Um texto para héteros no dia da visibilidade lésbica.

Não existe nada revolucionário na heterossexualidade, sabia? Não existe um modelo de heterossexualidade que seja realmente revolucionário para as mulheres. Inventar isso é uma palhaçada sem fim. O que acontece é que a heterossexualidade, independente de ser um fenômeno social ou característica inata pertencente a um determinado grupo de mulheres e não a outro, ela existe e é um fato.

Eu, particularmente, não tenho a menor energia, fé ou pretensão em tentar convencer mulheres héteros de que existe uma outra opção para elas, que não seja a heterossexualidade( tenho mais o que fazer e sapatão para cuidar). Eu não sou mais missionária há muito tempo (rs) e aquela voz interna da minha tataravó já me dizia “É cilada, Bino”. Se alguém estiver em processo de descoberta dessa lesbiandade, como se diz em Salvador: “Que venha!” Mas eu não vou tomar para mim esse fardo, e na verdade, deixa eu contar uma coisa para vocês: nenhuma lésbica toma isso para si quando é madura o suficiente para sacar que é cilada. Isso aí é tudo uma ilusão da cabeça de vocês que em algum momento nós estejamos mais interessadas nas vossas vidas que nas nossas próprias. Mera ilusão egoísta de quem quer curar aquele emocional machucado pelos relacionamentos sociopatas (em maior ou menor grau) com os homens das suas vidas criando uma fantasia que um grupo de mulheres, que (eu sei que sim, rá) vocês consideram mais carentes do que vocês, e inferiores estão molhadinhas por vocês. Tsc. Mas fiquem calmas, isso é só um texto, não é uma declaração de guerra. Isso aqui é um texto que se apresenta como uma tentativa de fazê-las entender, que enquanto feministas (ou não), vocês não precisam se desculpar pela forma que exercem a sexualidade de vocês ( sem ironias MESMO). Até desata melhor o nó entre nós quando vocês entendem o lugar da heterossexualidade, independente da sua gênese, e que não existe um modelo mais bonito ou que simbolize algo diferente daquilo que ela é realmente é. Um fato apenas, como a gente lida com ele podemos discutir depois.

Aquele seu namorado tatuado, aquele seu namorado calmo, aquele seu namorado irrepreensível não é um modelo melhor de homem e não as transforma em detentoras de uma sexualidade melhor que as mulheres em situação de violência absoluta. Como diria o poeta desde o “tempo que não havia cimento” até os dias do Pokemon Go um pau dentro de uma buceta é só isso mesmo. Não adianta colocar um motor ecológico em um carro e achar que por isso ele se tornou uma bicicleta. Ele pode até emitir menos CO2, mas ele continua sendo um carro, e o seu motor ecológico não muda em nada a função que um carro exerce, que é o de transportar pessoas mais rápido do que um jumento o faria. Um carro é um carro, independente de como ele se apresente. E o fato de um milionário comprar um carro ecológico não o coloca em pé de igualdade e dignidade com as minhas amigas pretas e lésbicas que pegam busão. Muda algo? Não, e duvido que diminua o CO2. O seu namorado ecomacho não muda nada também na ordem das coisas, não. (Mas vocês não são milionárias, estão mais para uma nação quebrada onde os bilionários passam fome) A heterossexualidade é isso mesmo, como ela se apresenta, e o fato do seu namorado ser legal não te põe no mesmo lugar que uma mulher lésbica, nem menos hétero que a sua avó e a sua mãe. Você não está em termos de sexualidade mais próximas de nós que as mulheres das gerações anteriores.

Agora respira, conta até 3 e decida o que vai fazer sobre isso. Porque nesse texto isso não é objeto do meu interesse. O que eu quero mostrar aqui é que ser hétero entre ciganos, haitianos, pernambucanos,hippies de boutique, rastafáris e japoneses tem o mesmo significado social. Se dentro dessas relações há violência descarada e escancarada, abuso psicológico ou uma eterna lua de mel, não muda o fato de que uma pessoa que pode gerar (ou é colocada nesse lugar de encubadora mesmo que seja estéril) se relaciona com alguém que pode engravidá-la e que NUNCA será uma mãe. Mesmo que você viva 40 anos com o seu companheiro e não tenha filhos, quando você sai do ambiente privado e vai para o público você é a mãe, ele é um humano de primeira classe com tampão para os ouvidos, almofadinha confortável, fones (Bach e anjos cantando) e você está ali imprensada num canto sem espaço para esticar suas pernas dentro do avião. Isso é a heterossexualidade no mundo real, tangente, por mais que as mulheres héteros sofram mais ou menos violência de acordo sua origem étnica/racial, social. Por mais que você pinte sua heterossexualidade de qualquer coisa, no final você está fazendo o mesmo que a sua mãe. O que eu aconselho? O caminho das pedras, não tente se pintar de menos hétero. Encare os fatos como eles são. É duro, mas ao menos você não vai viver nesse híbrido entre sua consciência feminista e o que você maquia para parecer menos vergonhoso (e não vai encher a minha paciência falando o quanto o seu namorado está se desconstruindo. blerg!)

Não tenha vergonha. Esse é o motor que move o mundo. Não há de ser nada. Não foi você que inventou isso, estava aí quando você nasceu. A única coisa que eu peço é que não jogue em cima das suas amigas lésbicas suas frustrações.

E para nós:

-Sai dessa sapatão! Tem lésbica solteira na pista, tem nosso mundo para construir, tem buceta para chupar. Você não é um sub-homem, você não é a terceira pessoa da trindade (rs), você não é playground também. Você sabe que vai se fuder, para de se odiar e se humilhar por pouca coisa e tenha orgulho de ser quem você é. Abre uma cerva em minha homenagem. Feliz dia da visibilidade LÉSBICA!