A Origem dos Padrõezinhos

Estava guardando o tema dos padrõezinhos para mais tarde. Mas sinto muito a pressa que as coisas devem ser feitas hoje, para ter uma mínima atenção. Não quero provar nada, não quero jogar pedra, mas é tudo que vejo e vim aqui para colocar os pontos que conheço. Tento ser breve.

Para começar, saibam… Vim da área do design e da moda, não falo como um cientista social, filósofo… Falo como alguém que estuda subculturas e suas respectivas difusões de estilos. Estilo no caso não é algo cool como vem à mente de muitos, estilo é o que difere do hegemônico, não é o que vemos na maioria de revistas e blogs. Quando dizemos que um quadro, um livro ou um filme pertence a determinado estilo, dizemos que diferem-se de outros, possuem destaques. Não é a mesma coisa que movimento ou vanguarda pois não precisa estar tão vinculado em significados e tempos, mas podem possuir sim uma carga vanguardista ou mesmo esnobar isso.

Resumão corrido: Para haver estilos são necessários padrões. Um estilo pode tornar-se um padrão mais rápido do que imaginamos mas, por mais estético que seja, nunca desvinculado de uma causa sociológica. Estilos e padrões se relacionam em diversos gradientes e maneiras. Os padrões são estabelecidos pela sociedade através de um sistema controlador chamado de cultura (sim, cultura nem sempre inspira liberdade, hoje tenho até receio de utilizar esse termo no primeiro impulso). Adotei a forte relação de cultura com hegemonia, há até mesmo o termo cultura hegemônica. Os grupos sociais que de certa forma não se encaixam, ou algum dia não se encaixaram, sem muitos esforços na cultura vigente, são chamados de subculturas. São os vetores dos estilos. Subculturas são grupos com símbolos e comportamentos que diferem da hegemonia, mas transitam entre seus integrantes: identidades.

Os padrõezinhos, pelo que entendi de imediato à criação do nome, são em maioria homens homossexuais cis que seguem muito a heteronormatividade, até mais do que os próprios homens heterossexuais. É algo bem apolíneo: magros ou fortes, preferencialmente definidos (daí as piadas com suplementos alimentícios), com o cabelo bem cortado e bem produzido, barbas também são meticulosamente cuidadas. Roupas básicas mas que valorizam o corpo: camiseta quase baby look ou camisa na medida, jeans justo mas não tanto. Nada deve ser chamativo, pelo menos não muito chamativo.

São em esmagadora maioria brancos e de classe média-alta. Se não são, fingem muito bem ser. Fingem fragilmente uma superficial masculinidade. Ativo, passivo, versátil, whatever… Não dão pinta em geral. Mas também não significa que estão no armário.

Há também versões femininas, mas são menos comentadas e difusas. A indústria da moda, por mais limitada que seja, é mais diversa para as mulheres. Por um outro lado, a cobrança de padrões no universo feminino foi sempre mais acirrada e agressiva (não é por um acaso que a grande maioria de casos divulgados de bulimia e anorexia são de pacientes mulheres).

Podemos classificar exemplos de estereótipos femininos padrõezinhos: patricinha, modelo, panicat, team leader… Mas em maioria brancas, magras, cabelos tratados. Como o corpo feminino é mais vigiado socialmente, as mulheres já estão mais vinculadas à essa padronização e ao ridículo controle do corpo, não é tão inédito. Com os homens gays cis ainda não houve essa difusão. Não foi ainda necessária uma classificação dos padrõezinhos.

Padrõezinhos podem ser uma subcultura? Para mim sim, pois falamos de um grupo de destaque. Mas há algumas peculiaridades. Apesar de seguir alguns parâmetros da hegemonia, de tão meticulosos são caricatos, provocando uma identificação fácil. Esse exagero não é inédito na estética dos homossexuais, nos anos 1970 era muito comum adotar um exagero da masculinidade, até mesmo antes disso. A cópia exagerada da cultura vigente também não é novidade, drag queens fazem isso maravilhosamente com nuances do sarcástico ao complacente.

A origem da identificação, e até do nome, não se apresentou na superfície da sociedade, lembrando que nossas redes sociais digitais não são parâmetro para a sociedade de fato. Aqui cabe culpar o tal do algoritmo que evita muitos confrontos, mas que não merece uma problematização tão crítica, sendo que nada mais é do que uma simulação do que era a sociedade antes da era digital.

Com 28 anos há 9 fora do armário, sou quase que obrigado a me perguntar: Será que eu sou padrãozinho? É uma dúvida ainda. Por um lado: sou da parcela privilegiada, vou na academia, tomo suplementos, sou bem vaidoso e publico isso com certa frequência… Mas tenho uns picos entre desleixado e ritualístico. Meu namorado se enquadra em muitas coisas dessa parcela também. Por outro lado já pintei cabelo, tive vários cortes, pintei unha, uso lápis no olho vez ou outra, mas não me considero nada desconstruído. Se vocês querem uma crítica construtiva, coesa e representativa, procurem o texto de Caio Baptista Antonio: Caro gay branco padrão.

Agora, como em toda subcultura, grupo de estilo ou grupo social… Não cabe apenas a mim decidir o que sou. Tudo isso baseia-se em acordos sociais. Você acredita que pode chegar em um grupo de judeus ortodoxos ou punks e sentir-se incluído automaticamente?

O que me espantou é que a ideia do padrãozinho quase me comprou, sobre o lance de felicidade e simplicidade de vida. Quando não somos culturalmente aceitos, os exemplos que aparecem são os mais medíocres. Percebo alguns caras na academia que vão religiosamente no mesmo horário e imagino a vida meticulosamente organizada e superficialmente perfeita que ele leva. É super desejável.

Quando vejo um casal gay na mídia tudo é perfeito também com um pé na mediocridade (nas séries do Ryan Murphy são os dois pés). Difícil pra caramba ver gay pobre ou infeliz na mídia. Casais gays são sempre ricos, com decorador contratado e criança encomendada de uma barriga de aluguel de algum país menos desenvolvido que o Brasil. Pois precisamos muito ser aceitos como aceitam os casais padrõezinhos que nos mostram.

Começo então a analisar isso e tentar justificar a origem dos padrõezinhos. Atenção: justificar não significa defender. Em primeiro lugar (1), podemos culpar a mídia? Mas é claro! Quando somos retratados ou somos caricaturas festivas e ácidas ou o Neil Patrick Harris (marca registrada Mário Lemes, pesquisem o texto dele Nem todos os gays são o Neil Patrick Harris). Isso que gays são retratados, os outros componentes da sigla LGBT muito pouco.

Nós mesmos temos uma parcela de culpa nisso com o consumo homossexual. Não adianta nada exigirmos que os descontruídos sejam valorizados se valorizamos esmagadoramente os padrões de beleza heteronormativos, de moda à pornografia. É importante reparar nisso tudo e perceber se estamos induzidos à defesa de diversidade de maneira avulsa ao nosso consumo.

Em segundo lugar (2), qualquer pessoa passa por padronizações a vida toda, LGBTs recebem a padronização da padronização enquanto crescem. Você não pode pintar o cabelo que tem gente que torce pra cair. Melhor careca com 16 anos do que com cabelo de viado. Quando você volta para cor natural faltam te presentear com um biscoito e uma medalha, pois voltou a cumprir sua obrigação social em ser heteronormativo e manter seu frágil disfarce de macho. Em nossas adolescências, meu irmão heterossexual fez mais loucuras no cabelo do que eu, inversamente proporcionais às críticas.

A terceira justificativa (3) é bem simples para quem acompanha moda. Para toda tendência há uma contra-tendência. Da mesma maneira que saias e calças mudam de estação para estação, a sociedade também muda. Entre os gays vivemos uma época muito mais politizada e consciente do que quando me assumi. Vivas a isso!

Corpos começaram a ser discutidos e aceitar diversidades de corpos também. Ficou muito claro que roupa não possuí gênero, apesar da imposição cultural e industrial que vivemos. Mas, dentro de uma subcultura acontecem contra-tendências e isso é ótimo para a dinâmica social, assim não ficamos estagnados. Qual seria o oposto ideal de desconstruídos? Construídos, uniformes, controles, regularização, padrões. Padrõezinhos em 2017 são uma contra-cultura aos desconstruídos a partir do momento que receberam esse nome.

Por um outro lado (4), há uma mega-tendência que influi na tentativa de ausência de estilos. As pessoas do mundo inteiro, por algum motivo cansaram e querem adotar padrões e coisas básicas. A origem disso é indefinida, mas o boom de tribos urbanas ocorreu na segunda metade do século XX e o apogeu ficou claro no início do século XXI. Cansada, a sociedade começa a escolher a ausência de estilos, os homossexuais procuram então fazer a mesma coisa.

Também falando de sociedade (5), talvez pela primeira vez temos inseridos na sociedade hegemônica gays que foram criados pelos pais com total liberdade em serem gays, como deveria ser. Para os que não foram criados assim, podem utilizar de uma quantidade enorme de aplicativos que facilitam os contatos entre homossexuais utilizando localização. Dar bandeira não é mais tão necessário quanto antes.

Dar bandeira: Quando não somos assumidos, ou quando acabamos de assumir, sentimos uma vontade de gritar isso para o mundo de alguma maneira. Temos que dar pinta de algum modo ou então não vamos conseguir afetividade ou sexo (sim, homossexuais transam). O modo para expressar isso se você não pode falar? Adornos, roupas, acessórios, cosméticos, músicas, esportes, artes…

Também vou falar de algo que tentei elaborar na minha dissertação de mestrado mas ainda não defini um termo (6), vamos chamar de retração social ***Atenção! Eu não estou falando que criei isso. Não tenho currículo para isso, só estou tentando apelidar os bois que ainda não sei os nomes***. Este tipo de movimento ocorre quando, por algum trauma ou suposto ônus ocorridos na inclusão de uma subcultura, indivíduos retraem-se socialmente, voltando-se à cultura hegemônica dominante ou de origem.

Isso pode ser muito comum na transição da vida jovem para vida adulta. Quem nunca cortou o cabelo meio caretinha para uma entrevista de emprego? Um homossexual, procurando emprego há tempos, acaba supondo que o desemprego pode sim haver com sua aparência (e muitas vezes está certo). Claro que há gradientes entre situações e áreas, mas é um movimento comum.

Se sua família ou sua área supostamente permite sua desconstrução, talvez você não possa dizer que seu coleguinha padrãozinho seja mais privilegiado que você. Lembre-se de negros que foram obrigados a alisar ou raspar o cabelo, que foram reprimidos por usarem turbante… Lembre-se que provavelmente o homossexual do sertão nordestino vai passar a vida toda no armário fingindo ser cabra-macho… Ou então, lembre-se de transsexuais que precisam esconder elementos de transições de gênero ou que são interrogados de maneira invasiva sobre isso.

Adquirindo os elementos da cultura dominante e obtendo êxito, o homossexual jovem adulto percebe uma maneira de ser incluso no sucesso e dificilmente retornará aos elementos de subculturas. Torna-se adulto, quando não torna-se careta, passado e evolução torna-se uma questão relativa. Não podemos romantizar quando precisamos nos transformar no que a sociedade acreditar ser um ser humano adulto. "Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos […] Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais." (BELCHIOR, 1976).

Um teste rápido. Qual a causa? Mídia e consumo? Padronizações por toda a vida? Contra-tendência na subcultura? Mega-tendência na sociedade hegemônica? Liberdade e cultura digital (famílias evoluídas e aplicativos)? Retração social? Todas as alternativas. Trata-se de uma situação multifatorial, uma fórmula em que não poderia resultar em algo diferente.

Qual o maior problema disso tudo? O maior problema de todos, em minha singela opinião, é uma polarização sem o mínimo sentido. Padrõezinhos e desconstruídos (ou wannabes) se atacando e alguns supostos protagonistas se achando rainhas da cocada preta. Isso sim nós, gays, não devemos copiar da sociedade hegemônica.

Chamar de padrãozinho não é ofensa, mas os críticos também devem compreender alguns limites. Por mais hegemônico, o cara ainda faz parte da mesma (gigantesca) subcultura que você. Nós homossexuais ainda somos considerados subcultura. Nossa influência na sociedade é constantemente deslegitimada, nossa voz é calada. Em um país homofóbico como o nosso, assumir fica entre risco e privilégio, muitas vezes um tiro no escuro. Há espaço para ser padrãozinho e politizado, parece estranho, mas o contemporâneo é estranho.

Ao mesmo tempo os padrõezinhos devem respeitar (e muito) os homossexuais mais distantes da hegemonia, pois compor uma imagem desconstruída é automaticamente mais ativa e vulnerável do que dois heteronormativos passeando de mãos dadas em um shopping classe média-alta. Os desconstruídos que são os primeiros a levantar nossa bandeira. #Respect!

Ah! Achei que esse lance havia acabado, mas: discrição não é qualidade viu? E ser afeminado não é defeito, resolvam suas inseguranças e depois proponham relações, o contrário dificilmente dá certo.

Ressalto que você não pode se ofender em ser chamado de padrãozinho. Você é homem, branco e está sim inserido em uma dinâmica social de padrões. Gays desconstruídos, mulheres e outros membros da sigla LGBT passam por isso a vida toda. Então engula o choro, “seja macho” mais uma vez na vida, não doeu até agora.

A bronca final é um agradecimento aos padrõezinhos. Eles estão muito melhores tomando o whey e indo para academia do que utilizando estampas étnicas, passando vergonha no carnaval utilizando elementos estéticos de outras culturas, acreditando que passar um batom te faz mulher, etc. Melhor assumir a caretice do que cometer apropriação cultural indevida. Se organizar direitinho, todo mundo se respeita.