chuva de granizo
semana passada choveu granizo. acontecimento meio raro, todo mundo foi pra varanda ver as pedrinhas de gelo estourando no chão do quintal.
toda vez que acontece, minha mente vai automaticamente pra primeira vez que eu me lembro de ter presenciado chuva de granizo. foi na casa da minha avó de parte de pai. eu lembro de estar eufórica com o que estava acontecendo, era incrível pra uma criança de sei lá quantos anos eu tinha. casa da vó, cheia de primos. a histeria da velha gritando pra gente tomar cuidado, pra não se machucar, pra não ficar resfriado.
meu pai deixou tudo mais incrível ainda: me agarrou pelos braços e me lançou na piscina enquanto as pedrinhas de gelo caíam do céu.
mês passado fez 1 ano que ele morreu. esse mês eu fui pra hospitais mais vezes do que gostaria.
ir pra hospitais de madrugada sempre me lembra minha infância. eu acho que fui a criança que mais se quebrou em vilar dos teles — não serei ambiciosa de aumentar o raio de possibilidades. eu sempre tive medo de doenças, de hospital, de morrer. mas eu gostava das madrugadas nos hospitais.
meus pais são separados desde que me entendo por gente e essas eram as noites em que a família se reunia. todo mundo dentro de um carro indo para o hospital de saracuruna em busca de alguém pra engessar meu braço (ou clavícula ou mão ou perna). a felicidade nisso era meu segredo, talvez o detalhe mais íntimo que uma criança poderia ter àquela altura.
também tinha outro. quando eu dormia abraçada com meu pai no chão da sala da minha avó e a gente ficava ouvindo o barulho das rodas dos carros girando sobre o morro de paralelepípedos a noite. o único barulho que cruzava aquele silêncio sonolento. e também tinham as madrugadas em que meu pai sumia e eu o esperava na cama da minha vó e o som das rodas dos carros girando sobre o morro de paralelepípedos na noite enchiam meu coração de expectativa toda vez que se aproximavam do portão branco com roseira em cima.
hoje esse som já não traz tanta emoção. não tem quem vá chegar. a roseira também já foi e a piscina raramente está limpa. eu já não me quebro tanto — mas escrevo sobre essas coisas porquê ainda tenho medo de morrer.
