oroboro

Existe um peso específico nessas madrugadas, quando eu olho pro céu e não me parece tão tarde. Quem condenou essas horas? Minhas sinas se repetem. A perversidade do meu destino. Eu troco de pele, ovos vazios continuam se quebrando sob meus pés. Tem essa crueldade, da qual eu ria na cara. Na boca do inferno, eu ria. E continuei rindo, hipnotizada pela minha própria risada. E gargalhei desgraciosamente até que os músculos da minha garganta se rasgassem. Existe um rancor da vida que eu arrasto reprimido, que se joga no meu colo enquanto só uma batida sertaneja impede um silêncio mórbido na cidade. Eu procuro respostas nas cartas, nos búzios, nas orações, nos terços, no karma. Menos de sete mil dias me separam da inconsciência total pra agonia de ser e saber que sou. Existe um peso específico nessas madrugadas. A ligeira metamorfose humana é o registro de uma natureza impiedosa, que me condena nas horas impacientes de abstinência de um vício que eu nunca tive.