Destino ou consequência: que vençam os sonhos ainda não sonhados
A estadia permanente no paraíso bucólico começou aos seis anos de idade, de um ano que ela tenta não lembrar. Seu pai, tendo nas costas 49 anos de sobrevivência, decidiu trabalhar para um dos maiores engenheiros da capital paulista, que tinha acabado de adquirir uma fazenda há 100 km de São Paulo. Pedreiro e desesperado em dar uma vida confortável à família, o homem classificado entre a classe C e D nos índices econômicos do país, aceitou sair do bairro do Jaraguá para viver uma roupagem de vida não tão injusta a seu ver, mas aceita pelos anos de sobrevivência. Ao fazer as trouxas, levou consigo quatro filhos e uma mulher com câncer.
Tão proveitoso seria para qualquer criança viver livre dentro de uma fazenda, e foi. A liberdade era tanta que nem a escola ela conseguiu terminar na época. Era a única filha que podia cuidar da mãe doente. Por ser a mais nova, dos seis aos dez anos, se dedicou na cura de um câncer que já tinha atravessado o cordão umbilical da genética, inserindo-se nas entranhas de um escuro e sombrio bambúrrio. Ela não apenas se levava a sério quando dizia que era enfermeira. Ela fazia comida, dava banho, trocava fraudas. Os papéis foram trocados entre mãe e filha sem a fiscalização do Conselho Tutelar. Ali, no meio do mato, não era proibido uma criança brincar de ser adulta. A ordem natural da vida não obedece às regras quando tudo que você tem é uma longínqua esperança.
A enfermeira pequena chamada filha, que deu o seu melhor mesmo não sabendo mais como se desdobrar, não foi capaz de descobrir a fórmula do milagre e se culpou; culpou Deus, mas não se lembrou de encarar o fato da morte natural de uma existência. A morte gélida chegou para aquela mãe que deixou quatro filhos em um dia chuvoso do mês de agosto, onde meia dúzia de gatos pingados foram até o cemitério Santa Branca para enterrar mais uma hóspede que o mundo não conheceu. Do início ao fim do trajeto longo entre pinheiros, morte e solidão, uma família caminhou só, em silêncio; o silêncio tão desesperador de pessoas que gritariam se tivesse a certeza de algum socorro.
E, como dor de menos favorecido pela classe econômica parece que não piora quando não se tem nada na conta bancária, é aí que a gente se engana. As lágrimas precisam sair do fundo, do vazio da falta de tudo, do silêncio ensurdecedor da alma que paira lutando por sobrevivência.
No verão, nas folgas intercaladas dos garotos que trabalham no Fazendão, é rotina. Eles saem sexta-feira e só retornam domingo à noite. Com o irmão mais velho dela se cumpriu a rotina, ou apenas a metade dela. Já se passavam da meia-noite quando o gerente da fazenda bateu na casa da família. Esquecendo-se que havia tido um dia de bebedeira daquelas, o rapaz se enfiou nas águas e esqueceu de retornar; o rio engoliu uma alma, mais um da família, sonhos.
O mesmo trajeto. As mesmas pessoas. O mesmo cemitério. O mesmo zé ninguém!
A falta da lápide na cova só enfatizava que ali morria mais uma pessoa que a sociedade não conheceu, pois, o seu nome não estampava nenhuma importância, nenhuma fama, nem mesmo o Cadastro de Pessoa Física do Governo.
A família Santos, que trabalha no Fazendão, diminuiu em quantidade e o destino não pediu desculpa por isso. O plano era serem felizes para sempre, o que deu errado?
Com o gravador pausado, ela esbravejar alguns choros de convicção e pede para não gravar as lágrimas. Se bem trago à memória, contar uma história é relembrar duas vezes a realidade de uma vida escondida entre os mundos internos e a realidade que dá ‘murro a ponta de faca’. Ao enxugar os olhos, ligo o gravador e ela retoma a frase: “às vezes, sinto que fui enterrada viva, mas não sou triste, juro”.
Jurar. Jurar é dar beleza aos sonhos que ainda estão escondidos no interior. E mudando o ciclo da conversa, ela proporciona-me mais linhas de sua história.
O jardineiro entrou no Fazendão e inundou o coração dela. Um homem alto, meio calvo, olhos castanhos, corcunda e com uma postura exemplar, era exatamente o que ela almejava.
Ele se apaixonou por ela e prometeu que ficaria enroscado aos seus pés na mesma cama, até o fim da vida.
Com três anos de relacionamento, prestes a casar, a filha da cozinheira apareceu grávida. Sim, o filho era do homem alto, meio calvo, olhos castanhos, corcunda e com uma educação exemplar. Como as escavadeiras que fincam o solo para enterrar as raízes dos eucaliptos da região, a voz dela não saiu mais. Depois de 5 minutos de silêncio, afirmou: “poligamia não faz parte do meu cotidiano”.
Ela sabe o que é poligamia porque, há três anos, andando 4 km para pegar o ônibus até o centro de Santa Branca, concluiu o colegial e ainda arriscou algumas aulas de inglês. Para fugir da dura realidade, cobriu-se de livros fazendo deles realidades fantasmagóricas. Teve de aprender a esquecer da morte, o amor mal-amado, a vida surrada. “Os estudos são terapia minha jovem, há como se perder nas palavras, isso é tão bom”.
Ela, com a bravura de um leão, não permitiu que o mundo das letras estivesse tão distante. Não se conformou em ser amordaçada pelo destino sem ao menos escrever o nome. Não se conformou em permanecer na classe dos analfabetos brasileiros. Agora, ela consegue votar e não precisa ser paga para digitar os números na urna.
Ela não teve sorte na vida. Ela não teve sorte na família. Ela não teve sorte no amor.
– O que você espera da vida daqui para frente? — Apenas alguns sonhos. É errado esperar sonhos? — Qual é o sonho que deseja realizar?
– Está vendo aquele morro? Todos os dias eu subo lá às cinco da tarde. É de lei, coisa de velha. Lá, eu conto às arvores e penso que gostaria mesmo é que não existisse essa desigualdade social. A pobreza não causa só miséria no corpo, a gente carrega isso na alma.
Depois de quase uma hora e meia de entrevista, com um nó atravessado em minha garganta, me perguntava: quem eu sou? O que é minha história perto da realidade que ela esbravejava em me inserir?
Sua realidade cruel atacou minha consciência, minha ridícula zona de conforto. Eu sobrevivo, e ela? Ela é a porta de uma escória que, ao abrir, existirão milhares de outras histórias, sem ao menos serem registradas, sem ao menos serem choradas.
Ao descobrir a intensidade da vida contado por um destino, o doce se esvai, o peito fica afiado que nem rocha. Pode bater, não tem coração, não sangra mais. Era isso que os olhos dela diziam aos meus.
Com 40 anos, uma pele morena clara escondendo as rugas do tempo, cabelo preto sem as tintas das mulheres paulistanas, um sorriso melancólico, uma camiseta branca que faz parte do seu uniforme, unhas sem fazer, calça jeans desbotada. Ela é Elisângela Santos, meio aos muitos Santos depositados no Brasil, viventes há 500 anos.
A história de Elisângela ficará perdida entre as mobílias antigas do Fazendão, aonde anos antes, barões desfrutavam alguma felicidade da escravidão do século XVI. O sorriso da moça que depositou sua vida naquele lugar, sem ao menos ter o direito de escolha, está aprisionado a senzalas entre o destino e a consequência.
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Jéssica Molina Galter, os dias contam histórias dos anos.
