Ocupações por diante…

Não sei se estou tão velho para falar “na minha época…”, tão pouco sei se foi a época ou a minha condição e negligência interferiu no comportamento. Minhas duas primeiras escolas eram públicas, uma unidade municipal de pré-escola e uma outra escola em que fiz a 1ª série do Ensino Fundamental. Da 2ª série ao 3˚ ano do Ensino Médio estudei em um colégio particular no interior de São Paulo. Por mais que eu não fosse um aluno aplicado sou muito grato pelo caminho oportuno que trilhei por lá: meus primeiros contatos com arte, minhas primeiras discussões com fundamento, os poucos amigos e os muitos amigos. O fato é que desde aquela época havia uma indignação minha sobre o número de pessoas que, como minha família, se esforçavam para colocar um filho em uma escola particular.

Me lembro que li, na época do Ensino Médio, uma entrevista com a atriz Andrea Beltrão dizendo que seus filhos estudavam em escola pública. Ela não é apenas global, tem uma sólida carreira no teatro, mas convenhamos que ela tem todo o prestígio do público e é raro não estar no ar, se espera que tenha mais condições do que a estrondosa maioria de pais que matriculavam seus filhos no ensino privado. Na mesma entrevista, a atriz argumenta que faz questão de participar, de reivindicar os direitos em reuniões de pais e mestres.

As pessoas se espantam quando digo que eu gostaria de fazer o mesmo caso eu tenha filhos. Na verdade, me espanto em poucos dizerem que gostariam de ver seus filhos em escolas públicas. Acho que as pessoas se acostumaram tanto com o desdém dos governos e com remediações porcamente executadas, que esqueceu de exigir serviços básicos e gratuitos como educação, saúde, segurança e até mesmo a água que bebemos.

Há 4 semestres tenho contato frequente com turmas de graduação através do mestrado. Percebo que são turmas lindas no sentido de politização, ideais, quebra de paradigmas e preconceitos. Não que eu tenha sido um jovem desinteressado, me faltava mais auto-conhecimento para defender meus verdadeiros ideais, mas o empenho deles e a consciência de mundo são muito mais amplos. Duvido muito que toda a onda positiva dos alunos de graduação seja distante do movimento de ocupações de escolas da rede pública no estado, são legitimas. Toda visão negativa sobre o movimento que me passam são dignas de reavaliação, diante à escrota e explicita manipulação que esses meios estão sofrendo, uma tradução ridícula.

Cenas de comportamento que nunca tinha visto, que acreditava que estavam muito distantes. Incrivelmente vejo muito pouco na minha timeline sobre todo o contexto, se não fosse por páginas que eu curti, pessoas que busquei conhecer e pessoas que conheci indiretamente, eu não teria o mínimo acesso às repercussões positivas das manifestações. Se eu ainda estivesse apenas com o eixo escola — faculdade — família, estaria propenso à uma posição indiferente ou negativa sobre isso. Para os amigos que me influenciam positivamente eu quero agradecer eternamente, para os outros, os da minha “natureza” eu quero dizer para melhorarem e saírem da zona de conforto.

A educação paga ser a escolha mais óbvia no ensino “básico” é extremamente preocupante. Além de todo o meu apoio às manifestações eu quero deixar claro o meu objetivo em fazer vocês questionarem esse nosso comportamento e expandir o questionamento às outras areas. Se nós temos direito aos serviços básicos gratuitamente com qualidade porque estamos há tanto tempo enraizando a ideia de que devemos pagar para ter algo melhor? Os estudantes são exemplo para todo o povo brasileiro.

O nome São Paulo se destaca como cidade e como estado pela própria natureza, por um investimento que parte desde os jesuítas (talvez até dos índios), não é a “locomotiva do país” e mesmo se fosse, o PSDB não tem mérito algum por isso. Geraldo Alckmin está muito errado, professores apanhando no começo do ano e alunos apanhando no fim, da maneira mais cruel possível. Não adianta dar a volta, vocês (PSDB e PMDB) estão fazendo isso desde 1985: já deu. Não vai ter adiamento, suspensão, ou qualquer outro apelido para trucagem, reorganização já era apelido pra isso. Os jovens querem o cancelamento e não tem arrego.

Talvez eu não seja velho o suficiente para falar “na minha época…”, mas se formos dividir jovens e “adultos” eu prefiro a juventude, essa das ocupações, manifestações, performances, protestos, ideais e muita consciência de mundo. Há muito tempo, por negligência, eu não via tamanho aspecto promissor no povo brasileiro. Minha eterna gratidão à juventude paulista de 2015, 2016, 2017 e assim por diante…