Existia o gênero no meio do caminho, no meio do caminho existia o gênero…
O que eu posso falar sobre quebra de esteriótipos de gênero? Eu sou uma mulher que a maior parte da minha vida fui considerada esteticamente feminina, exceto por dois anos sabáticos de feminilidade estética que vivi logo após sair do armário. Uma questão ronda a minha cabeça, para a qual eu tenho muitas respostas. Onde eu rompi com o gênero que me foi imposto? Mas a investigação é sempre e cada vez mais profunda. Não é como se eu não soubesse nada, é que toda vez que analiso a minha infância e formação surgem respostas novas.
Eu tenho um laço muito grande com a “Monique” criança. Eu precisei crescer para salvar ela, porque outra pessoa não o poderia fazer melhor que eu mesma. O que a pequena Monique queria ser? Contra o que ela estava lutando? Eu sempre lembro de chegar no quarto, sentar na cama, cruzar as perninhas, colocar as mãos cruzadas sobre o colo, depois fingir que estava fumando um cigarro usando uma caneta. Eu via todos aqueles homens na televisão em programas, em horários impróprios para eu estar acordada, eles falavam e falavam… e falavam de novo. (Na minha época se podia fumar na televisão em programas mais culturais). Eu pensava “Eu quero ser isso”, ainda que eu não soubesse direito qual era a profissão do cara. Eu queria viver, viajar e escrever tudo em um livro, escrever teorias sobre as coisas, ir na tv, vestir aquela cara de desdém, me sentindo tão importante a ponto de falar sobre qualquer coisa que eu achasse que deveria falar. Aí eu descobri o Machado de Assis, Érico Veríssimo, Ferreira Goulart, no meio alguns livros infanto-juvenis. Eu realmente li esses caras muito cedo. Você sabe o nome que as pessoas deram para o meu interesse em literatura e escrita? Obsessão. “Ela está obcecada. É muito nova para isso.”
Eu não tinha referências de mulheres, eu não lia livros de mulheres, eu já amava mulheres. Eu amava mulheres em todos os sentidos e eu amava ser mulher também. Tinha alguma coisa aqui que não se encaixava porque eu desejava ser exatamente o que os homens eram, alguém livre o suficiente para se sentir importante. Foi assim que eu descobri que acender um cigarro na televisão e falar abobrinhas com voz de mordomo inglês não era para mim. Não podia ser para mim. Eu não conhecia nenhuma mulher que fazia aquilo. As mulheres estavam fazendo outras coisas. Mas dou graças pela minha primeira paixão intelectual, a Leda Nagle. Um dia eu parei para assistir aquele programa chato, que tinha a apresentadora rouca, e essa foi a minha primeira referência que não fosse assistente de palco de biquíni dançando fora do ritmo. Era uma mulher, tinha uma voz forte, discutia assuntos importantes (que eu não entendia absolutamente nada). Depois veio a Marília Gabriela, aí eu reparei na Glória Maria também. Mas no meio caminho ainda tinha uma pedra (eu amava esse poema e ele já tinha me colocado para chorar algumas vezes), o gênero ( e o meu sexo).
O esteriótipo de gênero vai além da estética, que é uma simbologia do mesmo. Esse mesmo esteriótipo inclui a mulher como intelectualmente menos capaz. Eu cresci ouvindo que eu não ia casar, porque eu falava demais, pensava demais e era muito egoísta (adorava brincar só e fazer coisas sozinha). Como eu vou conseguir considerar a minha ideia tão importante a ponto de transcrever ela em um livro, considerar que ela merece ser publicada, se eu não for egoísta? O que é um escritor sem ego? O que é um artista sem ego se a exposição da sua própria arte é a expressão do quanto você considera as suas ideias importantes? Eu sempre lutei para ter orgulho do meu próprio intelecto. Mas ao mesmo tempo eu ouvia coisas como “Menina que faz isso Deus vira as costas” e “Se você fizer tal coisa não vai para o céu”, também “Jesus vai arrebatar todo mundo e você vai ficar porque você se acha importante demais”, que geralmente vinha depois de “Se você não casar vai morrer sozinha”. Eu estava sitiada, sequestrada, ameaçada diariamente. Era impossível eu criar autoestima intelectual o suficiente para vislumbrar um futuro onde eu me achasse tão importante a ponto de escrever um livro e publica-lo. Essa foi uma das maiores batalhas que eu travei na minha vida.
Como eu iria virar uma escritora, acender um cigarro na televisão e falar um monte de abobrinhas se desde que eu nasci falavam que eu um dia iria casar e parir? Eu pensava na minha cabeça de criança “Não vai dar tempo fazer tudo que eu quero, porque eu tenho que casar antes dos 30 e ter filho.” Para mim isso era tipo dizer “Eu vou morrer antes dos 30 anos, porque tudo que eu quero para mim mesma vai ser interrompido para eu encarnar esse papel de mãe”. Até que aos poucos, jogando água em pedra dura, eu rompi com os esteriótipos de gênero. Como? Insistindo na ideia de que eu era capaz de me intelectualizar.
A coisa mais importante, eu NUNCA acreditei naquilo que me falavam sobre eu ser uma má pessoa por pensar em mim mesma. Algumas vezes eu ainda fraquejo, mas no fundo eu sei que era tudo mentira. Ainda que eu tenha sido considerada louca, obcecada, estranha, amaldiçoada, eles não mataram o meu sonho. Isso tudo confirma que ainda hoje a maior derrota para o gênero é o pensamento de uma mulher. A maior afronta é a nossa capacidade de pensar por nós mesmas. A intelectualidade feminina precisa ser louvada. Porque essa nossa capacidade foi suplantada com o passar dos anos. O conhecimento é algo que você adquire e permanece. Eles podem tirar sua inocência, te sexualizar, te obrigarem a ter um filho que você não quer ter, mas eles não podem tirar de você aquilo que você aprende. Então, trabalhemos na transmissão do conhecimento, na tentativa de apontar um outro caminho às meninas que não seja subir em um salto alto e se sentir poderosa. Sentir-se algo qualquer pessoa pode, mas poder é algo que se toma na marra, e que está muito além das suas roupas e de frases de efeito. Poder é ter a consciência de quem você realmente é. Se intelectualizar não é nada mais do que expandir a sua própria consciência.
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