As garotas Gilmore em um mundo feminista: uma viagem no tempo

Antes, uma explicação.

Mary Wollstonecraft, pioneira do feminismo. (Obrigada aos leitores que me avisaram sobre o erro da foto anterior… corrigida a tempo!)

A história do feminismo começa a ser contada mais ou menos junto com a Revolução Francesa. Tirando algumas mulheres super pioneiras da Idade Média, foi com o Iluminismo e as noções de liberdade, igualdade e fraternidade que a ideia de direitos iguais para homens e mulheres entrou na “pauta” da sociedade. Nessa época, a feminista que mais se destacou se chamava Mary Wollstonecraft — que escreveu vários livros sobre o tema, teve um comportamento super revolucionário para a época e veio a ser mãe da escritora Mary Shelley — é, aquela autora que escreveu o livro “Frankenstein” era filha da primeira grande feminista da história!

Bom, dito isso, a gente costuma separar a história recente do feminismo em “ondas”.

A primeira “onda” foi essa que começou mais ou menos na Revolução Francesa e terminou lá pelos anos 1920. O foco principal do movimento era o voto feminino. (Para entender melhor esse período recomendo o filme “As Sufragistas”, que passou recentemente no cinema.)

É nesse contexto dos anos 1920 que nasce a primeira Lorelai Gilmore, a mãe do Richard. A “nossa” Lorelai é batizada em homenagem a essa avó — que ficamos conhecendo no episódio “The Third Lorelai”.

Então, entrando no assunto da nossa conversa, vamos falar da terceira — ou primeira — Lorelai.

  1. Lorelai, a avó.

A Lorelai avó nasceu em 1920. O voto feminino foi permitido nos Estados Unidos exatamente neste mesmo ano. Quando ela tinha nove anos de idade, começou a chamada Grande Depressão, um período de recessão fortíssima, em que as pessoas passavam fome, não tinham empregos, enfim, um período muito difícil na história dos Estados Unidos. Os filmes do Charlie Chaplin se passam quase todos nessa época — é quando ele cria a figura do Carlitos, que é um bom sujeito, meio atrapalhado, tentando sobreviver a essa grande fome que se espalhou pela América.

Claro que a família da nossa personagem não deve ter passado muita necessidade — não se sabe qual é a origem da fortuna, mas com certeza conseguiram manter a vida privilegiada à qual estavam acostumados.

Porém, uma criança que cresce em uma época de recessão, mesmo que seja rica, está imersa em uma cultura de escassez que toma conta de toda a sociedade. Isso fica muito claro em um dos primeiros diálogos da Lorelai avó com a neta, depois de anos sem se encontrarem.

A avó interpela a neta por sua vida “desregrada” de mãe solteira.

“Eu sempre detestei escândalos. Mas sempre gostei de autossuficiência. Como você sustenta essa menina?”

“Eu gerencio um hotel.”

“Trabalho duro?”

“É sim.”

“Ótimo. Trabalho duro faz bem para a mulher. Ele a fortalece.”

Quatro gerações de garotas Gilmore.

Assim, vemos como a Lorelai avó, mesmo que obviamente não seja uma feminista, é um reflexo do tempo em que cresceu e formou sua personalidade.

As décadas de 1930 e 1940, época da juventude da primeira Lorelai, na verdade não foram momentos particularmente significativos como palco de lutas feministas, especialmente nos Estados Unidos. Depois de conseguirem o direito ao voto, as militantes do movimento acabaram voltando sua atenção para um tema que se mostrou muito mais importante na época: os esforços pela paz, para tentar evitar o conflito que conhecemos como II Guerra Mundial.

E é nesse momento que entra em cena Emily Gilmore.

2. Emily

A Emily, mãe da Lorelai, nasceu em 1946 — um ano depois de terminar a II Guerra.

Tendo nascido no período pós-guerra, isso explica muito da personalidade rígida de Emily — e também dos seus motivos para ter sido a esposa tradicional, vivendo sua vida em função do marido e da filha, durante todos esses anos.

Durante o esforço de guerra, as mulheres dos países industrializados tiveram que ir trabalhar nas fábricas, assumindo as funções que eram dos homens — porque a maioria deles estava lutando na guerra. Ali não era uma questão de feminismo, e sim de sobrevivência das pessoas e do próprio capitalismo. 
Só que de repente a guerra acabou e todas aquelas mulheres que agora eram capacitadas a trabalhar tiveram que voltar para casa e “devolver” o lugar para os homens que chegavam da Europa. Então os anos 1950, enquanto a Emily crescia, foram aquele período dos “anos dourados”, da dona de casa “perfeita”, dos filmes com Doris Day.

Aí chegam os anos 1960 e as vanguardas “explodem” no mundo todo. 
Um marco no feminismo daquele período foi o livro “A Mística Feminina”, de uma ativista chamada Betty Friedam. É a segunda onda do feminismo. Cinco anos depois de seu lançamento, nasceria Lorelai.

Quer dizer, quando o feminismo estava começando a voltar à pauta — e dessa vez com força total — a Emily já estava na faculdade, provavelmente começando a namorar o Richard. Sendo de uma família conservadora, podemos entender por que “não deu tempo” para ela passar por isso. Não tinha como ela embarcar em um movimento que quebrava tantos paradigmas, sendo quem ela era.

Mas uma das coisas que a gente precisa pensar com um pouco mais de detalhes é sobre a universidade que a Emily frequentou. Na verdade, o próprio fato de ela ir a uma universidade já é uma amostra de que algumas conquistas das mulheres tinham sido incorporadas ao modo de vida convencional, não eram mais coisa de “vanguardistas” ou de “radicais”.

Só que as mulheres da classe social da Emily iam à universidade, mas não com o objetivo de trabalhar. Eram faculdades para mulheres ricas completarem sua formação clássica, socializar com os estudantes das universidades “sérias” e, com sorte, conseguir um bom casamento e se tornarem esposas cultas para maridos da elite americana. A Emily foi para a Smith College, onde curiosamente estudaram a própria Betty Friedam, autora da Mística Feminina, e outra feminista muito importante chamada Gloria Steinem. Mas pelo visto elas não eram da mesma panelinha… rsrsrs

(O filme “O Sorriso da Monalisa” mostra uma faculdade parecida com a Smith College, chamada Wellesley College.)

Durante a pesquisa para fazer esse texto, conversei com minha amiga Mary W., que é especialista em feminismo, e ela me disse o seguinte sobre a Emily:

Ela estava na faculdade mas não deu tempo pra ela. Fez parte mesmo da geração de transição. Que olhando pra cronologia, faz todo o sentido. Ela foi tragada CONTRA o zeigeist. Pela classe social mesmo. Mas, acredito, que mais porque não deu tempo. 
Acho que é importante marcar aqui que os anos 60 foram fundamentais mas de vanguarda. (…) Em uma época de transição, a maioria tende a se alinhar com a corrente conservadora.
Uma autêntica “Filha da Revolução Americana”.

Um outro ponto interessante que explica parte da personalidade da Emily é a questão do patriotismo. Nos anos 1950, 60, 70 e 80, os Estados Unidos dividiam a “liderança do mundo” com a antiga União Soviética. Era a chamada Guerra Fria. Então a Emily acaba pegando a energia realizadora dela e canalizando para esse patriotismo meio “engajado”, na participação dela no grupo das “Filhas de Revolução Americana”. Sem entrar em detalhes para não dar spoiler, nessa nova temporada, enquanto vive o luto pela perda do marido, uma das amarras das quais ela se liberta é justamente a dessa militância, que perde o sentido para ela quando outras coisas passam a ficar mais importantes…

Mas antes disso, lá na década de 1980, a Lorelai adolescente já tinha feito um “desvio” no plano original da família. E sem esse desvio não existiria série, não estaríamos aqui hoje…

3. Lorelai

A Lorelai é uma cria do mundo hippie, do mundo da contracultura, que nos Estados Unidos foi um movimento muito forte nos anos 1970. Ela estava sendo criada naquele mundinho protegido em que viviam os Gilmore, mas o “espírito do tempo” era o da transgressão, o da mudança no comportamento. A rigidez que se esperava das “moças de família”, o apego às regras, tudo isso começava a se afrouxar um pouco. Um filme que mostra bem essa cultura hippie se chama “Hair”. Inclusive uma das personagens é justamente uma moça de família rica, que deve ser uns dez anos mais velha que a Lorelai, e que se encontra com o grupo dos hippies em um determinado momento do filme.

Esse é o contexto da Lorelai. Embora vivesse em um ambiente muito tradicional, ela estava imersa em uma cultura de liberdade, inclusive liberdade sexual. E pertencia a uma geração em que as mães não tinham tido oportunidade de trabalhar, mas apesar disso — ou talvez por isso mesmo –, esperavam que suas filhas buscassem realização em outras coisas além do casamento e dos filhos — inclusive na vida profissional.

Sendo que é sempre bom lembrar que estamos falando de mulheres de classe média alta ou mesmo da elite. Nas classes populares a história é outra… mas isso é tema para outro post.

A vítima da “síndrome da super-mulher”.

As mulheres da geração da Lorelai — que por acaso também é a minha — não recebemos aquela educação clássica das nossas mães. O mundo estava mudando muito rápido. Nós não fomos treinadas para sermos “esposas cultas” e nem ao menos para sermos donas de casa — um dos indicadores desse fato é o aumento da produção (e do consumo) de alimentos industrializados e pré-cozidos e até dos eletrodomésticos como máquina de lavar roupa e forno de microondas. As mulheres entraram no mercado de trabalho para valer, não tinham tempo de cozinhar nem de cuidar da casa. E na verdade também não tinham muito tempo para pensar em feminismo. Foi nessa época que se consolidou a “síndrome da super-mulher”, a jornada dupla, a jornada tripla, as revistas femininas que na mesma capa mostravam dicas para ter um corpo perfeito e receitas dificílimas para deixar seu maridinho feliz, etc. Não é de se espantar que a Lorelai seja tão exigente com ela mesma.

As principais questões do movimento feminista nesse período tinham a ver com os direitos reprodutivos. Nos Estados Unidos, um marco dessa questão é um julgamento da Suprema Corte conhecido como “Caso Roe vs Wade”, que descriminalizou o aborto em todos os estados americanos.

Esse contexto ajuda a entender um pouco a história da Lorelai. Ela escolheu ter seu bebê, aos 16 anos. Mas escolheu também não casar. E tudo isso aconteceu porque, mesmo que a família quisesse impor a ela um modo de vida tradicional, a sociedade já aceitava que mulheres fizessem essas escolhas.

Se a Lorelai avó quisesse ter um filho fora do casamento e fugir de casa, ela provavelmente passaria o resto da vida na miséria, abandonada por todos, sem recursos, etc. As mulheres da época dela dependiam dos homens para tudo. Elas não tinham nem acesso à própria conta bancária! Nos Estados Unidos, as mulheres casadas só ganharam o direito de administrar seus próprios recursos em 1895. Na França, só em 1905 as mulheres casadas conquistaram o direito legal de serem consultadas pelos maridos antes que eles vendessem o patrimônio da família. Para vocês terem uma ideia, aqui no Brasil foi só em 1962 que as mulheres casadas puderam trabalhar fora de casa, e mesmo assim só se o marido permitisse. E foi só com a Constituição de 1988 que o homem deixou de ser considerado legalmente o “chefe da família”.

Mas, voltando a Stars Hollow…

Foi por causa dessas conquistas no campo dos direitos da mulher que a Lorelai pôde sair de Hartford com uma bebê no colo e conseguir seu primeiro emprego no Independence Inn.

4. Rory

Nos anos 1990, quando a Rory era criança, o feminismo estava entrando na chamada “terceira onda”. É quando entram na pauta do movimento as diversidades étnicas e de classe social — até então uma das críticas que se fazia era que o feminismo era predominantemente um movimento de mulheres brancas e de classe média.

É também um feminismo que trata muito das identidades, da representação da mulher na mídia, é quando começam a ser questionados estereótipos de gênero e outras questões que hoje são muito debatidas, principalmente pelas feministas mais jovens. (A respeito desse tema da representação da mulher na mídia, tem um documentário muito bom chamado Miss Representation.)

Ela é da terceira onda…

A Rory hoje tem 32 anos, então ela não se encaixa exatamente nessa nova geração de feministas muito jovens e bastante militantes. Ela pertence a uma geração um pouco mais velha, que embora faça questão de reconhecer as conquistas na luta pela igualdade feminina, meio que se recusa a pensar em termos de “nós contra eles”. Muitas dessas mulheres até rejeitam o rótulo de feministas, ou porque acham que o feminismo “não é mais necessário” ou porque consideram o termo muito limitador e excludente.

O feminismo hoje é muito mais múltiplo. Existem inclusive muitas brigas internas ao feminismo, de correntes que debatem, às vezes muito passionalmente, como deve ser o movimento pelos direitos das mulheres no século XXI. As futuras gerações da família Gilmore com certeza ainda se beneficiarão muito das conquistas que o feminismo já obteve, e das que ainda virão…

(Este texto é um resumo da minha participação no debate realizado durante o evento “Stars Hollow em Quatro Estações”, promovido hoje aqui no Rio, na Praça Jardim do Méier. Agradeço à Alessandra e à Bruna, organizadoras super competentes, a oportunidade de estar com um público tão bacana, que contribuiu com perguntas e comentários muito interessantes.)

Gostou? Clique no coração ❤