Meu Bullying

Monstro Medieval
Aug 23, 2017 · 4 min read

Eu sofri bullying quando era adolescente, lá pelos 13, 14 anos. Eram uns cascudos, implicância, irritações, surras. Comecei a reagir quando minha mãe — meu pai já tinha morrido — disse “mete a porrada, eu me entendo com a escola”. Foi o que fiz. Mesmo sendo menor eu comecei a deixar alguns olhos roxos no colégio e o bullying diminuiu. Acho que parou de vez quando fui jogar basquete com os outros garotos no recreio. Eu era horrível, o suficiente para me impedirem de jogar, mas não fizeram. Também não me passaram a me defender e os bullies pararam de agir. Vou explicar isso ao longo do texto.

Antes tenho que começar por uma parte que me incomoda muito: “agora tudo é bullying”. Infelizmente certa histeria transformou tudo em bullying e então as pessoas que não sabem o que é isso porque não sofreram de verdade dizem “frescura, agora tudo é bullying, no meu tempo todo mundo era zoado e ninguém tinha trauma”. Então, camarada, não era bullying o que você passava, era só uma zoação tranquila entre colegas. O bullying é covarde, são vários contra um, todos os dias, não tem variação de quem é zoado, não tem “pega leve”, a coisa cresce, fica violenta porque um quer mostrar que fez a maior sacanagem do que o outro. Enquanto um grupo age, outro grupo assiste ou finge que não vê.

Percebam a plateia, que até filma

O bullying tem participantes ativos e passivos, que são aqueles omissos, que não ajudam quem está apanhando e talvez até coloquem lenha na fogueira. Afinal, todos querem estar do lado vencedor e ninguém vai ajudar o garoto sozinho que está apanhando. É nesse grupo que a maior parte dos garotos com quem joguei basquete pode se encaixar. Eles não ligavam de eu apanhar antes, mas também não se opunham à minha participação nos jogos. Os bullies passaram a ser minoria, eram então membros do time perdedor e era melhor mudar de time.

Acredito que o bullying comece naquela fase do colégio em que os professores não têm mais a sua turma, e os alunos passam a ser vigiados por poucos inspetores. Centenas de pré-adolescentes vigiados por dois ou três funcionários mal pagos. Os professores estão escondidos em sua sala tomando café. A vítima sofre sozinha e tem vergonha de contar aos pais também, por diversos motivos. Falta abertura, vergonha, medo de parecer covarde.

Às vezes a vítima reage e aí a coisa fica engraçada porque milagrosamente é nessa hora que inspetores aparecem, alunos são levados à direção, pais são chamados, muitas vezes a vítima é punida junto. Sei porque me aconteceu, e com Casey Heynes também. Se acha que o que falo é apenas minha opinião, (re)veja a entrevista com o garoto que reagiu e conquistou simpatia, chamando atenção para o bullying pela primeira vez que eu me lembre.

Eu não sofri nem perto do que ele sofreu

Infelizmente a história dele é exceção, dificilmente o bullying tem final feliz. O que acontece na maioria é uma pessoa que cresce com sérios problemas de autoestima e relacionamento, com uma revolta interna que reaparece meio que do nada para atrapalhar um dia bom. Essas são as histórias não muito boas, na qual eu me encaixo. Por vezes o fim pode ser trágico. Alguns podem cometer suicídio ainda na escola, outros não conseguem nunca superar e levam uma vida miserável, talvez se matando mais tarde.

Casey e eu reagimos com violência e, no meu caso, passando para o time vencedor ao começar a jogar basquete. Mas se a reação da vítima chama atenção da escola, por vezes ela chama a atenção dos jornais. Agora começa a parte feia do texto que talvez você não queira ler.

Columbine, Virginia Tech, Realengo. Só três histórias que me vêm à cabeça agora. É fácil colocar esses casos como o de malucos isolados ou, como querem fazer agora, terroristas. Não, isso não é terror, não são casos isolados, não são malucos, são caras que sofriam bullying chegando ao extremo. Tentar essas explicações é tentar varrer pra longe a culpa que as escolas, professores, educadores, inspetores, pais e alunos têm no bullying. Certamente se você não sofreu você fez ou se omitiu e ao tentar dar essas explicações está se omitindo de novo porque não quer admitir sua parcela de culpa. Claro que não acho certa essa reação extrema mas ela acontece, é real, não dá pra simplesmente dizer “é um maluco”, “é um terrorista”, porque essa é uma explicação covarde que não vai atingir a causa.

Quando alguém comete um crime comum algumas pessoas tentam explicar pelo passado da pessoa, o abandono, a falta de perspectivas, de esperanças, oportunidades. Por que quando alguém faz um massacre como os que citei ninguém parece se interessar pela causa verdadeira? “A culpa é da facilidade de acesso às armas”, ainda é uma explicação mais fácil. “Terrorismo de branco”, por favor, alguns casos se encaixam aí mas você não vai explicar todos com essa justificativa. Lembrem que o assassino em Virginia Tech era coreano e o de Realengo era negro.

Eu sei que esse texto não vai mudar a ideia de ninguém, dificilmente fará alguém pensar. Dane-se.

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