São Paulo — parte 01 “ Faça um mendigo feliz e o incidente no elevador”

Mundo novo. Novos ares, muito concreto e pouca solidariedade. Muitas novidades, muita gripe. Bactéria de cidade grande é diferente de bactéria caipira, muitas gripes hão de vir até eu me acostumar com toda essa novidade.

Sinto que faço parte, pulso junto com o coração da selva de pedra e concreto, fria, que chora todas as tardes, atrapalhando trânsito, planos e violões. Para cortar caminho a minhoca de metal ajuda, mas lá a gente se sente dentro de uma Micareta aquele monte de gente suada praticamente dançando “todo mundo pro lado de cá, todo mundo pro lado de lá” e não tente sair do fluxo que é pior. Nas ruas pessoas ao chão fazem parte da paisagem, ninguém liga, ninguém faz nada.

Aqui ninguém te conhece pelo nome e são necessárias muitas piadas insólitas para conseguir tirar um mínimo sorriso de qualquer balconista. Ser simpático estou vendo que é coisa de caipira, ou está fora de moda e ninguém me avisou. Estou ganhando histórias para adicionar ao meu livro da vida e aqui vou compartilhar duas para o seu entretenimento.

A BIZARRA
Fui fazer mini compras no mercado perto de casa mas acabei me empolgando, compra cerveja, compra amendoim, compra copos, só faltou a carne e o carvão e o churrasco estava pronto. Enfim, não conseguiria carregar tudo, tendo eu, somente duas mãos. Se uma leva de deuses hindus e seus vários braços estivessem comigo até quebrava um galho, mas nos mantendo a realidade das coisas, estava somente eu e minhas 2 mãos para mais de 10 sacolas. Os funcionários do mercado disseram que não poderiam me ajudar a carregar tudo até o quarteirão de baixo, onde se encontra meu apartamento, sendo assim, levei o carrinho do supermercado comigo. A via sacra foi tenebrosa, mas no final deu tudo certo.

Rua Japurá, no centro de São Paulo onde tudo aconteceu

Levando o carrinho de volta um mendigo me grita alucinado, “moça, me da o carrinho! Por favor, me da o carrinho!” Poxa, depois de tanto desdém do mercadinho, por que não fazer de hoje o dia “Faça um mendigo feliz”. Não pensei duas vezes, dei o carrinho pra ele e voltei pro meu apartamento pra tocar um pouco de violão e ler mais sobre o Lobão.

A ENGRAÇADA
Primeira semana da caipira na capital, não sabia andar de metrô, não sabia andar de ônibus e tinha medo de andar na rua, mas isso não é nada comparado ao que aconteceu em plena segunda feira pós reveillon.

Você que já assistiu Resident Evil se lembra daquela cena logo no começo do filme em que o elevador pára. Pessoal aflito tem a boa ideia de tentar sair pela brechinha onde aquela pobre moça enfia a cabeça para ser decepada depois?!

Pois é, isso aconteceu comigo, tirando a parte do vírus, do programa de computador assassino e a perda da cabeça…a cabeça é avoada mesmo, mas ainda ta aqui.

Sim, São Paulo, segunda feira, 03 de janeiro de 2011, 9 e 15 da manha, horário de Brasília, fui fazer a bondade de acompanhar um amigo que estava procurando um apartamento novo para alugar, no centro de São Paulo, nesse magnifico dia que já tinha começado com chuva.

Não lembro mais o prédio..mas era por aqui

O apartamento era no ultimo andar do prédio e o elevador, como você pode imaginar, era da época que minha avó ainda tinha dentes de leite. Subimos, o apartamento era enorme e, bem legal por sinal: dois quartos, uma sala enorme e ainda era barato (logo mais eu descobriria porque ele era tão barato). Descemos para esperar os outros meninos que iriam se mudar também. Subimos pela segunda vez, isso nem sei muito bem porque. Primeiro nós dois e depois o restante, porque o elevador só suportava 4 pessoas. Acontece então algo que eu nunca imaginei que fosse acontecer comigo, a porra do elevador parou entre dois andares.

Ele estava entre o 3 e o 4 andar ( de novo a pegadinha do Resident Evil) e tinha subido o bastante pra ficar difícil de sair caso fosse necessário pular. Sem contar o risco de cair no foço, mas pra que pensar negativo né, o elevador pode subir enquanto eu estou saindo mesmo ou simplesmente despencar. Tranquilo. Vamos apertar o botão de emergência. CADE O BOTAO? Não tem botão, pensa cabeça… o elevador é de 1880 e eu querendo botão de emergência. Santo celular, tire-me dessa cilada.

O zelador vem, um homem moreno, baixo, já com seus 60 anos e com vestígios de catarata- definitivamente uma pessoa que transpira confiança não é? — ele abre a porta e para nosso conforto diz “ Vixe, subiu muito em…acho q oceis vao te que pulá!” “mas não vai subir?” “sobe nada, enquanto a porta ta aberta não sobe” “mas também não era pra parar neh?!” “eh…(segundos de silencio)..mas pode pular que não sobe não”. Ta certo, coragem né.

Meu amigo como todo grande cavalheiro, saiu antes… SAIU ANTES! hahahhaha se alguém tivesse que morrer que fosse eu né, eu falo que as pessoas são egoístas e ninguém acredita… enfim.. depois de muito tempo engolindo seco, consigo sair do elevador sem danos maiores, com a ajuda de uma escada evitando assim que infortúnios maiores acontecessem.

A cara de pastel do zelador não tinha preço e depois do Michael Jackson, foi o único negro que eu vi ficar branco na vida.

Duas notas para você levar consigo das primeiras aventuras…

1) não faça uma mega compra no mercadinho perto da sua casa e caso isso aconteça e no caminho de volta você se deparar com um mendigo, dê o carrinho para ele ou ele corre atrás de você.

2) se o elevador parar e você estiver com alguém e essa pessoa quiser sair primeiro, pega no emocional, diga para a pessoa, “deixa eu sair antes cara, assim te pego na hora que você for sair, pra você não cair no foço”, dessa maneira você não perde sua amizade e pode garantir seu affair.

E viva a cidade grande e sua eterna chuva de Janeiro.
(14/01/2011)

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