A edição de “Cidade de Deus” por Daniel Rezende.

Regina Dias pergunta a Daniel Rezende

Como foi o processo de seleção do material?

Você trabalhou integralmente com o roteiro ou foram surgindo outras soluções?

Antes da versão final, quantas foram realizadas?

A “violência” do ritmo está diretamente relacionado com a violência da trama?

Fale um pouco como a música foi sendo introduzida no filme.

O ritmo de edição é inovador.
De sua visão como montador, e de seu conhecimento em cinema, o que é verdadeiramente revolucionário na edição?

A utilização da linguagem clipada acaba trazendo para o espectador um pouco da tensão necessária?

Qual o tipo (ou tipos) de material original utilizado? Você teve acesso parcialmente ou iniciou com todo ele à mão?

Poderia descrever os processos posteriores ao corte final? (resumo,claro)

Este filme entra para a história do cinema brasileiro como um marco: ótimo roteiro, excelente direção, edição, fotografia, tecnicamente perfeito; combativo e polêmico.
Você concorda?

Daniel Rezende:

Ter um filme como o Cidade de Deus como primeiro trabalho em longa-metragem é uma experiência difícil de descrever. Primeiro não imaginávamos tamanha repercussão. Também porque foi um trabalho atípico.

A reunião de excelentes talentos, complicou um pouquinho a vida do montador. Começando pelo roteiro cheio de viravoltas e que já propunha uma velocidade muito rápida ao filme. Devo ressaltar que algumas “sacadas de montagem” estavam já no roteiro.

A trinca Fernando Meirelles, Kátia Lund e Cesar Charlone é genial: com atores não-profissionais e a linguagem proposta, a quantidade de opç ões de montagem era infinita. Havia muito material (muito mesmo) e o processo de seleção de primeira, como todos os meus outros trabalhos, foi “feeling”. Como já trabalhava com o Fernando há quase quatro anos, nos conheciamos bastante. Na maioria das vezes, ele quase não me “brifava” para ver qual seria minha primeira impressão sobre a cena.

Creio que foram cinco meses de trabalho (dois deles durante a filmagem no Rio); o roteiro sempre foi espetacular, mas algumas cenas foram criadas, ou modificadas durante a filmagem. Também tenho uma pequena culpa nisso, porque cenas que eram grandes no roteiro, se tornaram, na montagem, menos importantes e vice-versa. (fora os extras, só para DVD).

Creio que foram feitos SETE CORTES no total.

A “violência” da montagem com a trama, e a tensão no espectador são histórias longas, que eu vou gentilmente pedir para que você leia no meu texto no site do Cidade de Deus (www.cidadededeus.com.br) e que fala basicamente sobre isso.

Cerca de um terço das músicas que estão na versão final do filme, foram colocadas durante a fase de montagem. Fiz uma pesquisa, mas quem realmente ajudou a dar a cara da trilha (não das músicas) foi a Ciça Meirelles, mulher do Fernando.

Quanto a linguagem de video-clip, tenho um ponto para dizer: é um assunto que sempre vem à tona; e respondo com outra pergunta: o que é uma edição de videoclip? uma edição muito cortada? uma edição com ritmo?! musical???!!!

Não sei responder, mas tenho certeza que uma boa edição é aquela cuja a velocidade é pertinente ao filme, que tem ritmo próprio e,principalmente, que “pensa” no som, quase que antes da imagem.

(arrisco a frase: Montagem é Som)

Também devolvo a pergunta: o que é uma montagem inovadora? “Montagem Moderna”? O que tem no Cidade de Deus que já não vimos em “Sem Destino”, por exemplo. “O Encouraçado Poltemkin”? (não me lembro como se escreve, perdão) também não sei te responder. Acho que tudo que é pertinente é moderno, quanto mais pertinente, mais inovador…

Quanto à polêmica do filme, creio que já temos muitas informações na mídia. O que posso dizer é que todos (todos mesmo) que estavam envolvidos neste trabalho, acreditaram muito e fizeram o melhor; talvez seja a causa de tanto sucesso. É muito bom ter como retorno, não as críticas, nem tanto a bilheteria, mas uma volta em grande estílo de uma discussão sobre o cinema nacional, como fez o Cidade de Deus; as pessoas gostam, e querem mais.

Vamos continuar trabalhando para não decepcioná-las…

Daniel Rezende outubro 2002

Cidade de Deus foi meu primeiro trabalho em longa-metragem, até então eu havia montado publicidade, vÌdeo-clipes e alguns vÌdeo minutos.

Trabalhava com o Fernando há quatro anos quando ele me convidou. O filme já estava bem estruturado na cabeça dele, da Kátia e do César. O roteiro, que divide o filme em três histórias, já propunha que trabalhássemos como se fossem três filmes diferentes dentro do mesmo projeto.

A primeira parte (A história do Cabeleira), mostra o começo da criminalidade na Cidade de Deus em meados da década de 60, ainda iniciante e, de certa forma, “ingenua”. Optamos por uma montagem mais “clássica”, com cortes corretos, utilizando “racord”, respeitando eixos e privilegiando a ação.

A segunda parte (A história do Zé Pequeno), situa-se nos anos 70, onde a criminalidade já não é a maior fonte de renda dando espaço às drogas, e ao tráfico, que é o negócio do momento. Nesta história a montagem começa a ficar mais livre e menos conceitual, o racord já não é mais tão importante. A liberdade dos cortes causa um certo estranhamento no expectador preparando-o para um clima bem mais pesado que vai se aproximando

Já na última parte (A história do Mané Galinha), estamos quase nos anos 80 e a guerra pelo tráfico se instalou na favela. Aqui a liberdade é total, não me preocupei com racords, continuidade de tempo e ação, eixo ou qualquer uma das “regras” de montagem, fazendo-a muito presente, e causando estranhamento. Esta “estranheza” nos passa sensações de sufocamento e tensão, é frenético, com pouco respiro. Uma pessoa fala, mas não precisa necessariamente mexer os lábios, uma outra levanta em um take e pode estar sentado no próximo o “estranho” é bem vindo.

No total foram quase cinco meses de trabalho entre a primeira cena e o último corte. Algumas cenas foram filmadas com duas ou três câmeras ao mesmo tempo, a maioria dos atores não era profissional e não leram o roteiro antes das filmagens, eles mudavam os textos e ficavam em posições diferentes de um take para o outro. Viviam uma nova cena a cada take. Se por um lado isso causa uma maior espontaniedade dando maior veracidade à cena, por outro dificultou enormemente a vida do montador.

…difÌcil avaliar o filme estando tão envolvido, mas tenho a impressão que cumpriu o seu propósito. … impressionante, verdadeiro e diferente da maioria dos filmes nacionais dos últimos tempos. … apaixonante, não se passa por ele com indiferença.

Estou feliz com o nosso trabalho.