Entidade Identidade

Entidade Identidade

Eu havia acordado aquela manhã com muita saudade de cheirar pó. Uma balinha, um docinho, um Sonrisal com uma garrafa de cachaça, um Doril com Benflogin que fosse para aliviar a minha preguiça e a sensação de inutilidade. Fui até a geladeira e comi uma fruta cítrica, mesmo sentido meu aparelho gástrico ser moído por dentro como uma cana de açúcar. 
Foi um nano-suicídio na minha rotina diária. Sentei na cadeira com a barriga estufada e a minha mediocridade rotineira me fez imitar o Jô Soares, mas até as costas doíam. 
Eu senti saudade de um momento muito específico na minha vida que me marcou de uma maneira profunda. Eu sentada na minha cama, uma carreira na escrivaninha, uma tigela de pipoca no colo com o fundo meio queimado, a cabeça pesando 100 quilos e lá fora eu ouvia uma vizinha “JORGINHO ME EMPRESTA A 12 PARA ME FAZER UM BARULHO… VOU MATAR ESSE MACONHEIRO”, eu tentava rir mas não conseguia, os músculos do rosto nem se moviam,mas eu queria muito rir da música (eu sei que ela é agora conhecida, mas foi a primeira vez que eu ouvi aqueles versos). Só consegui falar “Que genial, que genial”. De repente eu olhei para a tela do notebook e senti um calafrio na espinha. Eu havia colocado o “Despertar da Besta” para assistir”, meu corpo todo ficou gelado ao ver o rosto do Zé do Caixão, como eu tinha (e tenho) medo daquele filme. Ih caralho bateu uma onda péssima! Eu comecei a chorar de medo do filme. Não, naquele momento eu não conseguia raciocinar que era só fechar o notebook ou parar o filme, ou até mesmo fechar os olhos e sair do quarto. Era como se o filme estivesse me prendendo ali. Eu apenas deitei na cama, abracei os meus joelhos e finalmente descobri como fechava os olhos.
Naquele dia eu aprendi muito sobre a miserabilidade do animal humano e o poder da farinha do Parque União. 
Anos mais tarde eu acordaria com saudade da cocaína, e agora refletindo bem isso não faz de mim muito diferente de um cachorro que come o seu próprio vômito. Sentei na cadeira com muita dor de estômago, fruto desses dias de perdição e heterossexualismo fajuto, abri uma página de rede social (aqui eu não quero falar Facebook porque acho óbvio e deselegante) e alguém mencionava o nome de uma pessoa escrota. Como eu queria faltar no trabalho e estava fudida de dor, pensei “Cada pontada no meu estômago vai ser descontada nesse miserável porque ele merece” (E como merece!) De repente aquele desequilíbrio e falta de escrúpulos deliciosamente tomou conta de mim e eu decidi ir cutucar a onça que nasceu leão e quer comer a todas nós com sua cobra anencéfala. Algumas horas mais tarde moças desconhecidas começaram o contra ataque. Todo aquele auê “Como alguém pode ofender outro alguém assim?” Óbvio, eu fui lá ser gratuitamente escrota só porque o cara não presta e estava enchendo o saco de um amigo meu, então o movimento seguinte é as amigas do cara virem me ofender. Nada novo sob o sol, eu não tinha nada para fazer e isso já era o esperado. Aqui acaba toda a parte baseada em fatos reais dessa história e começa a su-realística.
Sentei-me em frente ao computador 
(sentei-me hahaha! não vou escrever assim não. desculpa!)
Eu saí durante aquela tarde chuvosa (aqui vocês me imaginem com um gorro vermelho, bem garota moderna, porém com ar de imbecil europeia. vocês sabem que eu estou falando da Amélie Poulain) e caminhei até a universidade. Nada no tempo ou na história parecia se adequar a minha figura. Um cachorro comia os restos mortais de um rato na esquina e aquilo me assustou um pouco. Havia sangue, lixo e entranhas de um animal podre.
Nada daquilo me fazia sentir feliz ou mais confortável diante daquela dor que eu sentia no estômago e minha falta de vontade de assistir aula. Ao chegar a faculdade eu não conseguia reparar nas pessoas e nem ouvi-las. A imagem do cachorro comendo o rato ocupava bastante espaço na minha cabeça. Todos a minha volta pareciam apenas fantasmas. O vento levantou a minha saia e eu tentava disfarçar a vergonha. Caminhei por alguns minutos dentro do campus. Até encontrar Ester, a garota com quem eu tinha transado na noite anterior. Ela não parecia muito simpática e trazia um cartaz nas mãos.
-Como você pôde fazer isso?
Essa pergunta sempre me intriga. Por que as pessoas a fazem? “Como você pôde fazer isso?” Na verdade as pessoas querem ouvir “Eu não fiz. Aqui a prova, eu não fiz nada disso” As pessoas fazem coisas más porque elas podem. Como elas podem fazer não interessa. Mas voltando a Ester, aquela pele macia com dois olhos negros enormes e a voz sempre em tom autoritário me entorpeciam. Eu realmente me senti péssima por não conseguir prestar atenção aos xingamentos. Eu não iria conseguir levar a garota a sério e isso me fazia sentir como um homem, o que é péssimo. Então decidi caminhar para longe dela, algumas pessoas sussurravam coisas sobre mim nos corredores e o cheiro da marola me enjoava. Esse nome “marola” me lembrava Maria-mole, então resolvi ir até o quiosque da “tia”.
-Tia me vê essa Maria-mole rosa.
-O que?
-A rosa.
-Tem tudo o mesmo gosto.
-Não, não tem.
-Quer um cigarro também?
- Sim, acho que está na minha lista de drogas. Me vê um maço então.
-O que?
-Um maço.
Sem querer eu havia revelado aquela senhora que eu fazia uma lista de drogas, como uma lista de compras normal, mas só de drogas incluindo cigarro e álcool.
Será que ela chamaria a polícia? “Acho que não, a tia poderia facilmente ser uma traficante da pesada. Ninguém ia desconfiar dela ou iria porque ela poderia facilmente ser uma suspeita improvável demais para não ser culpada e já fizeram um filme sobre isso, velhinhas que são bandidas. Acho que a polícia se baseia muito em filmes.”
Foi nesse momento que os mesmos pensamentos foram interrompidos por alguém gritando “TERF”
Eu não tive muito tempo para raciocinar, aquela bomba loura, magrela, e com voz de soprano veio direto pra cima de mim.
-VOCÊ! Toma cuidado! Sua fascista! Como assim você diz uma coisa dessas sobre uma pessoa muito boa? Nem tudo que se faz na internet fica na internet, viu?
Naquela hora eu não me senti incomodada, uma mosca teria maior impacto. A patricinha loura era a Nina Justiça, que com certeza estava pensando em fazer justiça com as próprias mãos. Levantei da cadeira e fui para a sala de aula, a tia ria da gente dizendo “Ah essas meninas!” 
Cheguei à sala de aula e senti um comichão na língua, meu corpo parecia um pouco gelado também. De repente olhei para a lousa e a Nina estava parada ao lado dela. Na lousa haviam escrito em vermelho “TERF”. Achei que eu poderia desmaiar. O meu corpo estava muito gelado. A minha mão foi direto para a cintura, os meus ombros reclinaram para trás como se delicadamente meu cabelo fosse repuxado e eu soltei uma risada estrondosa que calou a todos naquela sala. Peguei um cigarro e acendi, sob protestos de uns alunos caretas que estavam perto de mim. Protestos estes que ignorei… Eu ignorei? Não eu, mas a Pomba-Gira Menina. O meu corpo foi tomado por aquela força indescritível e a eu me dirigi aquela figura pálida parada em ridícula posição de confronto frente à lousa e beijei-lhe os lábios. Ela tinha lágrima nos olhos, mas eu não poderia prestar atenção naquele momento. O meu corpo era todo dela, da minha rainha. Sentei na mesa do professor de pernas cruzadas cigarro em riste, o corpo meio que rebolando, quase caindo, e pedi uma bebida.

A frágil lourinha tentou protestar ainda, mas as pessoas estavam atordoadas pelo meu comportamento e algumas delas conseguiram mais facilmente identificar que não era mais eu, mas era ela. Enquanto eu de olhos fechados ria e delirava, eles tinham que lidar com ela e sua superioridade à moral.

-Ela está fingindo?- perguntou um dos acéfalos.

- Não man, eu acho que ela está incorporando mesmo. -respondeu um ´Zé droguinha qualquer.

E ali no meio daquela confusão a Nina branquela já estava vermelha.

-É o seguinte, gente, essa garota não vai fugir à responsabilidade, não. Eu vou ler a carta de repúdio. — Quanto mais ela lia mais a Pomba Gira Menina ria. Até que uma das pessoas falou:

-Mas isso que a Nina está fazendo é racismo?

Nesse momento eu apenas senti o meu corpo bater na mesa, a rainha tinha deitado às gargalhadas.

-EU QUERO MINHA CACHAÇA!- gritou ela ( ou eu).

-Mas o que ela fez é transfobia.- ficaram nisso por um tempo enquanto eu levantava e girava pela sala, cantando o ponto da Menina. Alguém tentava me manter em segurança enquanto eu derrubava todas as cadeiras girando e cantando. Quando outro imbecil sugeriu:

-Chama alguém do movimento negro para decidir se o que ela fez é transfobia ou se o racismo nesse caso é mais periclitante.

Nesse momento eu já suava frio, caí no chão, revirava os olhos e falava em iorubá. O tal mano do movimento negro da universidade chegou para avaliar a situação, mas não pôde ajudar muito quanto a incorporação, e foi atrás de um pai de santo. Agora a situação já se arrastava por 40 minutos, após terem tentado ler uma nota de repúdio para uma entidade, que só queria cachaça. Alguns crentes chamaram o segurança do campus, o diretor do curso soube do ocorrido, até que um pastor e o pai de santo chegaram ao mesmo tempo. Os estudantes do movimento olharam para o pastor e os crentes e começaram uma discussão, enquanto a Nina segurava a nota de repúdio nas mãos ainda na esperança de ler para toda a turma. Mas a cachaça ninguém trazia. O pastor havia vencido o debate e se ajoelhou próximo ao meu corpo para “expulsar o demônio”, enquanto eu repetia.

-Eu quero ela, eu quero o corpo dela!

O movimento negro conseguiu fazer com que ele fosse expulso da sala e o pai de santo se aproximou, disse algumas palavras no meu ouvido e me benzeu com algumas folhas. Quando eu parecia acalmar Nina, que estava já cansada, sentada em uma cadeira resolveu ler a nota de repúdio. Aí eu comecei a incorporar novamente. Até que Nina revoltada resolver se levantar e expor ao pai de santo o que estava acontecendo.

-Eu não vou aceitar isso. Ela tem que pagar pelo que ela fez, independente de estar incorporada ou não.

-Eu compreendo, filha. Além do que ela está incorporando fora do terreiro e isso é perigoso.- disse o pai de santo ao que Nina sorriu dócil e acolhida por tamanha compreensão.- Mas o que exatamente ela fez filha?

-Ela chamou a minha amiga Betty de João Miranda, Pai.

O Pai de Santo olhou para as pessoas em busca de uma resposta. Não conseguia compreender exatamente.

-Isso mesmo, Pai. Não é um absurdo? Ela não respeitar a identidade…

-Eu não consegui entender. Entidade?

-A minha amiga Betty nasceu João e ela chamou ela de João, Pai.

-Ah! Tudo bem, filha. Eu vou indo. O meu problema aqui não é com Betty ou João, mas meu assunto é com a entidade, que aparentemente já foi embora.

Nesse momento alguém me dava um copo com água e eu recobrava os sentidos.

-Se não se importa eu preciso de um lugar privado para conversar com sua amiga a sós.

Nina sentou exausta e decepcionada na cadeira. Eu pude ouvir seu quadril magro estalar e saí da sala ainda meio perdida, sem entender nada que havia acontecido. Me levaram para a sala do movimento negro e o Pai de Santo me aconselhava com relação a incorporação e deixou seu cartão comigo. Logo após a sua saída, a incansável Nina entrou na sala, parou em frente a mim e começou a ler a sua carta, que começava com a palavra “fascista”. Atrás de mim um cartaz enorme com uma foto da Angela Davis, à minha frente o futuro da justiça social, uma garota que não consegue ver uma mulher negra como um ser humano (e é muito chata). Toda a minha miserável existência se resumia aquele momento. Deve ser por isso que eu bebo.

FIM!