O barco

Antes que eu entrasse no navio, eu já estava no navio. Eu sentia o meu corpo flutuar dentro de uma caixa de metal e ouvia o ranger das portas do meu pensamento. Eu olhava o mundo por uma janela tímida e me distraia procurando formigas em suas bordas arredondadas.

Antes de entrar no navio, eu já sentia náuseas. Eu sentia que o mar me levava para longe de casa. Eu sentia saudades da terra-firme. Eu me agarrava às memórias do passado, estampadas em fotografias das pessoas que eu amava e tinha mágoa.

Antes de entrar no navio, eu sonhava com o amor da mulher amada. Eu sonhava com um destino que me levasse a andar de mãos dadas. Eu fechava os meus olhos e imaginava a grama onde estávamos sorrindo deitadas.

Antes de entrar no navio, ele já havia afundado. Antes de entrar no navio, eu já havia naufragado. O grande barco era apenas o caminho natural para o meu fracasso. Eu abandonei após haver abandonado.

Romaine Brooks, “Azalées Blanches (White Azaleas)” (1910), oil on canvas, Smithsonian American Art Museum,

M.R.B

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