Leite de Saquinho


Acho que vou virar um pacote de café Melitta com um toque de nicotina.

Sério.

Pela quantidade descomunal de café preto que tenho tomado e pela quantidade igualmente (se não maior) de cigarros que tenho fumado, é nisso que tenho me transformado: um pacote de Melitta sabor nicotina.

Me sinto como aqueles personagens de filmes cult que ficavam em suas casas empoeiradas, olhando o mundo através de uma janela suja — por onde só atravessam poucos feixes de claridade — sentado em uma poltrona puída pelo tempo, maltratada pela vida, vítima das circunstâncias.

Em uma mão uma grande caneca de café forte (e sem açúcar, por favor), em outra um cigarro. Rodeado e submerso em bitucas que, uma a uma, representam cada devaneio, cada agonia e cada frustração sentida. Tudo isso parece ser realmente desencorajador, parece mesmo, de verdade, mas até que eu tenho curtido — antes ficar me remoendo sozinho do que ficar por aí fazendo coisas que, no fim, só me deixarão pior. Vou silenciar os problemas internos que tenho no momento antes que outros me apareçam.

E eu sei que, hora ou outra, outros irão aparecer. Pelo menos é essa a perspectiva que tenho agora. Não estou conseguindo, ainda, enxergar grandes feitos ou grandes conquistas no âmbito sentimental. Não depois dos últimos ocorridos que, além de não resolverem o meu me, myself and i, pioraram tudo de uma forma tão linda quanto um _____________________ (espaço livre para cada um preencher com o que lhe parecer mais horrível).

Era de se imaginar que eu, sendo eu mesmo e convivendo comigo vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, há quase vinte e dois anos, deveria ser o mais apto a me conhecer. Mas nem eu tenho me reconhecido ultimamente. Apesar de conseguir — às vezes com dificuldade — vestir uma máscara de comédia quando acho necessário, é a face da tragédia que tem sempre me acompanhado on the back of my mind.

*pausa para servir outra caneca de café*

Eu sei como eu sou. Acredito que qualquer um que me conheça, nem que seja só um pouquinho de nada, ou que, ainda, já tenha lido qualquer um dos meus textos, sabe que tenho uma leve — 11 em uma escala de 1 ~ 10 — inclinação à solidão e ao sentimento-depressivo-compulsivo-louco-que-me-deixa-agoniado-e-triste. Mas é assim que sou/estou/serei. Isso por tempo indeterminado. Gostaria que isso fosse um alimento perecível com data de validade, de preferência igual à data de validade do leite de saquinho que, para os desavisados, é bem curta. Já ficaria feliz se esse sentimento tivesse a data de validade de qualquer produto da cesta básica, desde que tivesse, pelo menos, uma data limite de consumo, uma data em que, quando chegasse, seria diretamente destinado ao lixo.

E toda essa melação de dia dos namorados realmente enjoa quando a gente não está namorando com ninguém. De verdade. É o primeiro dia dos namorados que passo sem ter um, desde que virei mocinho. E é um saco ver todo o romantismo alheio, começando com os botões do controle do vídeo game, passando pela falta de notícias de quem me faz falta e terminando em mim — um solteiro. Não que eu esteja com qualquer sentimento ruim dentro de mim, longe disso, mas é um sentimento apático, um sentimento de gray area (acho que já tenho capacidade de citar à mim mesmo) — mesmo que de uma forma diferente.

Eu espero que amanhã, sexta feira, eu tenha alguns momentos de alegria, mesmo que falsa ou passageira. Qualquer vislumbre de luz no fim do túnel já é um começo — mesmo que me digam “não siga a luz, maior roubada!”