Se o objetivo do capitalismo é escapar do capitalismo, então qual é o objetivo do capitalismo?

O que aconteceria se dessemos uns aos outros as coisas que o capitalismo nos diz para distanciar dos outros?

moreno
Mar 22 · 8 min read

[If the Point of Capitalism is to Escape Capitalism, Then What’s the Point of Capitalism?]

Há uma pergunta que continua se repetindo a mim nos dias de hoje. É a seguinte: se o objetivo do capitalismo é escapar do capitalismo, então qual é o objetivo do capitalismo? Eu sei, é uma questão redundante e cômica. Então deixe-me explicar.

Aqui estamos todos presos a este grande sistema global chamado capitalismo — que atinge todos os aspectos de nossas vidas, ordena nossas necessidades e desejos, planeja nossos dias e noites e estrutura nosso tempo e energia. Agora você pode até falar com o capitalismo como se fosse uma pessoa— “Ei, Alexa …” Um sistema pelo qual o significado é algo como “empresas maximizadoras de lucro, de propriedade de acionistas, operadas por esse único fim, não importando o custo para qualquer pessoa ou qualquer outra coisa”. Mas qual é o princípio organizador da vida que esse sistema, tão penetrante e permeável, produz? O que estamos realmente tentando realizar através disso?

O trabalhador está tentando se tornar um gestor. O gestor está tentando se tornar um capitalista. Eu coloquei isso em termos modernos — deixe-me colocá-lo em termos marxistas, apenas pelo contraste. O proletário está tentando se tornar um pequeno burguês. A burguesia está tentando se tornar uma alta burguesia. O trabalhador, o dono de uma loja, o dono da loja, o dono de uma cadeia. Mesmo, talvez, na pequena maneira de “possuir” uma casa — o que equivale a pagar essa dívida a vida inteira — ou comprar uma ação ou um título, e assim por diante: o objetivo é acumular capital. Portanto, o capitalismo é algo como uma pirâmide, na qual todos estamos escalando, trabalhador para gerente, para burgueses e no ápice está o capitalista.

Mas o que o capitalista está tentando se tornar?

O capitalista, ironicamente, está tentando ganhar sua liberdade do capitalismo — assim como todo mundo. A única diferença é que ele está um passo mais perto. Deixe-me provar, com um exemplo simples e extremo, o de uma plantação e um proprietário de escravos— o mais verdadeiro capitalista de todos, não há muito tempo atrás. O que ele realmente quer? Ele está tentando ganhar a liberdade do trabalho — não ter que trabalhar, daí os escravos. Ele também está tentando ganhar a liberdade da exploração — ele segura o chicote, mas está acima da lei moral. E de controle, punição, hierarquia — ele não tem nenhum chefe a quem se reportar. Talvez ele dedique sua vida a atividades mais “cavalheirescas” — arte, literatura, descobertas, exploração: mas qual é o sentido disso? Estes também são uma liberdade do capitalismo — de seu estresse, pressão, ansiedade, competição — agora ele está livre para ser ele mesmo.

Você entende meu ponto? Quão risível e estranho é? Até mesmo o capitalista está apenas tentando recuperar sua liberdade do capitalismo. Comprar de volta, propriamente falando. Mas o mesmo acontece com o proletário. Assim como o burguês. Assim como o escravo do salário mensal. Quaisquer termos que escolhermos, dependendo da nossa política, o ponto permanece o mesmo. Então, meus amigos, vale para todos nós — o objetivo do capitalismo é escapar do capitalismo.

(Alguns sistemas se autoperpetuam. Como uma floresta. Como um rio. Como um oceano. Mas alguns sistemas são auto-aniquiladores. Como um incêndio. Como uma tempestade. Como uma epidemia. Eles se queimam. Nós tendemos a pensar no capitalismo como o primeiro — mas estamos errados. É do segundo tipo — um sistema auto-destrutivo, que não é auto-sustentável. Se estamos todos realmente apenas tentando escapar — então o que mais poderia ser? Afinal, isso significa que provavelmente chegará um dia em que conseguiremos nossa fuga — e neste dia, pufff! — o capitalismo, pelo menos no sentido acima, se esvai como uma tempestade ou um incêndio. Então, se olharmos por um momento através das grandes lentes da história humana — primeiro houve o tribalismo, e nós escapamos dele, depois o feudalismo, e escapamos disso — hoje há agora o capitalismo, no qual estamos atualmente tentando escapar, tudo de novo . Mas, embora reis e cavaleiros não estivessem tão interessados em escapar do feudalismo, o que chama a atenção no capitalismo é que todos nós estamos tentando escapar — até mesmo a maioria dos capitalistas — porque nos faz tão infelizes, mesquinhos e tolos.

Não, isso não significa que não existam ovos ruins, cujo único objetivo na vida é acumular mais dinheiro e usá-lo para abusar das pessoas. Claro que existem. Ainda assim, apenas a ideia de que mesmo os capitalistas possam estar tentando escapar do capitalismo também irá perturbar tanto os da esquerda quanto da direita, porque eu estou indo além de Marx e sugerindo que a “guerra de classes” é tão limitadora quanto “o capitalismo é o único fim da vida humana!” Eu penso, entretanto, que esta é uma ideia muitas vezes tomada como certa na Europa, graças a Adorno, Adler, Freud, Fromm e muitos outros.

Você pode vê-la em termos cômicos. O que Bezos e Musk estão fazendo? Tentando fugir para Marte. O que o Gates está fazendo? Recomendando livros para você ler e tentar salvar o mundo com caridade. HAHA— que irônico. Essas são formas diferentes de liberdade do capitalismo. Talvez em Marte possamos construir um mundo melhor. Talvez através de ideias e filantropia, possamos resolver os problemas que as corporações não conseguem. Todos os capitalistas que vejo estão tentando ganhar a liberdade do capitalismo, de uma forma ou de outra. Não estão?

Há muitas pessoas que, tendo acumulado fortunas, parecem estar sob o domínio de uma espécie de compulsão. Eles devem transformar dez milhões em cem, cem em um bilhão e assim por diante. Isso é o que Marx chamou de “fetichização”. Pensadores posteriores, como Adorno e Fromm, teriam dito que tal pessoa ainda está tentando escapar do capitalismo — só eles não sabem como, pobrezinhos. Eles estão tentando comprar amor, afeição, pertencimento, significado e propósito, eles estão tentando ganhar a mesma autodescoberta e auto-realização que nosso burguês gentil buscam, dedicando sua vida à literatura ou arte uma vez que ganharam dinheiro, com um maior iate, mansão e conta bancária. Mas você não pode realmente comprar essas coisas — neste mundo ou no próximo. Então é verdade dizer que mega-capitalistas não são exatamente monges — mas eu não acho que isso significa que eles também não estão tentando escapar do capitalismo. Eles estão apenas tentando comprar sua saída.

Então há muitas pessoas que são a imagem espelhada. Eles não estão tentando se tornar Bezos e Musk e Gates. Eles estão lá, fazendo seu trabalho, ganhando seus salários e indo para casa. É verdade — muitos de nós tentamos escapar do capitalismo fazendo as pazes com ele. Entregando-se a isso, de certa forma. Se eu trabalhar o bastante, talvez nunca fique rico — mas pelo menos ficarei em paz tantas horas por dia. Pelo menos eu terei meus hobbies, meus interesses, minhas paixões. É uma barganha calculada, apatia, que é sempre um tipo de capitulação, no final. E isso só prova o ponto — estamos todos tentando ganhar nossa liberdade do capitalismo, ricos ou pobres, proletários ou burgueses.

Agora, deixe-me destilar as coisas pelas quais estamos tentando a liberdade, a parte do capitalismo. Liberdade de exploração. Liberdade de controle e dominação. Liberdade para encontrar, desenvolver e realizar a nós mesmos. A liberdade de viver vidas que realmente nos marcam com significado, propósito e realização — em vez de sermos esmagados pela ansiedade, machucados pela competitividade e cheios de medo.

Então aqui está a verdadeira questão. Se estas são coisas que estamos realmente buscando — por que não as damos umas às outras? Talvez isso pareça trivial para você, mas quero colocar em perspectiva. Este é provavelmente o primeiro momento na história da humanidade em que somos realmente capazes de dar essas coisas uns aos outros.

Nós nunca tivemos a capacidade física antes. Até este ponto da história humana, precisávamos de exércitos de trabalhadores, fazendo o trabalho de fornecer sustento às nações — agricultura, contabilidade, transporte e assim por diante. Mas agora, finalmente, a tecnologia está automatizando o trabalho repetitivo e estereotipado — não apenas da maneira como as fábricas faziam antes: produzindo bens de consumo enlatados. Mas em um modo real — substituindo seus insumos, cultivando os campos de milho e equilibrando os livros e direcionando as entregas e assim por diante.

Nem tivemos os meios financeiros. Se quiséssemos dar a todas as pessoas o que foi mencionado acima, como faríamos? Não tínhamos como dar a todos o que hoje está começando a ser chamado de renda básica. Será que todo mundo faria uma fila no porta do banco central? Hoje, todos podem abrir uma conta online no banco central e poof — dinheiro. Se realmente quiséssemos, poderíamos tornar a libertação do capitalismo uma realidade financeira quase da noite para o dia.

Depois, há tecnologia social — instituições sociais, bens públicos e investimento público. Somente no século passado os seres humanos se tornaram realmente capazes de operar coisas como cuidados com a saúde, transporte, cuidados com idosos, cuidados com crianças, e assim por diante em escala social. Isso porque essas coisas também exigem gerenciamento pós-capitalista, que ainda estamos aprendendo a fazer. Quem “detêm” o NHS [National Health Service], por exemplo? É mantido em confiança pelas comunidades. O que isso maximiza? Nem lucro nem planejamento, mas resultados de saúde, que são medidos com cuidado. Não o marxismo-leninismo, nem o capitalismo americano — mas uma espécie de pós-capitalismo do século XXI em ação: feito de bens públicos e investimento público.

Essas três coisas, tecnologia, finanças e bens públicos, finalmente amadureceram e se desenvolveram em um grau que a libertação do capitalismo não é apenas possível. Está se tornando inevitável. O que realmente está acontecendo quando essas três forças se cruzam? O excedente da sociedade está sendo reinvestido exatamente nas mesmas coisas pelas quais realmente somos — em vez de sermos despojados pelas elites predatórias. Liberdade de exploração, liberdade de controle, liberdade de encontrar, compreender e desenvolver-se. Nós ainda não tivemos os meios, mecanismos ou ferramentas, na longa história da humanidade, para de fato alcançar esses tipos de liberdade em escala massiva. Mas nós os temos agora.

E isso é uma coisa eminentemente boa. Diz-me que a obsolescência do capitalismo é tão inevitável quanto a do feudalismo anterior. Isso não significa que o comércio, o empreendedorismo e a criatividade vão desaparecer. Muito pelo contrário. Isso significa que eles serão genuinamente mais benéficos — podemos, enfim, dedicá-los a coisas melhores do que dinheiro, status, poder e egoísmo — que é o que o capitalismo nos limita. E através dessa limitação, perpetuamente drenando nossa empatia, sabedoria, coragem, sabedoria, verdade e felicidade, nos faz desesperadamente desejar escapar dela, por toda a nossa vida. Não importa se somos ricos, pobres ou em algum lugar no meio.

Umair
Setembro, 2018

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