Olavo de Carvalho, a Direita Zureta e a Zueragem Adolescente


“Toda mentira tem o privilégio de poder expressar-se com mais brevidade do que a sua refutação.” — Olavo de Carvalho, Diário do Comércio, 30 de setembro de 2009

Olavo de Carvalho é um dos mais interessantes articulistas do conservadorismo brasileiro ainda em atividade, quiçá de todo o meio intelectual que temos por aqui. Conhecido por combater ferozmente a esquerda e o PT; por perpetrar a denúncia de que Barack Obama não nasceu no Havaí e sim no Quênia, e ser portanto inelegível à presidência dos Estados Unidos; por negar o sistema heliocêntrico e o princípio copernicano, citando para isso o cientista geógrafo Alexander von Humboldt, que viveu em uma época na qual eletromagnetismo e a própria gravidade terrestre ainda eram conceitos nebulosos; e conhecido também por criticar Galileu Galilei e a mecânica newtoniana, afirmando em seu artigo Raízes da Modernidade que “A ciência de Galileu e Newton fazia pouco caso da observação da natureza, preferindo a construção de modelos matemáticos sem equivalência na realidade sensível”. Curiosamente, Olavo também é critico de Einstein por — uma vez que a realidade se mostrava mais complexa do que aquilo que Newton havia previsto — modificar a mesma física newtoniana que ele tanto se opunha com a Teoria da Relatividade. De fato, um pensador ímpar.

Eis que, em plena alegria e oba-oba que antecede o Carnaval, o autodenominado filósofo e professor repentinamente tem seu perfil suspenso do Facebook — rede social que ele utiliza com frequência para compartilhar seus pensamentos cotidianos, e se comunicar com aqueles que se dizem seus pupilos. Ninguém sabia ao certo o que aconteceu, e muito se especulou; afinal, Olavo dificilmente transgrediria alguma regra do Facebook, e era muito pouco provável que resolvesse dar cabo de sua conta.

Então, para surpresa de alguns, no dia 26/02 o nobre deputado e pastor Marco Feliciano, em discurso na Câmara dos Deputados, usa de seu espaço para fazer uma denúncia. Em suas palavras:

“Faço uso dessa tribuna para denunciar manobras sórdidas perpetradas por grupos, onde tudo leva a crer que pertençam a partidos políticos de esquerda, que criaram páginas falsas no Facebook com a única finalidade de destruir a reputação* do jornalista Doutor Olavo de Carvalho. A tática segue os mais rasteiros ensinamentos bolcheviques: acuse-os do que você faz e assim você vai minando o que possa restar de credibilidade da pessoa a quem se quer destruir e intimidar.”

No dia 28/02, Felipe Moura Brasil, colunista da Veja e editor do último livro publicado por Olavo de Carvalho, publica um texto a pedido do próprio Olavo. O título do texto já adianta o que viria a seguir: “MORDAÇA VIRTUAL — Olavo de Carvalho conta como a militância do crime tirou do ar sua página do Facebook”. Felipe Moura, dizendo que não bastando assassinar reputações*, chama de canalhas aqueles que não aturam o sucesso do livro do estimado professor. No dia seguinte, é a vez de Reinaldo Azevedo prestar sua solidariedade a Olavo, publicando o mesmo texto em sua coluna, ressaltando que não se pode esperar que um esquerdista seja factualmente honesto, e perguntando se o Facebook se tornaria refém destas milícias. Apenas no dia 07/03, Olavo de Carvalho publica em seu site — o Midia Sem Máscara — a mesma denúncia já feita por seus colegas, de que a esquerda quer calar as vozes dissonantes daqueles que se voltam contra seus ideais políticos, mas não sem antes citar o assassinato de reputações* praticado com recursos do Estado.

Estas denúncias correram pela internet e fizeram certo burburinho. Foram reproduzidas fora da mídia tradicional, em páginas conservadoras de toda estirpe no Facebook e em outros sites menores de propósitos semelhantes, como o portal Reaçonaria. Em um texto assinado por alguém que se intitula apenas Osmar, é reforçada a crítica à militância esquerdista na internet, fazendo menção de que 2014 se trata de um ano eleitoral:

“2014 está agitado. Ano de eleição, normal ser bem movimentado. O problema é quando militâncias virtuais agem para calar o outro lado. Derrubam páginas, perfis e tentam suprimir a opinião contrária. O perfil do professor Olavo de Carvalho sofreu ataques e ficou deletado por horas. Alguém que era ignorado pela mídia e pelos formadores de opinião está causando problemas, já que vendeu muitos livros e muitos passaram a acessar o conteúdo divulgado por ele. […] Será que essa é a estratégia preferida das militâncias? Caçando páginas e perfis de oposição para impedir que as opiniões sejam divulgadas em ano de eleição? A guerra política de 2014 já começou e o outro lado não quer deixar você falar.”

O tom apocalíptico prenuncia o fato consumado: Olavo de Carvalho fora atacado por militantes esquerdistas — a essa altura do campeonato, isso já é algo inegável. Mas há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia. Voltemos então ao dia 26/02, véspera de Carnaval.

Algum desafeto, militante esquerdista, zombeteiro ou mesmo pupilo de Olavo de Carvalho o adiciona ao simpático grupo “Panelinha do Bananal (Poço de Urânio)” no Facebook, dedicado a zueragem, propagação de memes, fotos de gatinhos e essas coisas que fazem sucesso na internet. O problema é que Olavo de Carvalho, não sabendo direito como lidar com as complicadas ferramentas que o Facebook oferece, não possuía o conhecimento necessário para fazer algo realmente muito complexo: sair de um grupo do Facebook.

“Apenas petistas podem sair”

Olavo de Carvalho também é peculiarmente conhecido por se enfezar com extrema facilidade. Falhando em conseguir se desvencilhar da Panelinha do Bananal, começou a incentivar que seus seguidores denunciassem o grupo por spam ou fraude, querendo tirar dos pobres paneleiros do bananal o direito à zueira.

“Não pedi para entrar nessa merda. Vocês vivem de sugar reputações e assasiná-las* em seguida. Uma armadilha, um crime em toda a linha.”

As postagens de Olavo de Carvalho são públicas e ele estava sob a mira dos paneleiros do bananal. Era meio óbvio que os paneleiros iriam ficar sabendo que seu querido grupo estaria recebendo uma espécie de contra-ataque dos seguidores de Olavo, e devolveriam na mesma moeda — denunciando o perfil de Olavo pelo motivo que julgassem melhor, enfim tirando do ar a conta de Olavo de Carvalho. Ao que parece, algum paneleiro conseguiu inclusive acessar a conta de Olavo, talvez explorando alguma falha de segurança conhecida do Facebook, e mudou o número do celular vinculado à conta — dificultando, assim, o processo de recuperação do perfil. O jovem no Brasil não é levado a sério até que eles mostrem do que são capazes, afinal.

E foi assim que Olavo teve sua conta suspensa pelos paneleiros do bananal, e descobriu que é melhor continuar vociferando apenas contra os comunistas na internet do que se meter a enfrentar jovens que estão a serviço da zueira.

Isto é uma arapuca!

É bem revelador também como os setores mais zuretas da direita brasileira abraçaram a causa do estimado professor Olavo de Carvalho, sem antes parar para pensar no tremendo papelão que estariam fazendo. O fato mobilizou um deputado a discursar na Câmara, fez com que dois colunistas da Veja esperneassem contra uma suposta militância esquerdista hacker, custeada pelo dinheiro do contribuinte por meios escusos, e fez com que gente ainda mais zureta relacionasse tudo isso com o fato de que 2014 é um ano eleitoral, vendo aí uma correlação tão absurda quanto impressionante.

E tudo isso por conta de uma simples zueira dos paneleiros do bananal. A estes só cabe o nosso agradecimento pelo espetáculo.

*Obs: Dos adolescentes nós esperamos comportamento de adolescente; já dos mais velhos, esperamos mais. É cômico ver adultos se comportando como adolescentes, tentando mostrar nas entrelinhas de seu discurso qual o livro que leu ou está lendo — como se isso fosse lá grande coisa — dada esta absurda sucessão dos fatos.

Agradecimento especial ao Felipe Ventura (@venturafelipe) e ao Mario Aguilar (@aglr_) pela ajuda e suporte.

Update: Muitos dos paneleiros possuem pensamentos de direita (é pouco provável que um esquerdista use o termo “bananal” para se referir ao Brasil, por exemplo) e como são adolescentes fica ainda mais difícil dar alguma orientação política ao grupo. O legal é que isso demonstra como a zueira dos paneleiros não segue orientação política, tornando a ideia de que o perfil de Olavo foi derrubado por militantes hackers esquerdistas ainda mais hilária.

Update 2: Otávio Horowitz (@OtavioHorowitz) me fez algumas considerações no Twitter, que refutam pontos deste texto, que julgo serem relevantes e preciso ser honesto em publicá-las. Ele me esclareceu que a denuncia que Feliciano fez na Câmara se referia a uma outra página do Facebook e não a Panelinha, e mostrou indícios de que o perfil de Olavo foi atacado também por outros grupos além da Panelinha do Bananal. Convém deixar isso registrado porque é possível que o perfil de Olavo só tenha sido derrubado por causa do ataque conjunto destes grupos. Obrigado ao Otávio pelas considerações.