O fenômeno Grêmio

Torcedor de time grande nunca vai estar totalmente preparado para uma derrota. Por mais calejado que esteja e por mais previsível que o fracasso seja, torcedor sente da mesma forma. Gremistas conseguem, inacreditavelmente, fugir um pouco da regra. São passionais como todas as outras, xingam no apito final e no dia seguinte estão comentando com o colega de trabalho que dá para reverter, mas começam a demonstrar um comportamento diferente. São 15 anos sem títulos expressivos, claro… porém, muitos outros gigantes também sofreram com secas e jejuns de mais de década. Acontece, o Brasil possui, no mínimo, 12 clubes considerados verdadeiramente grandes, e todos eles querem levantar caneco. O problema se dá quando nesse período o time ganha apenas 3 estaduais em 16 anos. Estadual, este, polarizado, de duas agremiações enormes entre nanicos. Quer dizer, a torcida sente. E não são anos onde o clube esteve com o futebol latente, adormecido, longe de competições de alto nível, amargando a segunda página da tabela. O Grêmio disputa a Libertadores ano sim, ano não, Copas do Brasil quase que anuais, e chega em novembro brigando por G4. E isso acontece desde o acesso de volta a série A.
Acumulam-se, assim, insucessos constantes justamente onde construiu sua fama de copeiro. Em mata-mata tem fiasco todo ano. Desde a eliminação para o Atlético-GO no Olímpico, até a tripla eliminação seguida em oitavas-de-final de Libertadores (a quarta se aproxima). O Grêmio é coadjuvante no Campeonato Brasileiro. Nunca entra visado, conquista uns pontos em casa e quando se vê, lá está ele brigando pelo terceiro lugar, onde permanece sem ameaças de baixo e sem cutucar os de cima, que brigam entre si pelo título. Até quando é vice, está sempre longe demais para incomodar o futuro campeão.
Previsível. E essa previsibilidade me faz retornar ao começo do texto, onde detalhei que o torcedor gremista foge um pouco da máxima de que torcedor, mesmo com todos os fatores conspirando contra, sempre sente o baque de uma derrota ou eliminação. Gremistas se dividem em dois. Nada de falar do corneteiro, do apoiador incondicional… isso também tem em todo clube. Falo dos torcedores “ano que vem é tudo nosso, com algumas contratações pontuais esse time vai voar” e do “resta saber em que fase seremos eliminados”, que compartilham o estado anestésico frente aos insucessos. É melancólico. Não tem certo ou errado. Não posso julgar quem aplaude eliminação porque o time se esforçou, e quem começa o ano totalmente desesperançoso. É futebol, e a linha da razão é tênue demais. Ninguém a tem plenamente.
O clube não levanta taça alguma há quase 6 anos, com bons e maus times. O ciclo é bem definido e nada parece interrompê-lo: a queda no Charmosão™ (título colorado), seguido da queda na Libertadores, seguido de um começo de Campeonato Brasileiro focado (onde se entra como aspirante a meio de tabela), o time encorpa, começa a beliscar pontos aqui e ali, vem a Copa do Brasil, onde a ilusão se instaura e logo é desmantelada por uma eliminação em casa, que devolve o foco totalmente aos pontos corridos, onde já não há pelo que brigar além da manutenção de um G4, que inflama a torcida para o ano subsequente.
O Grêmio só não corre o risco de se tornar pequeno porque já é grande demais para tal. O Atlético Mineiro viveu 41 anos de estaduais e nunca deixou de ser um colosso. Quem faz o clube é a torcida, a camiseta, a história. O problema está justamente na interrupção da parte gloriosa da instituição para viver exclusivamente do passado e da manutenção desse ciclo vicioso. Entra ano, sai ano e a história é muito parecida. O que mais alarma nesse cenário todo é assimilar que as derrotas não machucam mais como antigamente, e isso sim é sinal de que algo precisa ser revisto. Quanto aos motivos, podemos atribuir à falta de sorte/ineficiência/má gestão/despreparo psicológico/táticas equivocadas… bom, pode ser sobrenatural, também. Seria até mais fácil de explicar.