunca jogaram Pokémon antes. Terceiro, é free-to-play, você baixa de graça e consegue jogar sem ter que pagar nada adicional (a não ser que queira bônus no jogo). Isso aumenta ainda mais sua acessibilidade. E por último, a profusão de divulgação depois que alguns jornalistas decidiram investigar o porquê de em determinadas áreas em algumas cidade tinham aparecido muita gente com um celular sempre na mão. Depois disso, muitos começaram a baixar por curiosidade. O ser humano tem a tendência de consumir o que é popular; várias pessoas só assistem a filmes blockbusters pelo simples fato de vários outros estarem assistindo também, ou acompanham aquela série que todo mundo comenta, ou optam por determinados livros só porque são best-sellers. Ad populum.

Só que essa divulgação massiva acabou por gerar um pensamento contrário, o que é bem natural. Afinal não se pode agradar todo mundo. O problema está no fato de muitos dos que são contra utilizam argumentos baseados no achismo, de uma forma que eu nunca vi, sem terem se aprofundado no jogo ou na história da marca Pokémon. E simplesmente ignoram o fato de que também usam meios eletrônicos que podem causar dependência, muito mais do que Pokémon.

A mídia, na maioria das vezes, retrata Pokémon GO como um jogo que causa acidentes, torna os jogadores distraídos e desocupados. Vez ou outra conta histórias hilárias em que jogadores se colocaram em uma situação constrangedora. Mas pouco se fala em como o jogo combate o sedentarismo, aumenta a auto-estima, faz as pessoas redescobrirem suas cidades, auxilia crianças internadas em hospitais e ajuda autistas a perderem o medo de sair para a rua.

Sério, a mídia fez um grande desfavor em divulgar Pokémon do jeito que divulgou. Se tivesse sido menos barulhenta, talvez o jogo seria como o PokéWalker, que foi mais lembrado pelas vantagens que traziam aos jogadores. A Nintendo não iria ficar muito prejudicada, o nicho que ela atende poderia muito bem dar conta do recado.

Mal posso esperar para a poeira abaixar.

Edit: esse outro texto explica esse assunto utilizando outros exemplos, vale dar uma lida http://epicplay.com.br/pokemon-go-e-um-sucesso-absoluto-e-isso-incomoda-muita-gente-por-que/