Street Style de Fashion Week é um Conto de Fadas bem bobo

O pensamento que me ocorre no mínimo de seis em seis meses.

Me recuso confiar em “street style” de fashion week. De qualquer país, em qualquer estação.

O “street” não tem. Se trata de um evento de moda já estabelecido (no caso do Brasil, há mais de 20 anos), não há o sentido literal de “rua”, muito menos um sentido social.

Também não vejo nada “style”, está tudo disponível no mercado, de uma forma ou de outra. Nada se destaca do comum, pode ser algo descolado mas tão descolado quanto o mercado pede pra ser. Como sempre digo: você sai de uma caixinha para entrar em outra.

O pior de tudo isso é que acredito que a rua hoje acaba imitando tudo isso que vê no “street style”. A rua acaba imitando sua própria imitação. Perdemos muito com isso, não é saudosismo nem chatice.

Simplesmente imagine seu livro favorito, imagine também uma adaptação cinematográfica ou televisiva para este livro, e por fim imagine que lançaram um outro livro mas que possuí de referência apenas a adaptação audiovisual. Um livro sobre o filme do livro. Por mais que seja curioso, que tenha uma carga enorme de coisas para analisar entre uma adaptação e outra, há de se concordar que o risco de perder um universo muito mais rico de informações é gigantesco.

Acho contos de fadas tão interessantes, há inúmeras versões, mas acabamos por adotar a versão da Disney que é esteticamente mais estabelecida. Acho lindo, colorido e fofo. No entanto, tenho ciência de que este tipo de apropriação deu à Disney o direito de criar adaptações cada vez mais deturpadas dos contos originais, ou até mesmo novos contos. Frozen, por exemplo, é inspirado em A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen. Muita coisa mudou de uma adaptação para outra: o nome do vilão do filme é o mesmo nome do autor da história original, o papel de Kristoff é "na verdade" de uma mulher selvagem e Elsa (Rainha da Neve) não seria irmã de Anna e sim de Primavera (tão vilã, sedutora e possessiva quanto ela).

Não vou nem falar sobre outras adaptações / novas autorias pois entraria em um outro campo de estudos muito mais complexos, mas quando falamos de apropriação de determinados conteúdos falamos também na "roteirização" dos Street Styles de Fashion Weeks. São lindos os looks, até usaria alguns, mas muito conteúdo se perde.

Sem falar da parcela mínima dos eventos que recebe determinada repercussão e está da cabeça aos pés patrocinada. Nada contra o jabá no look do dia, mas nem a maneira tão explicita de publicidade leva as grandes (e pequenas, consequentemente) publicações a trabalharem melhor o termo Street Style.

Por mais que na verdadeira rua haja mais do que nunca uma montagem de personagens uniformes, há uma abertura para o inesperado (até mesmo para ruídos) muito maior do que nos corredores do prédio da Bienal. Na SPFW você não verá outras expressões dos supostos descolados, a não ser que sejam ações milimetricamente e pobremente encenadas.

A criatividade do verdadeiro street style resiste ainda em algumas lacunas da rua, são grupos que dificilmente ligarão suas imagens às das imagens de pessoas "descoladas" pouco interessadas nos looks dos desfiles e muito interessadas na repercussão do próprio look em instantes.

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