Como a VR está mudando o jeito de fazer negócio no mercado B2B

E se você pudesse contar as melhores histórias e proporcionar as melhores experiências para seus mais valiosos e exigentes clientes?

Mônica Bulgari
Jul 20, 2017 · 11 min read
Foto: The Wall Street Journal

Fui uma criança nos anos 1990. Essa foi uma década com muitas particularidades e que tinha espaço para abrigar muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Uma das coisas que eu mais gostava dessa época — além das músicas, claro — eram os brinquedos. Tudo se prototipava com uma estética tão legal e moderna que não me importava muito se as tecnologias eram realmente funcionais. Eu era atraída pela sua roupagem cyberpunk e futurista. E queria ter tudo.

Kits de espionagem, mini-games, game boys, walkie-talkies, o memorável Pense Bem…tudo isso fazia com que eu pensasse comigo mesma: “uau, realmente estamos vivendo no futuro” — só fiquei na espera do hover board.

Um dia (acho que foi em 1996), eu estava na casa da minha tia e o amigo do meu primo (sim, sempre o amigo do primo) trouxe um Virtual Boy que o pai havia trazido da gringa para brincarmos e pensei comigo mesma: “uau isso aqui é muito avançado”.

Eu só tinha visto aquilo uma ou duas vezes em propagandas gringas que passavam no Cartoon Network e que o canal nem se preocupava em traduzir.

Eu fiquei fascinada. Achava que ali estava presenciando algo muito, muito grande.

Mas a grande verdade é aquele gadget me impressionou mais do que a experiência em si, que me deu uma baita dor de cabeça e passei o resto do dia com náuseas e me culpando por não conseguir aproveitar um brinquedo tão legal.

Foto: Static Gamespot

Virtual Boy, da Nintendo — o console era muito mais divertido do que seus gráficos

Eu não sei se minha forte miopia desde pequena teve a ver com a péssima experiência que eu tive, mas foi realmente frustrante ver todos aqueles meninos se divertindo pra caramba com aquele capacete que veio do futuro e eu tentando lutar contra o forte enjôo que apareceu logo no primeiro minuto.

Lembro-me do momento exato da frustração que senti quando vi a tela. Não era nada como eu imaginava. Onde está a sensação de estar em outro mundo? A tela era bicolor, 2D, enfim… eu definitivamente não havia curtido a experiência, o que acabou me tornando um pouco cética em relação a essa tecnologia.

Foto: Giphy

Essa era a tela do Innsmouth no Yakata, um dos jogos em primeira pessoa do Virtual Boy — o que pode vir a ser a origem da labirintite de vários millennials no futuro.

Quase 20 anos depois, em 2015, quando eu estava na Unicamp e morava em um coworking com outros computeiros, tive minha segunda experiência com óculos VR.

O Helder Ribeiro comprou um Oculus Rift e nos chamou para testar algumas demos. Eu confesso que minhas expectativas eram bem baixas e eu não esperava me impressionar com nada.

Mas claro, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se as tecnologias e as expectativas.

Fizemos rounds de experimentos com diferentes demos: o primeiro, bem básico, era um rolê de uma mini-montanha russa por um quarto; outro, mais interativo, um jogo de para-quedas que o usuário podia controlar a direção da queda pelos controles; e por último, e o mais esperado por mim, uma experiência de estar em uma roda com zumbis. Sou um pouco obcecada por zumbis e estava esperando aquilo.

Fiquei impressionada desde o primeiro momento. Aquilo me afetou de uma forma muito profunda. Levava alguns segundos para assimilar a realidade quando eu tirava o óculos. A experiência da demo com zumbis me impactou. Estar imersa em uma realidade de zumbis é muito diferente do que apenas assistir Walking Dead de uma TV, não importa quão grande ela seja.

A experiência foi intensa e não terminava com o simples fechar dos olhos.

Naquele momento me dei conta da grandeza daquela tecnologia. Não se tratava apenas de uma projeção próxima de seus olhos. O modo como as lentes são projetadas e a história, contada, te colocam em uma imersão difícil de se explicar para quem nunca teve a chance de testar esses óculos.

Naquele dia me senti como a plateia de “A chegada no trem da estação”, o filme dos irmãos Lumiére, que foi o primeiro a ser exibido em uma tela de cinema. Relatos dizem que algumas pessoas saíram correndo no local achando que o trem fosse realmente sair da tela. Bem, naquele momento eu devo ter sentido algo muito próximo do que essas pessoas sentiram.

Minha terceira experiência com realidade virtual foi ano passado, na sede do Facebook Brasil, em São Paulo, onde eu havia ido para uma reunião com a equipe de Política. No meio do escritório havia um Oculus Rift e que fomos convidados a experimentar.

Eu não entendia muito bem por que o Oculus tinha tanta atenção no meio do escritório. Achava que era apenas um meio de entretenimento, assim como os video games e mesas de sinuca.

No início deste ano, as coisas fizeram mais sentido ao ficamos sabendo que Zuckeberg investiu cerca de U$3 bi na compra da Oculus, U$1bi a mais do que havia sido divulgado à época da compra, em 2014.

Mas o que estes óculos oferecem de tão valioso para a maior empresa de marketing (sim, o Facebook é, entre outras coisas, uma empresa de marketing) do mundo?

Foto: Geek.com

Zuckeberg no anúncio da compra da Oculus

De aparato do futuro à gadget cotidiano

Se para mim, que trabalho com tecnologia, estudava em um dos maiores pólos de tecnologia do Brasil e vivia cercada de cientistas da computação, o óculos VR foi uma novidade impressionante, não é de se surpreender que o grande público ainda encare essa tecnologia como algo muito distante de sua realidade.

É claro que os óculos VR surgiram a princípio como recurso para games, entretenimento e artes digitais.

Mas isso era no começo. Hoje, graças à combinação de aplicativos e uma estrutura simples de papelão, todos podem ter acesso à experiência da realidade virtual.

Foto:Cultofandroid

O Google Cardboard custa menos de U$20.

Quase metade da população mundial possui e utiliza smartphones diariamente. Pode-se dizer que é o gadget mais presente na vida das pessoas hoje em dia.

Ao possibilitar que a realidade virtual seja experienciada por qualquer pessoa que possua um smartphone, a distância entre a noção de um mundo virtual e usuários que nunca ouviram falar desse conceito diminuem.

A realidade virtual não se limita à experiência do óculos e pode ser aplicada em diferentes tipos. Aqui, dest trago os principais:

  1. FIlme e/ou Imagens 360 — Tem uma história predeterminada ou função que permite ao o usuário estar no espaço virtual mas com pouco ou nenhum controle sobre o que acontece.

2. Cinemática — Geralmente trata-se de um vídeo de alta qualidade, 360°- 3D com som ambiente e possibilidade de interação com elementos .

3. VR Híbrida — É também chamada de Realidade Mista (RM), é a mistura de mundos reais e virtuais para produzir novos ambientes e visualizações.

4. The Virtual Reality Experience “A Experiência da Realidade Virtual” (VRE/ VRX) — VR Híbrida em tempo real. É um mix de realidade e realidade virtual que engloba realidade aumentada e virtualidade aumentada. Eventualmente a tecnologia vai se tornar menor e mais rápida. Estamos quase lá!


Mas por que a VR vai afetar diretamente o mercado B2B?

Foto: thisisinsider

Na série Westworld, Robert Ford, personagem vivido por Anthony Hopkins, é o dono de um parque temático cujo produto são experiências reais produzidas em um cenário de mentira.

Trata-se do poder de contar histórias.

Basta abrir seu Instagram ou Facebook e você terá acesso a zilhões de histórias diferentes, contadas por vários pontos de vista, pela tela do seu celular.

“Histórias nos definem como seres humanos. Elas provocam conexões” Future Lighthouse, uma empresa que produz conteúdo VR.

Agora, vamos nos lembrar de algumas características dos negócios B2B:

  • Ciclo maior de decisão de compra
  • Número maior de decisores
  • Relacionamentos que duram mais
  • É preciso estabelecer confiança antes da compra
  • Não há compras impulsivas
  • Decisões complexas
  • Mandamento nº 1: “Try before you buy it” (teste antes de comprar)

Em um terreno tão exigente como o de negócios B2B, por que não investir em uma experiência extremamente rica em detalhes para quem precisa de fortes argumentos para tomar uma decisão?

O site Miramar compactou muito bem as razões pelas quais a VR é uma excelente ferramenta para atrair clientes. São os três “Is”:

  1. Imersão — Um usuário utilizando o equipamento é completamente imerso no conteúdo, com poucas distrações, e atenção completa na mensagem.
  2. Impacto — A experiência do VR gera emoções mais fortes do que a mídia tradicional, e a lembrança da experiência fica na memória por mais tempo.
  3. Inovação — O alto interesse da mídia e do público significam que early adopters dessa tecnologia podem se beneficiar dessa exposição.

A VR fornece uma experiência única e inesquecível para cada prospect. Do que você se lembraria mais, de um vídeo na timeline de seu Facebook ou de uma experiência com um Oculus?

Foto: Business Insider

Acima, a apresentação de uma nova narrativa em Westworld. Em que você investiria para proporcionar ao seu cliente as experiências mais vívidas e inesquecíveis de sua vida?

As marcas estão procurando cada vez mais por meios imersivos de atingir seus públicos.

As multinacionais estão encabeçando os cases de sucesso do uso da tecnologia VR para negócios B2B. A General Eletric marcou o lançamento do centro de pesquisa no Brasil em 2014 com uma instalação VR. Os visitantes conseguiam ver como é estar em uma fábrica submarina do conforto de uma cadeira.

Outro case interessante é a parceria entre o governo Neozelandês e a Samsung pra usar VR em feiras de negócios e atrair compradores da agricultura do país:

A gerente de marketing regional da Nova Zelândia na Ásia, Lauren Bartlett, virou uma defensora apaixonada da tecnologia VR:

“Para nós, a realidade virtual é quase mais efetiva em B2B do que B2C. Por se tratar de uma experiência única e pessoal, é ideal para audiências pequenas. No momento, nós estamos usando VR em nossos próprios eventos — depois que assistem o vídeo, oferecemos uma taça de vinho das vinícolas que usuário acabou de “visitar” virtualmente e o apresentamos diretamente ao fornecedor”.

Imagem do conteúdo apresentado nos vídeos em VR do governo da Nova Zelândia

No Brasil, pequenos empreendedores também estão investindo na pegada de VR para B2B.

Eu bati um papo com o Felipe Montejano, da Virtual Home, uma empresa de Campinas (SP) que oferece produções visuais imersivas e interativas, passeios virtuais em 3D e também através de fotografias e vídeos 360° que podem conter diversos tipos de interatividade.

A empresa existe desde fevereiro deste ano e nasceu com a ideia de oferecer às empresas soluções diferenciadas em um momento de crise, em que meios tradicionais não representam grandes vantagens competitivas.

O foco da empresa por enquanto é o da construção civil, como arquitetos e construtoras, mas são abertos a realizar trabalhos para empresas quando surgem oportunidades.

Quando perguntei do uso da tecnologia VR para o mercado B2B, Felipe me disse que a aplicação da VR se expande de treinamentos e atração de investidores.

“Imagine um empreendimento hoteleiro, onde se busca investidores para a compra de suítes, mas este hotel ficará pronto em alguns anos. O uso da realidade virtual pode ser um atrativo e um grande influenciador na decisão do possível investidor, pois ele poderá passear pelas instalações do hotel (quartos, restaurantes, área comum, área corporativa, etc), assim, tendo uma visualização mais clara do projeto. Costumamos dizer que essa é a “realidade antes do concreto”.

E também destacou a economia que o VR pode trazer na elaboração de projetos e protótipos:

“Muitas vezes, também, o uso desta tecnologia pode reduzir custos, pois as empresas podem gastar rios de dinheiro com coisas tradicionais, como com visitas, mão de obra, reparos, logística e outras formas de recursos, quando que com um projeto em realidade virtual, seja ele 3D ou através de fotografia ou vídeo, as necessidades podem ser supridas, não sendo necessário a presença física, ou seja, com um óculos de realidade virtual”

Foto: Virtual Home

A equipe da Virtual Home: Felipe Montejano (esquerda), Rodrigo Colobiale (centro) e Leandro Colobiale (direita).

Nesse link embaixo dá pra conferir um protótipo que a galera da Virtual Home mostrou para um escritório de arquitetura:


Novos formatos, novas interfaces, novos jeitos de impactar clientes

A criação do conteúdo em um novo formato é sem dúvida o maior desafio dessa nova empreitada. Serão cenários, narrativas, mundos e diferentes personagens para conceber. As mídias sociais já se configuram em uma arena de competição para ver qual marca conta a melhor história, e isso irá se ampliar no terreno da realidade virtual.

Se você tem um negócio B2B, vale a pena se antecipar e ficar de olho nessa tendência!



Muitos agradecimentos à equipe da Virtual Home, que gentilmente respondeu minhas dúvidas para este artigo, ao Helder Ribeiro por proporcionar minha primeira experiência de VR e ao Willian Sertório pela sugestão do tema e pela troca de referências.


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Mônica Bulgari

Written by

Strategist | Journalist | Social Scientist