O sonho

Eu deito no chão, fecho os olhos e tento imaginar que o meu corpo está mergulhado em água, tanta água, que não consigo respirar, tento abrir os olhos, mas eles ardem. Eu estou viva? Eu sou uma pessoa? Quem eu sou? O sol toca as minhas pálpebras e as costas, concluo que estou viva. Coloco a cabeça fora da água em busca do sol e sou completamente iluminada, minha cabeça explode, sinto cheio de menstruação. Abro os olhos, estou em meu quarto e o mundo é uma ofensa ao meu momento. Eu não consigo lidar com o concreto, com o objetivo e com os fatos, quem dera eu pudesse conter o destino. Quem dera eu tivesse um momento só em que eu não me indagasse “O que estou fazendo aqui?” Eu acho que essa pergunta é mais uma tentativa de implorar que me arranquem dessa limitação que é ser gente, desse quarto onde eu definho sob a opressão dos meus traumas e falta de propósito. Mas não há nada aqui dentro, não há nada lá fora que eu nunca tenha visto. Morrer é como abrir a porta da prisão onde eu me encontro e cair em um abismo. Não há solução…

“Meu Deus, não há solução!”

Não há nada mais… só eu.

“Me deixem ficar só. Pelo amor de Deus, me deixem ficar só!”

A felicidade deve ser ter certeza que se é suficiente e não estar vazia quando se encontra só. Olho as minhas mãos e elas estão sujas de sangue. Ás vezes quando eu estou nervosa ponho a mão na minha vagina ou nos meus peitos, não com alguma intenção sexual, mas apenas para ter certeza que meus órgãos ainda estão ali, se tratar de órgãos sexuais é só um detalhe. Penso “O que eu posso fazer para pôr fim a esse torpor e voltar ao trabalho?”. A vida acordada é o trabalho. Antes que eu me desperte daquele momento caio em sono profundo. Estou dentro da água e um homem com uma rede me persegue e tenta me vestir com uma calda de peixe, eu luto contra ele, eu luto tanto e me machuco até desistir de tanto lutar. Então o homem desaparece. Assim eu percebo que não havia homem, mas somente o medo do homem.

“Estou delirando, eu sou louca!”

Não, eu sinto medo. Eu estou sã. Talvez eu tenha medo da loucura, mas não haja de fato nada errado comigo. Abro os olhos, estou fora do sonho, do sonho da opressão.

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