Máquinas de comunicar

O que herdamos daquele obsoleto telegrama


Vivemos na era da alta tecnologia, e estamos tão acostumados a ela que não percebemos o quanto algumas invenções que hoje nos parecem toscas, de tão simples, foram revolucionárias para sua época. Pense na roda como um grande invento — sem ela, talvez nenhum outro teria existido. Já houve momentos na história em que acender uma simples fogueira era a prova cabal do gênio humano. No campo das comunicações, os tambores da África transmitiam mensagens sendo ao mesmo tempo a linguagem e a ferramenta de transmissão. Mas talvez uma das maiores inovações, daquelas que mudam para sempre a história da humanidade, é pouco lembrada quando falamos em tecnologia.

Estou falando do telégrafo.

Quem tem menos de 40 ou 50 anos hoje, não deve nunca ter recebido um telegrama na vida. Mesmo a geração que já tem cabelos brancos pouco conviveu com esse meio de comunicação instantânea, e certamente não o suficiente para entender o quanto ele foi importante para estruturar uma rede global de comunicações, coisa que hoje nos parece trivial.

Conheça meu site profissional

O livro “A Informação: Uma História, Uma Teoria, Uma Enxurrada”, de James Gleick, conta a história dessa invenção, destacando justamente seu impacto sobre a forma como pessoas venciam a barreira geográfica para transmitir mensagens. Com a criação do telégrafo, pelo primeira vez o tempo se comprimia, superando instantaneamente o espaço existente entre o emissor e o receptor da mensagem. Com isso,

Observadores culturais começaram a dizer que o telégrafo estava ‘aniquilando’ o tempo e o espaço. Ele ‘permite que nos comuniquemos, por meio do fluido misterioso, com a rapidez do pensamento, possibilitando a aniquilação do tempo e do espaço’, anunciou um funcionário do telégrafo americano em 1860. (“A Informação: Uma História, Uma Teoria, Uma Enxurrada”, de James Gleick, Ed. Companhia das Letras, página 156)

A grande novidade, portanto, era a seguinte: quando se usava o telégrafo, a mensagem se movia “sozinha”, ou seja, sem a necessidade de ser carregada por um mensageiro. Até então, a velocidade de transmissão da mensagem dependia basicamente da possibilidade de se deslocar uma pessoa (ou outros seres vivos como pombos e cavalos, por exemplo) o mais rapidamente possível. Com o telégrafo, foi inventada uma forma de manter os mensageiros parados (os telegrafistas, que ficavam operando as estações telegráficas), movendo apenas a informação em seu estado puro.

Isso foi uma revolução na forma de transmitir dados.

Alguns operadores de telégrafos eram analfabetos. Apenas aprenderam a reproduzir os sinais do código Morse.

Uma revolução tão grandiosa quanto a que vive a nossa geração, que viu o surgimento da internet acelerar de modo exponencial a velocidade das conexões globais. As duas invenções têm em comum o fato de trazerem incontáveis benefícios para as forças armadas, para os conglomerados financeiros, para os organismos comerciais, para os governos, e, finalmente, para as pessoas comuns: famílias se comunicando com parentes distantes, consumidores que passaram a ter acesso a produtos mais sofisticados e/ou mais barato, cidadãos que ganharam voz.

Tudo isso por causa da necessidade de se comunicar mais, melhor, com mais gente.