6 Razões para o Sucesso de Deadpool

Eis que veio Deadpool e arregaçou as bilheterias. Não só. Foi também um dos melhores filmes do universo Marvel e um divisor de águas na história das adaptações dos quadrinhos para o cinema. Como, quando, onde, por quê ? O texto a seguir esmuiça a foderosa produção da FOX, e tenta identificar os motivos, possíveis e prováveis , do sucesso avassalador.

1. O Roteiro

Em filmes de super heróis, costuma haver dois tipos de roteiro: aqueles que servem de pretexto para a porradaria, ( e que esquecemos tão logo saímos do cinema ), e aqueles mais raros, que nos nos fazem pensar na vida, ou no mínimo, nos imprimem uma sensação mais duradoura, muitas vezes, sem que saibamos muito por quê. Existem graus e variações no meio, mas os extremos são esses. E, por mais improvável que pareça, Deadpool está no segundo grupo.

Temas que falam com um número maior de pessoas têm, claro, maiores chances de serem sucesso. A preservação do planeta (Avatar), opressão vs liberdade ( Matrix ) e a busca pela verdadeira vocação ( Star Wars ), chamam mais atenção do que debates sobre a inteligência artificial ( Ex-Machina ). Verdade que a condução do filme, atores, marketing, etc. podem garantir um maior sucesso do que um tema relevante apenas, mas em regra geral, se o assunto for universal, as chances serão maiores.

E o tema de Deadpool é acessível a todos: o poder do amor, e de como este nos faz querer sermos maiores e melhores. “ Se o Deadpool te ouvisse falando essa besteira, te meteria a mão na orelha “, poderia vociferar, algum inveterado e desatensioso fã, diante de palavras tão tenras. Mas a verdade é que o que fez o Deadpool andar pra frente foi o amor. E, lógico, vingança. Mas depois, de novo o amor.

E esse, para mim, foi o grande lance do filme: Deadpool não odeia a ideia do amor, mas sim a interpretação romântica do mesmo. O que ele não tolera, são produções de Roliúde que tratam o amor feito Coca Cola e Big Mac. Se algum produtor convidasse Deadpool para estrelar num filme desses, aí sim, levaria um safanão.

Mas o que seria do roteiro se não fossem.

2. Os Diálogos

“ Porra, Lovric !!! Mas diálogo não faz parte do roteiro ? “ Calma. Sim. Faz. Mas nesse filme, os diálogo são tão bons que merecem interpretação à parte. Ademais, no esquema linha de montagem de Roliúde é bem possível que tenha tido alguém ( ou alguéns ) só para escrever(em) os diálogos. Em TV, por exemplo, acontece muito disso…

Diálogos bons podem suplantar o próprio roteiro ( vide Pulp Fiction e Tarantinos em geral ). O bom diálogo tem que dizer sobre o personagem, ou o que ele pensa (ou não pensa), quem ele é, o que quer, e empurrar a história pra frente. Quando você, no meio do filme, se pega olhando no relógio durante um diálogo, é porque ele não está te entregando nem uma coisa, nem outra, nem outra. Independente do quão bem sacada seja a trama.

Quando o diálogo entrega tudo isso e ainda diverte, é porque ele é muito bom. No caso de Deadpool isso acontece várias vezes.

Quem escreve roteiros sabe. Diálogos são difíceis. Embora a fórmula seja simples (entrar na cabeça do personagem e, se imbuindo de sua personalidade, escrever algo que só aquele personagem, naquela situação, poderia dizer ), a prática requer muito muito treino e muita muita habilidade. Parabéns, galera da FOX. Vocês são foda.

3. O Storytelling

Falou em história boa e todo mundo pensa em trama. Mas como Walt Disney já dizia, para entreter o povo, a história pouco importa. O que interessa é como ela é contada.

O próprio Stan Lee, embora roteirista nos primórdios da Marvel, não escrevia roteiros propriamente ditos. Ele jogava a ideia, recebia as páginas e preenchia os balões com os diálogos, criando situações conforme os desenhos dos mestres Ditko, Kirby ou Buscema permitissem. As aventuras, em suma, tinham um história, mas não um roteiro, tal qual conhecemos hoje.

Não era capricho artístico de Lee. Havia um motivo. Imaginem ter que contar uma história onde nada drástico pode acontecer; ninguém pode morrer, se separar, mudar de cidade, ou mesmo, envelhecer, porque, no mês que vem, tudo tem que continuar mais ou menos no mesmo lugar do mês anterior. Era o que o próprio Lee chamava da IDEIA DA MUDANÇA. NADA podia mudar exatamente, mas a sensação tinha que estar lá.

Assim, Lee, e a Marvel, e outras editoras, se epecializaram no storytelling. Em COMO a história se desenrola, que no final, se tornou mais importante do que O QUÊ acontece. E Deadpool entrega isso magistralmente. As cenas em câmera lenta, os flashbacks, flash forwards, a tensão na quebra dos atos, a apresentação dos personagens, tudo entregue de forma extremamente competente. Não à toa, o diretor do filme, Tim Miller, tem o hábito de gastar 400 dólares por semana em quadrinhos.

4. Os Personagens

Gente zuada, quebrada, imperfeita. Mas não do jeito Aranha, que perdeu os pais, foi amado pelos tios e depois perdeu o tio ( por negligência ). Falo de gente que mal teve pai, ou mãe ( ou mordomo), e que gasta uma energia absurda só para conseguir atravessar mais um dia.

Uma história sobre gente assim, sem comédia é de fazer “Polverine” chorar. Mas com comédia, é diferente. Cascamos o bico mas ainda absorvendo o trágico. Nem sempre é fácil criar esse balanço sem cair na caricatura.

O diálogo entre Deadpool e a namorada, quando se conhecem, sobre quem mais se fudeu na vida, é genial. E, embora, seja surreal, é verdadeiro.

Link para uma as versões do script do filme aqui.

Gostamos deles porque ao invés de serem vítimas, preferem andar pra frente. E ao invés de comprarem a ideia do final feliz, entendem que o que encontraram foi um salva vidas momentaneo em meio ao afogamento que é a vida.

Por isso, quando vem a cassetada emocional e então Wilson decide fazer o sacrifício supremo, acreditamos nele, pois morrer não é tão ruim quanto ver sofrer quem lhe permitira o breve respiro de felicidade.

É isso o que caracteriza um bom personagem: a razão que tem para fazer o que faz.

Os outros personagens também são críveis. O amigo é amigo, mas até certo ponto. O vilão é vilão porque parou de sentir, impedindo qualquer chance de empatia pelo outro.

Já o que faz de Deadpool um herói é sua capacidade em enxergar o outro, aspirar algo maior e continuar a andar pra frente apesar de todas as porradas. O que faz dele um anti herói, é sua incapacidade para enxergar isso ( e também gostar de dar um trucidada na galera). É necessário alguém que lhe mostre. O escolhido foi o Colossus. O contra ponto perfeito. A briga entre os dois é engraçada e coisa e tal, mas faz sentido porque representa Deadpool se negando a reconhecer o bem em sim.

Cara, até o COLOSSUS ficou legal nesse filme. Vocês têm noção ?

5. O Elenco

Para interpretar os personagens, escolheram atores perfeitos. Vou além. Acho que escreveram os personagens com os atores já em mente: o Ryan Reynolds de Deadpool é o Hal Jordan de Lanterna Verde. Só que sem se levar a sério. E sem amarras.

A namorada , Vanessa, a brasileira Morena Baccarin, é a mistura da femme fatale que fez em V com a namorada/ esposa perfeita de Homeland.

O amigo de Wade, é o Erlich Bachman, dono da incubadora/casa da galera, que mistura piadas de pinto com repentes de genialidade, na ótima série Silicon Valley.

Ed Serkin já tinha sido mercenário em Carga Explosiva e Game of Thrones.

6. A Trilha Sonora

Houve tempos que sucessos de bilheteria eram praticamente sinônimo de trilha sonora marcantes, fosse o tema do filme, fosse alguma música pop inserida por direitos adquiridos.

Por um tempo, isso miou. Nos filmes de super herói, não houvemos músicas foda até o tema de Vingadores, e mesmo assim, opaca, em comparação aos temas de Superman, Indiana Jones, Guerra nas Estrelas, E.T., De Volta Para o Futuro , etcs, em termos sonoros, ou, em termos mercadológico e cultural, a Bat Dance, do Prince, no Batman de Tim Burton.

Agora, isso parece estar voltando. Guardiões da Galáxia apresentou a melodia a toda uma genração ( sim, porque a música atual é de produção e cadência, mas não é melódica). Deadpool seguiu a fórmula, nos dando os clássicos…. e misturando com temas mais recentes. Afinal, apesar das referências mil aos anos 80, estamos em 2016.

Deixei duas coisas de fora nessa lista. A primeira, a parte visual. É bem feita, claro, mas não se sobressai, em particular, porque tudo hoje é muito bem feito em Roliúde. O nível é muito alto. Sem desmerecer o trabalho dos técnicos em efeitos visuais, diretores de arte, mas acho que em filme, isso deve estar subordinado ao que foi descrito acima ( salvo a trilha sonora), não o contrário.

A segunda coisa que deixei de fora, é um aspecto amplo o suficiente para render um post único. E é o que vou fazer semana que vem. Adianto que tem a ver com o fato citado, do filme ser um divisor de águas.

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