Me conheça pelas minhas pernas, que movem meus pés em direção a ser compulsoriamente sozinha. Me conheça profundamente pelas minhas mãos, que são de velha, e me lembram tudo que não conquistei. Me conheça pelos meus pélos desalinhados da cabeça aos pés. Mas me conheça primeiro pelos teus olhos, que enxergam e desnudam outras mulheres. E pela forma que você tenta me conhecer eu sei tudo sobre quem você é.

Eu estou triste, melancólica, quase não suportando o peso do meu sorriso falso, que exibo entre os meus familiares. Eu te evito, eu tento fugir e me alienar da alegria. É tão penoso não me deixar engolir pelo momento mau. Mas tudo faço como sacrificio em nome de celebrar a memória de quando fui carne e afeição. Eu não queria chorar, mas choro. Eu não queria sentir, mas sinto. Pois não quero o apagamento do que existiu em mim, e que era para você.

Eu não quero que digam, “lá vai a amiga, lá vai o capacho”. Porque eu fui amante. Então eu sou o que sou. Através da minha petulância em sofrer eu quero que você me conheça. Não te dei o corpo pra dançar em vão. Não cozinhei a comida para ter o prato cuspido. Não te devorei para ser entregue ao cargo de amiga e parceira. Eu tive sim amizade. Eu tenho. Eu terei. Mas me conheça direito, repita o meu nome. Não me enterre em algum álbum de boas lembranças junto com as memórias dos teus amigos, que um dia já dividiram a conta do bar com você. Lembre-se sempre que transamos.

Se eu sou feia, se eu sou estranha, se eu sou inútil, me conheça como eu sou. Se eu não te dei gozo, se eu sou o capeta de saias, me nomeie do que eu sou. Pois eu prefiro que entendas a beleza em cada grama de imperfeição da minha presença na sua trajetória. Se eu sou um bicho estranho e repulsivo não quero ser chamada de princesa. Eu permaneço estranha e repulsiva. Assim como prefiro a completa solidão, de quem vai morrer sendo sozinha, do que meio copo de água.

Eu não quero disfarce, máscara ou aparência. Tentei todas estas coisas na semana que passou. Eu quero um meteoro, um dinossauro, um acidente de carro, uma bala no peito, uma criança gritando no Supermercado. Eu quero conhecer as coisas como elas são e sentir a verdade batendo no meu rosto, como um vento na caatinga, forte e cortante. Eu quero a verdade pontiaguda que me deixe morta por dentro. Ainda que você diga que nunca me quis, eu quero sofrer por isso. Então, me conheça assim sendo vexame.

Deprimida, pobre, feia e sem amor. Me conheça. E quem estiver triste, que se entristeça mais ainda. Vou terminar a poesia me deitando no chão.