Breakdown do Caso Feliciano

Uma análise das capturas de tela postadas pelo site Gospel+

Introdução rápida: O blog Coluna Esplanada publicou no dia 2 de agosto que uma mulher acusou o deputado Marco Feliciano de assédio sexual. Alguns prints foram publicados nesse post, e o blog continua a atualizar o público sobre o caso. Recentemente, o site Gospel+ divulgou novos prints, sob a notícia de que essa mulher ameaçava Feliciano. No texto a seguir, pretendo fazer uma análise dos prints publicados pelo site Gospel+ e compartilhar meus pensamentos a respeito; recomendo a leitura dos textos publicados nos referidos portais para melhor entendimento. [1] [2].

Antes de começar, duas considerações importantes:

  1. O Site Gospel+ excluiu de sua postagem o print abaixo e (até a data de publicação deste texto) não explicou o porquê da exclusão. Por este motivo, usarei como base para desenvolver meu raciocínio a versão publicada no dia 6 de agosto, disponível para conferência no Internet Archive[1].
Print excluída do site Gospel+

2. No dia 30 de junho, Feliciano acidentalmente postou em seu Twitter o seguinte printscreen em uma resposta ao Programa Pânico da Rádio Jovem Pan, que tinha Gregório Duvivier como convidado. O tuíte foi deletado e estou usando os tuítes [3] e [4] para garantir a veracidade deste print.

Inception de prints

Ao todo, o site Gospel+ publicou uma série de 15 printscreens, presumivelmente tiradas do celular de Feliciano e das quais ele provavelmente é a fonte. Fiz uma comparação das informações disponíveis nestas imagens para tentar extrair algo de relevante sobre este caso. As informações estão dispostas na tabela a seguir:

Verde: maior valor; Vermelho menor valor. As fotos estão na ordem que foram publicadas pelo site Gospel+

Alguns padrões saltam aos olhos quando as informações são analisadas. A descarga gradual de bateria sugere apenas uma recarga no espaço de tempo em que os prints foram tirados, e o exato padrão duplicado tanto no horário do telefone, quanto no horário da última mensagem recebida/enviada, sugerem que Feliciano tirava os prints tão logo recebia as mensagens.

Feliciano começou a salvar as capturas de tela às 20:27h, pouco depois de a moça relatar que já fora vítima de estupro. A pergunta óbvia é: por que Feliciano faria uma captura de tela de um relato de uma vítima de estupro? Por que ele continuou tirando printscreens tão logo recebeu mensagens sobre a CPI da UNE sem ter como saber o que aconteceria mais tarde?

Ao comparar os horários das mensagens com a descarga da bateria, nota-se que a linha do tempo dos acontecimentos não faz sentido ou segue uma lógica própria. Como o celular tinha 40% de bateria às 20:27h de um dia e, dezoito horas depois, ter uma descarga de apenas 2%? (fotos 4 e 5 da tabela).

O mesmo acontece com as fotos 6 e 7: uma descarga de 6% em um espaço de tempo de aproximadamente dezesseis horas. Fotos 7 e 8: 6% de descarga em cinco horas. A possibilidade de recarga da bateria entre os prints é altamente improvável, dada a descarga gradual evidenciada na tabela, e dado que isto aconteceu três vezes em um espaço de tempo de (provavelmente) trinta e seis horas. Entre a foto 11 e 15 há uma descarga de 5% do celular em um espaço de aproximadamente onze horas. Como o deputado explica este fenômeno?

É natural pensar que, por se tratar de um deputado e pastor, Feliciano receba muitas mensagens em seu WhatsApp. Apesar de o número ser privado, a moça aparentemente conseguiu o número com certa facilidade (afinal nem explicou para o Feliciano como ficou sabendo que o número é dele), provavelmente por meio de contatos em comum no PSC. No entanto, o contador de “mensagens recebidas” nos prints publicados pelo site Gospel+ jamais passou de uma única mensagem não lida (foto 7 a 9). Ou o número de celular de Feliciano é realmente de muito difícil acesso, ou Feliciano tem um rigoroso processo mental de ler todas as mensagens de seu WhatsApp antes de salvar cada uma das capturas de tela. Um fato tão curioso quanto estranho.

Outro fenômeno que causa estranheza é que, nas imagens 4 e 5, a mesma mensagem aparece com horários diferentes. O site Gospel+ deletou esta foto de sua publicação, mas a dúvida permanece: como isso é possível?

Mesma mensagem em horários diferentes

O WhatsApp não possui uma funcionalidade que permita ao usuário a alteração do horário de mensagens já recebidas. Porém no iOS (e também no Android), quando a hora e o fuso do sistema são alterados, o horário das mensagens recebidas e enviadas também sofre alteração, e essa alteração depende da hora configurada manualmente no sistema. O horário das mensagens não atualiza automaticamente, necessitando de um certo tempo para que o aplicativo faça um “refresh”. Em meus testes, o horário das mensagens foi atualizando gradualmente e não todas de uma vez.

A possibilidade de reenvio da mensagem é descartada, pois a primeira mensagem da sequência foi enviada às 20:15h e a última, às 20:22h. Uma mensagem no meio desta sequência tem o horário 16:22h em um print e 20:22h em outro. Exatamente 4 horas de diferença, o que sugere alteração de fuso horário ou alteração apenas da coluna “horas” nas configurações do sistema (e ainda assim as mensagens posteriores não sofreram atualização, permanecendo 20:22h). Fica o convite a quem tiver disponibilidade testar e replicar este cenário.

Ainda na imagem 5, há um outro detalhe intrigante: A resposta de Feliciano indica uma passagem de tempo maior quando ele diz “Oi filha. Desculpa pois só vi agora sua mensagem”. A última mensagem que Feliciano recebeu foi às 20:22h enquanto sua resposta foi no dia seguinte, às 16:30h. Entretanto não há o indicativo do WhatsApp evidenciando que se trata de um dia diferente, que é o que acontece quando mensagens possuem datas distintas.

Comparação dos meus testes com o print publicado pelo site Gospel+

Não é possível explicar o que aconteceu nesse print quando se leva em consideração a fala de Feliciano, o horário das mensagens e a ausência do marcador de data. Mas, ao desconsiderar a fala de Feliciano, é possível explicar o que aconteceu sob a hipótese mencionada previamente de alteração de horário ou fuso nas configurações de sistema do telefone.

Não é uma ginástica mental pensar na hipótese de alteração da hora do sistema porque a descarga da bateria entre o print 4 e 5 é de 2%. O horário também bate quando se avalia a procedência dessa possibilidade pois, mesmo que a hora tenha sido alterada, os minutos das mensagens seguem uma linha cronológica que faz sentido: A primeira mensagem do print 4 foi enviada no minuto 15 de uma determinada hora e a última mensagem do print 6 foi enviada no minuto 36 desta mesma hora. Alteração automática de fuso horário pela rede é descartada pois em todo momento o celular está conectado na rede da Claro e para uma alteração de fuso com conexão com a internet o celular deveria estar em roaming.

Do print 1 até o print 9 o consumo de bateria é gradual, inicialmente com 41% e chegando aos 23%. Com esta possibilidade em mente (alteração do horário do sistema manualmente), passa a ser possível explicar essa descarga. Quando se muda a hora do celular os minutos também são ajustados de acordo com a nova hora estabelecida, sendo possível traçar uma linha do tempo apenas com os minutos das mensagens. Essa hipótese seria sumariamente descartada caso os minutos das mensagens não seguissem uma ordem que estivesse par com a descarga da bateria e também caso os minutos das mensagens não obedecesse uma ordem cronológica entre si. Curiosamente não é o caso aqui para ambos os requisitos.

Pode ter soado complicado, mas não é. Para demonstrar o que foi dito, substitui o horário do telefone de acordo com a progressão dos minutos das mensagens, respeitando a ordem publicada pelo site Gospel+, e comparei com o consumo de bateria. Também comparei a diferença dos minutos do horário do celular com com a diferença do status da bateria de um print para outro, para que o método seja mais robusto. Eis que surge a tabela abaixo:

Tabela comparando o horário ajustado X consumo de bateria. Horário ajustado a partir do valor zero.

Como a tabela demonstra, a progressão dos minutos das mensagens acompanha o consumo de bateria e quanto maior os minutos entre um printscreen e outro, maior o consumo de bateria nesse tempo. O mesmo padrão é visto do print 10 ao print 15, onde houve uma recarga completa no celular:

Tabela comparando o horário ajustado X consumo de bateria. Horário ajustado a partir do valor zero.

Talvez seja cedo para afirmar que a hora do celular foi alterada ao longo dos 15 printscreens publicados pelo site Gospel+? Não sei, porém essa se torna de longe a hipótese mais razoável de se levar em consideração quando se tem em mente (a) a descarga da bateria, (b) a ordem dos minutos das mensagens e (c) a mensagem que mudou de hora em dois prints distintos. O fato do site Gospel+ excluir essa mensagem de sua publicação sem dar o motivo alimenta ainda mais essa hipótese. Com isso em mente, surgem novas perguntas: Por que Feliciano alteraria a hora do sistema ao longo destes 15 prints? Em que isso o beneficiaria?

Jogadas essas perguntas na mesa, é necessário levantar a possibilidade de edição manual ou fabricação de uma narrativa — possibilidade esta que estava sendo evitada até aqui. Se não é edição manual de imagens e nem uma fabricação de conversa, como explicar linhas do tempo distintas e conflitantes? No mais, é responsabilidade do site Gospel+ explicar por que a imagem foi excluída de sua publicação. A fonte (presumivelmente Feliciano) errou ao enviar esta imagem? Se errou, qual foi o erro? Se a fonte não for Feliciano e nem ninguém de sua equipe, o quão confiável é a fonte do site Gospel+?

Uma vez que as hipóteses de edição manual e fabricação de narrativa saem do campo do conspiracionismo e fazem sentido serem levadas em consideração, é indispensável rever tudo o que já foi dito até aqui. Estas hipóteses explicam facilmente a descarga gradual da bateria quando comparada com os horários das conversas, explica a única mensagem não lida de Feliciano e explica a mensagem que mudou de horário. Não explica o print vazado no dia 30 de junho, mas dá um contexto favorável ao deputado, ao mesmo tempo em que desvia acusações de assédio sexual. Dois coelhos em uma cajadada só.

De todo modo, são hipóteses. O Site Gospel+ e Marco Feliciano devem explicações para que não sejamos injustos com ambos. Caso tenham explicação melhor para as informações levantadas e as perguntas aqui feitas, terei prazer em publicar.

Edit: Hoje após esta publicação, o site Gospel+ veiculou um texto[5] onde defende sua fonte e os prints a que teve acesso, explicando o motivo do print ter sido deletado. Reproduzo abaixo um trecho do texto que vale um comentário:

“Um dos prints foi apontado pela estudante como indício de que todo o conteúdo seria forjado, pois este continuava uma mensagem atribuída a ela, mas registrava horário diferente da mostrada no print anterior. Por esse motivo, atualizamos a matéria com a exclusão desse print exclusivamente, por representar uma hipótese de inverdade, mas mantendo os demais, que se alinham com o fato do dia 28 de junho.

Esse fato relacionado aos horários não deve ser visto como prova de falsificação por parte de nossa fonte. No site do WhatsApp, no espaço dedicado a dúvidas, há um tópico em que o aplicativo comenta de forma oficial situações que podem causar diferenças de horários.”

Como apenas um print pode representar uma “hipótese de inverdade” sendo que a hora do celular no print seguinte segue a hora do print deletado? Se o WhatsApp comenta situações que podem causar diferença de horários, porque o print foi deletado?

Vejamos então o que diz a seção de FAQ do WhatsApp:

O site do WhatsApp diz, de forma oficial como afirmado pelo Gospel+, que “possivelmente o horário ou o fuso horário configurado no telefone está incorreto”. Ou seja, as informações disponíveis na seção de perguntas frequentes do site dá credibilidade à hipótese previamente levantada nesse texto: a possibilidade de edição manual de horário ou fuso horário no telefone de Feliciano.

No site também há a possibilidade de que a rede esteja informando a hora incorreta ao sistema. Isso explica o motivo de não existir marcador de data: a data do sistema foi alterada automaticamente pela rede (para quatro ou mais horas atrás do mesmo dia) e também explica a progressão numérica dos minutos. Porém essa possibilidade entra em choque com a fala de Feliciano que denota passagem de tempo “Desculpa pois só vi agora sua mensagem” e com o consumo de bateria que é gradual do print 4 ao 6 e proporcional a progressão numérica dos minutos, como se não houvesse a passagem de tempo citada na mensagem de Feliciano.

Caso haja uma explicação para esse desencontro de informações, fica esta última pergunta: Qual será a probabilidade da rede da Claro informar ao sistema a hora errada em mais de quatro horas nos momentos em que os prints eram salvos?

Por fim, fica também uma dica aos jornalistas que por ventura estejam interessados nesse caso: seria interessante entrar em contato com a Claro e questioná-los quanto a estabilidade do sistema no que tange a atualização do horário da rede. A métrica de falhas no informe do horário ao cliente e algum histórico de falhas dessa natureza, que possa ser disponibilizado ao público, seriam reveladores a este caso. Também convém saber qual o cenário que viabiliza a ocorrência deste tipo de erro.

Ao linkar este FAQ, o site Gospel+ endossa indireta e inadvertidamente o que foi aqui previamente publicado.

[1]”Prints do WhatsApp mostram que Patrícia Lélis ameaçou Feliciano e teria tentado se passar por Malafaia; Entenda” Visitado 6 de Agosto — http://web.archive.org/web/20160806204616/https://noticias.gospelmais.com.br/prints-patricia-lelis-ameacou-feliciano-tentou-malafaia-84695.html

[2] Reportagens publicadas pelo Coluna Esplanada — http://colunaesplanada.blogosfera.uol.com.br/2016/08/02/o-caso-pr-feliciano-mulher-acusa-deputado-de-assedio-sexual-e-recua/

[3] Tuite de Vinícius Sacramento — https://twitter.com/vinnysacramento/status/747832480485548032

[4] Tuite de Danilo Sanches — https://twitter.com/danilo_sanches/status/748722814614638592

[5] “Patrícia Lélis fala ao Gospel+ e nega conversa com Marco Feliciano por WhatsApp” Visitado 8 de Agosto — https://noticias.gospelmais.com.br/patricia-lelis-nega-conversa-marco-feliciano-whatsapp-84728.html

Todos os prints publicados pelo site Gospel+ podem ser conferidos aqui — https://www.dropbox.com/s/75qvdbq733xadpb/WebArchivePrints.zip?dl=0

Agradecimentos ao Felipe Ventura pela colaboração.