Transviadagem Classista — Um manifesto

Moira Mieli
8 min readDec 20, 2023
Créditos ao artista: @communist_clown do twitter

O marxismo-leninismo no Brasil, assim como basicamente todo o movimento comunista de todo o mundo, teve diversos atritos coma a libertação sexual enquanto pauta e horizonte, nos dias de hoje há uma tentativa de remediar essa relação muito conturbada principalmente na, dita, pauta LGBTIA+. Eu não acredito que esses movimentos sejam suficientes. Sei que muitos também não acreditam. Enquanto o mercado da representatividade entrega os seus “mimos” para as letras, até então, menos reconhecidas pela sigla, os “respeitáveis militantes”* continuam se perguntar do quão válida é a luta e a existência de determinado grupo social colocado dentro das letrinhas. Não basta só enfrentar a nível abstrato essa lógica liberal-mecânica da representatividade, nós precisamos ir além para não nos igualarmos só com um “liberalismo vermelho” no que tange esse tema. Para tal proeza venho defendendo uma palavra-projeto essa permite com que joguemos fora as décadas de conservadorismo sexual do movimento comunista, que nos aponte um futuro emancipatório comunista que genuinamente destrua qualquer traço da sociabilidade burguesa e que também não fique com uma baboseira de chamar tudo que não gosta de “pequeno-burguês” e “pós-moderno”, a palavra intitula esse manifesto: Transviadagem Classista. Antes de cantar as trombetas da fundação dessa “vertente” da Transviadagem, existem dois processos a analisar, o primeiro é a realidade na qual estamos inserindo-na, o Brasil do século XXI, sem esquecer o longo histórico dos dissidentes do Brasil e da América Latina, o segundo é conceituar a transviadagem para depois atribuir-lhe um sentido marxista por completo.

A história Pré-Transviada e a atualidade do sistema sexo-gênero-desejo no Brasil

Podemos olhar dos relatórios da ANTRA até o básico da convivência no sistema social cisheteropatriarcal no qual vivemos, a situação não está boa, por ai se divulga muito sobre o Brasil ser o país que mais mata pessoas Trans no mundo e é desse dado o primeiro ponto que levanto. O Brasil de 2023 se mantém extremamente violento para pessoas que fogem as normas de gênero, mas uma questão urgente para nossa luta são os dados, nos dados nós, dissidentes, mal existimos, apesar das dificuldades desses dados nós poderíamos pensar a organização e conscientização da parcela da população que representamos.

O Brasil não é necessariamente o país que mais mata pessoas LGBT e nem Trans especificamente no mundo, não é que o dado seja mentiroso, só insuficiente, por dois motivos: 1. Não há coleta de dados sobre vida e violência das pessoas LGBTIA+ no Brasil centralizadas na mão do IBGE, as organizações não-governamentais que fazem esses serviços fazem o melhor que podem pela via da clipagem de denuncias para as organizações policiais e óbitos; 2. Não há coleta país por país sobre o tema, então, o Brasil é o país que mais assassina pessoas LGBTIA+ no mundo que a gente tem algum dado sobre o tema (sem julgar a qualidade do dado)

Posto esse primeiro incomodo o Brasil também é um país de Capitalismo Dependente, subjugado pela cultura anglo-saxônica, posto na cadeia imperialista como um cassino (imobiliario) e uma fazenda para produzir comodities, por isso, o Brasil tem essa forma-mercadoria escrita em seu cerne dado seu histórico, anterior, de colonização e atual de imperialismo a plenos pulmões.

Superando tudo isso, o povo brasileiro teve seus heróis, deles já sabemos, mas e seus militantes de fora da Norma? Quantos sabem de Herbert Daniel? Que tanto escreveu sobre ser revolucionário e um viado. Quantos sabem sobre João W. Nery? ou Anderson Herzer? Ou das dezenas de nomes das Travestis que foram presas centenas de vezes pela operação Tarântula? Quando sabemos de alguém nós sabemos dos artistas. Mesmo com esse maior status, nós também os reivindicamos, reivindicamos cada nome que fugiu a Norma que já tenha pisado nesse país, apesar das contradições e tendo pessoas horríveis em seu meio também, pois reivindicamos a humanidade plena da libertação do Eros e toda a bagunça que vem com isso, afinal, Transviadagem é bagunça.

Conceituando brevemente a Transviadagem

Cunhado por Berenice Bento, o termo Transviado (usado pela autora com o @ antes das críticas que existem sobre linguagem acessível em libras) é um amalgama que ela funda no Brasil, primeiramente esse termo significa uma primeira assimilação da Teoria Queer para o Brasil (assimilação que nesse sentido pode ser refeita e não precisa ficar presa aos moldes de Berenice, desde que não se abandone essa leitura):

Esses pontos colocados por Bento, ela agora questiona as, para ela, problemáticas da Teoria Queer:

Então ela coloca o que é a Transviadagem amplamente:

A minha língua tem que fazer muita ginástica para dizer queer e não sei se quem está me escutando compartilha os mesmos sentidos. Ser um transviado no Brasil pode ser “uma bicha louca”, “um viado”, “um travesti”, “um traveco”, “um sapatão”

Berenice também aponta como não pode se perder a pauta queer (agora Transviada) da desnaturalização das identidades, não existe essência transviada.

Eu, ainda sem enveredar ao Marxismo(-Leninismo), acredito que a Transviadagem é mais do que o conceituado pela autora.

Primeiro temos uma referência à “Transviada”, no dicionário outra palavra para trabalhadora do sexo, evocando todo um respeito e assimilação teórica do Putafeminismo

Segundo uma progressão (sem pretender-se uma grande superação, mas sim uma luta irmã) do Trans/Travafeminismo jungido as concepções de Paul B. Preciado sobre as Multidões Queer (Multidões Transviadas) para pensar cada vez mais a luta sem sujeito no centro.

Isso nos abre a porta para compreender que a Luta/Teoria Transviada não só não são a mesma coisa da “Teoria da Libertação LGBT”, mas é algo superior. A Teoria da Libertação se adjetiva com o LGBT, se torna porém uma luta essencialista, todos aqueles que por natureza já são podem ser em paz, mesmo que não essencialista com a parcela LGBT sua denominação e construção esquece-se que somos todes subjulgados pela mesma norma e ideologia que nos reprime e mutila eroticamente, por isso a Libertação Transviada é a Libertação de todes, é a tomada das ruas, das praças, das casas e dos prédios pelo erotismo livre, ou na luta para ser, é assim que pensamos um Eros que transforme a sociabilidade humana numa grande orgia (não necessariamente prática).

Uma arma muito teorizada com pouca centralização

Marx já cantou a bola: “É fato, no entanto, que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, no entanto, também a teoria se transforma em poder material assim que se apodera das massas.”

Então aqui canto outra:

A Transviadagem em seu formato Marxista(-Leninista) é nossa arma para a mais ampla libertação humana e além-humana(como pontua Bordiga “o conteúdo original do programa comunista é a obliteração do individuo como sujeito econômico, detentor de direitos e agente da história humana”.)

Essa arma vem antes de ser arma, como teoria, para isso aponto alguns nomes essenciais para pensar sua construção (a ordem dos nomes é aleatória sem juízo de valor): Mario Mieli, Paul B. Preciado, Ana Montenegro, Judith Butler, Teresa de Laurentis, Alexandra Kollontai, Gayle Rubin, Guy Hocquenghem, Virgine Despentes, Edward Carpemter, Anderson Herzer, Amanda Palha, Amara Moira, Lorenzo Berini, Kevin Floyd, Hailey Kass, Helena Vieira, Leslie Feinberg, o Coletivo Borboleta Vermelha, dentre diversos e tantos outros nomes.

Dentro do arcabouço teórico da Transviadagem Classista estão diversos conceitos, dentre eles:

  • Tecnologia de gênero — Enquanto um entendimento do efeito performático-tecnológico-protético que tem certas coisas que usamos para nos aparentarmos generificados de maneiras X ou Y, mas compreendendo como um termo insuficiente para a análise dos efeitos socializadores na psiquê das pessoas, entretanto inegavelmente produtor de efeito na realidade.
  • Sistema sexo-gênero-desejo — Sistema social-econômico-cultural de normas, jurisdições regido pela forma-mercadoria e imposto pelos Aparelhos Ideológicos do Estado e mantenedor da ordem social do gênero, assim funcionando como o criador do “normal”, do “desviante” e do perseguidor do “desviante” que mantém em nosso imaginário uma vigilância para não nos colocarmos em risco dessa perseguição.
  • Multidão Transviada — Advindo da Multidão Queer de Preciado esse conceito serve como uma proposta de ação política depreendida da identidade e lutando pela sua degeneração e fim. Lutas sem sujeito, uma vez que compreendemos que a luta pode ser travada por qualquer (já atravessado pela ideologia burguesa que funda as opressões como são hoje) um engajado e ancorado no marxismo e na vivência de seus companheiros de trincheira.
  • Mutilação cisheteropatriarcal — “A ideologia capitalista, falocentrica, heterossexual e eurocentrica funda e constitui a visão de mundo do homem unidimensional, do homo normalis, a visão fetichista do humano alienado de si mesmo, do mundo e dos outros pelo capital. Assim como as condições neuróticas habituais das pessoas consideradas ‘normais’, toda a lógica capitalista é esquizoide: dissociada, ou melhor, dividida entre Eu e não Eu,(…) desejo e não desejo, sentidos e intelecto, público e privado, inconsciência e consciência, (…) a racionalidade capitalista mantém o equilíbrio insano do individuo ‘saudável’ (…)” (Mieli), mas também:

“O universo inteiro cortado em dois e somente em dois. Tudo tem um direito e um avesso nesse sistema de conhecimento. Somos o humano ou o animal. O homem ou a mulher. O vivo ou o morto. Somos o colonizador ou o colonizado. O organismo ou a máquina. Fomos divididos pela norma. Cortados em dois e forçados em seguida a escolher uma de nossas partes. O que chamamos de subjetividade não é mais que a cicatriz deixada pelo corte na multiplicidade do que poderíamos ter sido. Sobre essa cicatriz assenta-se a propriedade, funda-se a família e lega-se a herança. Sobre essa cicatriz, escreve-se o nome e afirma-se a identidade sexual.” (Preciado)

Nasce aqui, a Transviadagem Classista

Não sou uma grande pessoa, tento estudar bastante sobre os temas que me agradam e não faço isso para me encastelar. Fundo essa ideia no mesmo sentido. Não é por grande reconhecimento, é para ela existir, é para ela produzir práxis política. Eu pesquisei, Transviadagem Classista, ao que tudo indica, foi dito pela primeira vez por mim, no twitter, eu sei, patético, mas está no mundo.

E lanço aqui mais um básico sobre a Transviadagem Classista:

  • Ela é herdeira de nome e de muito do conteúdo do “Feminismo Classista”
  • Tenho como referencia máxima para a orientação da ação política Transviada Classista o texto “Transfeminismo e Construção Revolucionária” de Amanda Palha
  • A Transviadagem tem o potencial para trazer pela via da luta política tudo que Mario Mieli falou sobre “esquizofrenia” enquanto uma maneira mais clara de se enxergar a experiência humana (ou não) e a ácidez de Mark Fisher, trazendo à tona a psicodelia da dissidência.
  • Junto a teoria Leninista vale pontuar uma releitura, emprestada por um Camarada meu, Yuri, da mesma forma que Lenin pergunta “Democracia para quem”, nós norteamo-nos com um acréscimo a Lenin: Repressão para quem?

Dessas minhas elaborações em diante só posso esperar a práxis e novas formulações para a Revolução Transviada, o futuro será construido com nossas mãos (de)generadas.

Saudações Transviades

Transviadagem Classista

Futuro Socialista

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Moira Mieli

Comunista ácido, transviada classista tesão e luta de classes