Arte para crianças curiosas

Quando eu era criança, minhas opções de diversão eram limitadas: não tínhamos TV a cabo e só podíamos brincar na rua acompanhados de algum adulto. Meus pais não completaram a escola. Eles nasceram no interior, onde trabalhar e conseguir dinheiro para a família era prioridade. Estudar ficava em segundo plano. Meu pai mal sabe ler. Então, a leitura que me era incentivada era apenas voltada ao aprendizado escolar. Eles não conheciam a leitura como um passatempo. Lembro que o primeiro livro que eu ganhei se chamava A Fonte Secreta, presente de aniversário dado pela minha dinda. Era a história de uma menina que seguia uma família que tinha o poder da vida eterna, adquirido após beber água em uma fonte. Até hoje devo saber de cor as frases daquele livro, de tantas vezes que li. Como era o único livro que eu tinha, sempre que me batia um tédio eu corria pra ele.

Felizmente, minha escola tinha uma biblioteca bem boa, que era uma possibilidade de ter acesso aos livros sem gastar nada. Então, eu estava sempre atrás de um livro novo para saciar a curiosidade. Comecei lendo aquelas séries de aventura famosas dos anos 90, como O Escaravelho do Diabo e A Droga da Obediência (impossível não atrair qualquer pré-adolescente curioso com títulos como esses). Li toda a coleção Vaga-Lume, clássicos do Ziraldo, como O Menino Maluquinho, e muitos títulos da Agatha Christie. Eu realmente amava histórias de mistério e aventura. Até que chegou a saga do Harry Potter. O primeiro livro foi emprestado pela minha melhor amiga e foi um grande amor desde o início. Aquela história tinha tudo que eu amava: mistério, suspense, criaturas mágicas. E, numa coincidência aleatória, eu tinha a mesma idade do Harry: 11 anos. A partir disso, todo ano era a mesma coisa: esperar o livro lançar, implorar pros meus pais comprarem ou conseguir emprestado com alguém, e passar as férias inteiras lendo e relendo a história. A cada ano e a cada livro novo, Harry ia ficando mais velho, e eu acompanhando a idade dele. Sou um exemplo muito clichê da geração HP, que explica a relação emocional que a maioria de nós criou com a história.

Em paralelo, minha relação com a leitura foi mudando. Comecei a me interessar mais por romances e histórias mais dramáticas. Eu lia todas as recomendações da aula de literatura, livros clássicos, incluindo Senhora, O Cortiço e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Não que eu adorasse esse tipo de literatura, só era nerd mesmo. E, para compensar as histórias rebuscadas, lia romancinhos adolescentes que, muitas vezes, tinha vergonha e pegava escondido na biblioteca.

Cheguei na faculdade e, entre obrigações acadêmicas e trabalhar oito horas, o tempo para ler foi diminuindo. Foi nesse período que meu interesse por cinema cresceu. Além de ter aulas sobre o assunto, a possibilidade de acesso também aumentou. Comecei a trabalhar mais e ter dinheiro pra ir ao cinema de vez quando, passei a circular com mais frequência pela região central da cidade (onde os cinemas são mais baratos e filmes não tão blockbusters estão em cartaz) e aprendi a piratear na internet (claro!). Essas mudanças me deram mais possibilidades de conhecer diretores, filmes e novas perspectivas. Passei a gostar muito dessa arte, e até estudar e ler sobre ela.

Conforme fui tendo experiências novas, conhecendo pessoas, lugares e visões de mundo, passei a gostar de pinturas e artes plásticas também. Viajei por alguns lugares e fui conhecendo museus e observando a importância da arte para construir a história das pessoas em certas épocas, para retratar visualmente o espírito de um tempo. Esse interesse com certeza tem a ver com a minha maturidade com o passar do tempo e com o interesse, cada vez maior, que eu tenho na subjetividade humana. Mas também relaciono a aproximação das artes com o aumento da minha renda, que me possibilitou viajar para lugares diferentes e conhecer museus, novos artistas e novas maneiras de produzir arte.

Hoje em dia eu amo muito arte em geral. Amo conhecer e saber histórias novas, sejam elas por meio da literatura, cinema ou pintura. Tudo isso é uma relação muito pessoal minha e eu acredito que tenha a ver com algo que existe dentro de mim, uma curiosidade ou algo do tipo. Mas ela só ocorreu porque eu tive acesso. Toda essa trajetória só foi possível porque eu tive um meio de consumir arte. É um enorme privilégio uma criança ter acesso livre a uma biblioteca boa, com títulos diversos. E, talvez, se eu não tivesse lido todos aqueles livros de aventura na infância, hoje eu não me interessasse por outros tipos de arte.

E é impossível não conectar o acesso à arte ao dinheiro. Minha escola era particular, então ela tinha condições de ter uma boa biblioteca. Eu só consegui evoluir o meu interesse para o cinema quando tive independência financeira e consegui frequentar sessões de cinema. É claro que hoje em dia a internet ajuda e muito, e a pirataria realmente me ajudou, mas eu também precisei descobrir que esses filmes existiam. Precisei ir em salas de cinema da região central da cidade para ver os cartazes de filmes. Precisei conviver com outras pessoas que falavam sobre isso. Eu tinha vergonha de dizer que eu não tinha ideia de quem era Tarantino quando os meus colegas falavam sobre isso. Mas, foi ouvindo deles que eu descobri que o diretor existia.

Sempre questiono isso quando vejo comentários do tipo: “os brasileiros não leem” ou “as pessoas não vão em museus”. Mas que incentivo elas têm para isso? Eu tive que percorrer um longo caminho para aprender a gostar de ir em museus e tudo isso porque eu tive acesso. Chega a ser ingênuo pensar que alguém que nunca teve a possibilidade de entender o que a arte significa vai começar a consumir ela de uma hora para a outra. E imagina quanta gente com um potencial de produção artística se perde aí no meio, por não ter possibilidades de colocar isso pra fora.

Eu acredito muito no poder da arte. Acredito que o que nos torna mais humanos, como nossa subjetividade, sentimentos e impermanência, está muito relacionado com essa maneira de se expressar. E que vamos poder evoluir muito como humanidade quando tivermos acesso a todas essas expressões.