Só os idiotas pedem Paz (por André Monnerat)

Monstro Medieval
Aug 23, 2017 · 3 min read

Esse texto é de um colega, publicado por volta de 2003. Infelizmente seu blog não está mais no ar mas como o texto continua atual, ei-lo.

Quantas vezes você viu algum tipo de peça publicitária pedindo “paz” hoje? Nesses tempos de Bush e Beira-Mar, essas campanhas estão se alastrando. Abraços na Lagoa, times de futebol vestindo camisas, mega-painéis em prédios com as três letras mágicas, enfim — pra onde você olhar, tem alguém pedindo Paz.

Deixe-me dizer: estou fora dessa. Foda-se todas as campanhas pedindo paz. Guerra a elas.

Antes que me tomem por um Bush sem botão vermelho pra apertar, deixem-me dizer que não sou contra a Paz. Como é possível ser contra a “Paz”, esta entidade etérea, intangível e perfeita? Se perguntarem ao Beira-Mar, ao Bush, ao Bin Laden ou ao MC Serginho, eles também se dirão favoráveis à “Paz”.

Campanhas por Paz não adiantam de nada. Qualquer um é capaz de pedir Paz — outro dia mesmo vi o Carlinhos Brown pedindo “aquela paz que a gente constrói no nosso dia-a-dia”, como se a minha rotina pudesse modificar o trajeto das balas na minha janela — e qualquer um é capaz de concordar e querer se engajar em causa tão justa. Me parece, inclusive, que a população em peso realmente está aderindo. A enorme maioria afirma não estar mandando o comércio fechar as portas nem fabricando armas químicas e atômicas.

Façamos portanto pedidos mais objetivos. Se pedirmos “Paz” às autoridades do Rio de Janeiro, elas concordarão e dirão que estão fazendo todos os esforços possíveis para isso. Mas e se pedirmos a demissão e substituição de todos ligados à administração e vigilância carcerária — esses que permitem que a maior preocupação de nossa política de segurança seja um cara que já está preso? Será que a família Garotinho vai concordar, ou irá desconversar e dizer que não é assim que funciona?

Deputados e governo federais, claro, também querem a Paz. Se pedirmos a eles, claro, concordarão e formarão uma comissão parlamentar para estudar o assunto. Mas e se pedirmos a descriminalização de drogas, fazendo com que o dinheiro deste comércio deixe de ir para a compra de armas e munição por bandidos? Ou se reivindicarmos a proibição do porte de armas por seja quem for, à exceção de polícia e exército? Afinal, me parece claro que quem carrega uma arma pensa em atirar com ela em alguma situação, e isso nunca pode ser bom.

Mesmo o Bush apóia a Paz. Dizem que só usa roupas íntimas da cor branca. Em casa, nunca ergueu a mão a seus familiares, amigos e vizinhos, nem mesmo aqueles mais chatos. Se pedirmos Paz, ele dirá que nós a teremos, assim que ele e seu exército aniquilarem todos que se opõem a ela. Mas e se pedirmos simplesmente coerência? Afinal, se Saddam é ditador e desrespeita direitos humanos, ditadura e falta de humanidade também há na China, e ninguém quer fazer invasão nenhuma por lá. Se há a suspeita da existência de armas de destruição em massa no Iraque, sabe-se com certeza que elas existem na Coréia do Norte, no Paquistão e na Índia — e não há tropas americanas indo para nenhum desses países. Que tal, portanto, ao invés de pedir paz, pedirmos explicações para tantos pesos e medidas diferentes?

Já vi anúncios pedindo Paz patrocinados por revista de turismo, por plano de saúde, enfim, por todo tipo de organização — até mesmo governos. Todo mundo quer pegar a sua carona, já que a pomba branca não pede cachê pra ser garoto-propaganda. Pedir Paz é fácil; é não se comprometer com nenhuma causa concreta e fazer pose de simpático.

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